quinta-feira, 4 de agosto de 2011

What A Wonderful World – Louis Armstrong (1967)



A canção foi obra de Bob Thiele (1922-1996) e George Weiss (1921-2010).
Segundo Thiele, o clima de tristeza pela morte de Kennedy, a luta pelos direitos civis e a Guerra do Vietnã foram as fontes de inspiração à composição. Thiele mostrou a canção para  Louis Armstrong. Este adorou a canção, identificou-se com a esperança da letra e respondeu: “Vamos gravá-la!”
Mas não foi tão fácil assim. Diz-se que os arranjos com cordas, metais e coral não agradaram ao presidente da gravadora ABC, Larry Newton, que cogitou interromper a gravação no meio da sessão de estúdio.
O argumento não procede.
 Armstrong já havia gravado com cordas, metais e até uma orquestra sinfônica.
A letra de “What A Wonderful Word”, carregada de otimismo, esperança e declaradamente pacifista foi o verdadeiro motivo do desinteresse.
A canção foi gravada em 16 de agosto de 1967, uma pequena quantidade de discos foi produzida, mas não houve distribuição. Armstrong gostou tanto da canção que queria gravá-la sem receber pagamento. Foi dissuadido e aceitou o cachê mínimo de US$ 250.
Por meios misteriosos, mas justos e regulares, a gravação foi parar na Inglaterra e lançada pelo selo HMV. A canção entrou no Hit Parade inglês em 16 de março de 1968, alcançou o primeiro lugar em 27 de abril, ficando nesta posição por 4 semanas. No total, a canção ficou por 23 semanas entre as 50 mais executadas, vendendo 600 mil cópias.
No Brasil, foi lançado um compacto duplo (single com 4 faixas) e de grande procura.
Nos Estados Unidos, o álbum foi colocado à venda de modo apressado, por causa do sucesso britânico, mas "What A Wonderful World" não foi divulgada; "Cabaret", "Fantastic, That's You" e "Dream A Little Dream" foram as faixas de trabalho. Outra curiosidade é a capa original: uma foto horrível sobre um fundo improvisado.
Foto: Agência O Globo
Louis Daniel Armstrong nasceu há 110 anos, em 4 de agosto de 1901.
O filho mais conhecido de New Orleans cresceu numa família disfuncional. Ainda cedo, aos 11 anos, foi condenado a passar alguns anos num reformatório por disparar um revólver numa festa de fim de ano. Preso, aprendeu música e dela viveu até morrer. Sem exagero: a música salvou sua vida.
Sua influência sobre os músicos e na indústria musical é enorme. O impacto social de seu sucesso fez surgir talentos da raça negra por todo mundo. Antes de Armstrong, ninguém gravava os solos de Jazz num disco, temiam a cópia, a imitação; Armstrong, não. Além disso, trouxe prestígio aos próprios discos, considerados no início do Século XX uma moda passageira. Quando gravou o primeiro disco sequer havia o rádio.
As gravações nos conjuntos Hot Five e Hot Seven são históricas e consideradas sua melhor fase. Após o advento do CD, no início dos anos 1980, é que sua obra completa pôde ser revista e estudada.
As notas musicais alcançadas pelo seu trompete ainda são de difícil execução até para o músico bem treinado. Seu modo único de cantar, o scat singing, serviu de inspiração a Billie Holiday (1915-1959) e todas as cantoras e cantores do Jazz.
“Fui o primeiro músico negro a ser aceito nos hotéis brancos importantes.”
Mas, quando desfez sua Big Band e resolveu incorporar sucessos mais populares ao seu repertório, foi acusado de ter-se tornado “extremamente comercial” e passou a ser desprezado pela nova geração de jazzistas, especialmente na fase do Bebop, a partir de 1945.
Sua discografia dos anos 1950 e 1960 foi ignorada pelos críticos e puristas, embora contivesse pérolas, como os álbuns com Ella Fitzgerald (1917-1996), Oscar Peterson (1925-2007), Duke Ellignton (1899-1974), além do seu “Satch Plays Fats”, de 1955.
No final dos anos 1940, arregimentou um pequeno grupo de músicos, os “All-Stars”, possibilitando maior flexibilidade para se apresentar mundo afora, inclusive no Brasil, em 1957.
Armstrong, Juscelino Kubitschek
(Presidente do Brasil entre 1956-1961) e
Ataulfo Alves. Foto: Agência O Globo 
Seus álbuns ficaram mais escassos, mas seus shows permaneceram lotados. E, com isso, atraiu inveja. De fato, Armstrong adorava entreter sua plateia, mas estava longe de ser o “Uncle Tom” – personagem negro e subserviente da literatura americana – que os negros politizados e segregacionistas o apelidaram.
A legítima luta pelos direitos civis nos Estados Unidos não tinha Louis Armstrong como porta-voz, mas ele protestava a seu modo.
Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética exaltavam como podiam sua cultura e sistema político. Louis Armstrong foi embaixador musical e excursionava pelos países do bloco soviético.
Sim, o Jazz foi usado para promover o “American way of life”. Além disso, Louis sempre se apresentou para tropas americanas nas Guerras da Coreia (1950-1953) e do Vietnã (1959-1975).
Mas, em 1957, o governador do estado americano do Arkansas impediu que crianças negras frequentassem uma escola. Louis Armstrong cancelou mais uma viagem à União Soviética. Nem um telefonema do Departamento de Estado demoveu Armstrong da decisão e deu entrevistas à imprensa, dizendo:
“Do jeito que tratam meu povo no Sul, vá pro inferno o governo.
Eisenhower é um ‘duas caras’.”
Foto: Agência O Globo
Quando faleceu, em 6 de julho de 1971, todos os amigos e aqueles que o desrespeitaram estavam presentes. A capela de Corona, Nova York, foi pequena para seu funeral. Cerca de 25 mil pessoas ficaram do lado de fora – brancos e negros. Um deles, Bing Crosby (1903-1977), cunhou a melhor frase:

