quinta-feira, 21 de julho de 2011

Spartacus – Aram Khachaturian (1954)

Spartacus: uma história sobre a conquista e o preço da liberdade.
Em 73 antes de Cristo, Spartacus era mais um escravo do Império Romano que trabalhava como minerador.
Devido ao seu porte físico foi levado para uma escola de gladiadores a ser treinado para o circo de horrores que era o Coliseu romano.
Fugiu e liderou um exército de escravos contra a opressão do Império Romano.
Spartacus morreu e tornou-se herói.

Pelo fato de se passar em tempos antes de Cristo (fé, religião ou qualquer manifestação considerada “ópio do povo” por comunistas), a antiga União Soviética enxergou em Spartacus um veículo ideal para exaltar o Comunismo e atacar o Capitalismo: um homem comum liderando um levante contra a exploração humana.
Kachaturian foi o compositor encarregado de compor a música para o balé Spartacus. Levou 4 anos no processo.
O trecho mais conhecido é o Adágio de Spartacus e Phrygia.
A execução do YouTube é da San Francisco School Of The Arts Orchestra, regida por Jerry Pannone.




Aram Ilych Khachaturian nasceu em 1903 na Armênia. Em 1920, a região foi incorporada pela União Soviética (1917-1989). Khachaturian, fascinado por música, não sabia nada sobre teoria musical, mas foi aceito, em 1925, num conservatório.
Em 1929, foi transferido para o Conservatório de Moscou, destacando-se pela dedicação e qualidade de suas composições.
Ganhou projeção, em 1939, ao compor a música para o balé Gayane, cujo tema mais conhecido é a "Dança do Sabre". No vídeo do YouTube, a composição é executada pela Moscow State Academic Symphony Orchestra, sob regência de Pavel Kogan.



O sucesso de suas composições trouxe reconhecimento fora das fronteiras soviéticas. E ele pagaria um preço alto por isso.

Khachaturian filiou-se ao Partido Comunista Soviético em 1943, mas não foi o suficiente. Os tempos estavam mudando.
O término da Segunda Guerra (1939-1945) deu início à polarização do mundo em zonas de influência americana e soviética.

Assim, nascia a Guerra Fria - período de desconfiança, espionagem, golpes de estado, assassinatos, culto à personalidade, perseguição ideológica e muita propaganda política.
As artes não ficaram de fora.
A música, o teatro, a dança, a literatura e o cinema – que mal haviam servido à propaganda de guerra - estavam, novamente a serviço da política. Desta vez, exaltando o que cada sistema tinha de “melhor” que o outro; o tinham de pior também.

Em 1948, na União Soviética, o Decreto Zhdanov enquadrou os compositores Shostakovich (1906-1975), Prokofiev (1891-1953) e Khachaturian (1903-1978) na lista de artistas que produziam obras “contra a revolução popular”. Foram condenados à censura (que já existia) e a pedirem desculpas públicas.
Sem nenhuma coincidência, os três eram amplamente admirados e reconhecidos pelo seu talento fora da “Cortina de Ferro” (termo cunhado por Winston Churchill).
Sobre a condenação, Khachaturian disse mais tarde:

“Aqueles dias foram trágicos para mim. Meu discurso de arrependimento não foi sincero. Fiquei arrasado e destruído.
Pensei seriamente em mudar de profissão.”


Em 1954, Khachaturian apresentou às autoridades soviéticas a música para o balé Spartacus. No mesmo ano, sua obra recebeu o Prêmio Lenin, antes de a coreografia ficar pronta, que só aconteceria em 1956.
O sucesso foi imediato e nova coreografia foi encomendada, desta vez para o Ballet Bolshoi, modelo soviético de rigor artístico.
Khachaturian viajou pela Europa livre, regendo a orquestra e acompanhando o balé.
Não pediu asilo político porque não quis.
Garantiu sua liberdade de expressão após compor Spartacus.

Foto: www.amazon.com/
Em 1962, gravou suas principais obras pela gravadora Decca, regendo a prestigiosa Orquestra Sinfônica de Viena.

O álbum, apesar do tempo, ainda é considerado o melhor registro da obra de Khachaturian. Encontra-se à venda em lojas online: CD ou download.

Foi gravado no chamado "Decca 3", o primeiro e mais simples esquema de microfonação de estúdio para registro orquestral: 3 microfones apenas, suspensos sobre a orquestra (2,5 - 3 metros). Os microfones direito e esquerdo separados entre si em 2 metros. O terceiro, afastado 1,5 m dos outros, formando um T. Apesar de hoje termos muito mais canais para a gravação, o Decca 3 ainda é amplamente utilizado, pois abrange o espectro sonoro necessário para a estereofonia - canais direito, esquerdo e o som central.
Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Adágio é um termo usado para marcar e assinalar ao maestro que o tempo é lento na execução de obra musical.