“Ele foi o início e o fim da música americana”.

Notas Fora da Pauta
Nota 1 – O apelido “Satchmo” (boca de bolsa) foi dado por jazzistas ingleses, em 1932.
Nota 2 – Ao contrário do publicado por importante jornalista, Louis Armstrong nunca gravou “Garota de Ipanema”. Fato: no intervalo de um show para a TV francesa, em 27 de Julho de 1967, seus músicos tocaram a canção. Quando Louis retorna ao palco, toca ao trompete notas soltas - não relativas à melodia ou harmonia - e retoma a segunda parte de sua apresentação. Está gravado num LP ao vivo (selo Joker, 1967).
Nota 3 – Quando faleceu, seus bens somavam cerca de 500 mil dólares, em valores da época. Para quem fora acusado de ser “extremamente comercial”, pode-se dizer que não morreu milionário.
Nota 4 – Embora o filme “Bom dia, Vietnã” seja ambientado no ano de 1965, a música “What A Wonderful Word” foi incluída na trilha sonora, provocando um renovado interesse pela obra de Armstrong. A música ficou no anonimato nos Estados Unidos até 1988.

Nota 5 - Por conta da boa acolhida de "What A Wonderful World" em território britânico, Armstrong aceitou cantar "We Have All The Time In The World" (John Barry-Hal David), música tema de filme de James Bond. Armstrong, já doente, voou até Londres sozinho, gravou a canção resignado, porque ele não tinha mais "Todo o tempo do mundo" como diz a letra.


Nota 6 - Sua residência em Corona, Nova York, é atualmente um museu.

Nota 7 – Em 1970, Louis gravou “Give Peace a Chance”, de John Lennon. Louis Armstrong, otimista até o fim da vida.

2 comentários:

  1. Jacy,
    Obrigado. Armstrong prova que a esperança é o que vale na vida.

    Estou encaminhando a todos os meus amigos.

    Repetitivamente, mas necessariamente, parabéns!!!

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  2. A gravação não é considerada Jazz pelos especialistas, o que é fato. Otimista inveterado, Armstrong fez desta a sua música mais conhecida.

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