Nota 2 – Nos anos 1970, o Adágio de Spartacus e Phrygia foi usado como tema de abertura da série The Onedin Line, da BBC.

Nota 3 – O equivalente americano ao Decreto Zhdanov foi o período do Macartismo. O Comitê do Senado para Atividades Antiamericanas, sob a alegação de visto, expulsou Charles Chaplin (1889-1977) dos Estados Unidos, acusado de ser comunista.
Frank Sinatra (1915-1998), um declarado anticomunista, e outros músicos foram interrogados.
Atores, escritores, diretores de teatro e cinema foram colocados na “lista negra” e impedidos de trabalhar.

Nota 4 – Em 1960, uma versão cinematográfica de Spartacus foi produzida pelo ator Kirk Douglas. O roteirista Dalton Trumbo (1905-1976) - comunista e na lista negra -, o diretor Stanley Kubrick (1928-1999) e o compositor Alex North (1910-1991) fizeram de Spartacus uma obra-prima contra o autoritarismo e a luta pela liberdade.
No filme, Spartacus morre crucificado. O filme recebeu 4 Oscars, incluindo trilha sonora.

Nota 5 – Dalton Trumbo, em 1960 escreveu, em pseudônimo, os roteiros para dois épicos: Exodus, de Otto Preminger (1906-1986) e Spartacus, de Kirk Douglas.
O nome de Trumbo não apareceria nos créditos.
Otto e Douglas anunciaram publicamente que Trumbo era o roteirista e garantiram a proteção à sua liberdade de expressão.

Jacy Dasilva

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Empty Garden (Hey, Hey, Johnny) – Elton John (1982)



A mais bela dentre as homenagens póstumas a John Lennon, sem dúvida.
Lançada em maio de 1982, “Empty Garden” tem a marca do poeta Bernie Taupin, letrista de Elton John.
A música nos conta a história de um jardim sem jardineiro. As metáforas usadas por Taupin são adequadas, mas o jardim ao qual ele se refere é, em verdade, o Madison Square Garden, templo da música em Nova York. Por quê?

Em 1974, John Lennon, separado de Yoko Ono, foi para Los Angeles e começou a preparar seu álbum “Walls And Bridges”. Lá encontrou Elton John no auge da fama e começaram a trocar ideias musicais. Elton gostou tanto da composição de John, “Whatever Gets You Thru The Night”, que praticamente a produziu: tocou piano, órgão e gravou vocais com John.
Elton propôs uma aposta: “Se esse disco chegar ao 1° do hit parade, você tocará no meu show no Madison Square Garden em novembro!”. John, não acreditando na “profecia” de Elton, aceitou.
E sejamos francos: “Whatever Gets You Thru The Night” se parece muito mais com o material que Elton John produzia na época do que com uma típica canção de Lennon.

O álbum “Walls And Bridges” atingiu o 1º lugar e Lennon cumpriu a promessa. Subiu ao palco do Madison Square Garden, tocou e cantou “Lucy And The Sky With Diamonds”, “Whatever Gets You Thru The Night” e “I Saw Her Standing There” no dia 28 de novembro de 1974. Foi a última apresentação ao vivo de John Lennon.
Elton sabia que John e Yoko estavam separados, mas convidou Yoko para assistir ao show e promoveu a reconciliação do casal nos bastidores.



Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Elton John é padrinho do único filho de John e Yoko, Sean.

Nota 2 – Elton John estava viajando para Melbourne, Austrália, quando soube do assassinato de John Lennon. Desembarcou do avião e telefonou para Yoko. Impedido de ir ao funeral mandou celebrar uma missa em Melbourne.

Nota 3 – A faixa “Empty Garden” faz parte do álbum “Jump Up!”. Elton evita que a mesma seja incluída em suas coletâneas e prefere tocá-la ao vivo, especialmente quando está em Nova York. Quando se apresentou, em agosto de 1982 no Madison Square Garden, Yoko e Sean foram chamados ao palco.

Nota 4 – “Empty Garden” não foi a única composição de Elton em homenagem a John. “The Man Who Never Died”, um tema instrumental, também foi dedicado a John.



Jacy Dasilva

Here Today – Paul McCartney (1982)



Em março de 1982, Paul McCartney lançou o álbum “Tug Of War” com a tão esperada homenagem ao parceiro e amigo, John Lennon - a canção “Here Today”.

Em 1980, o álbum de Paul, chamado McCartney II, foi uma aula de egocentrismo: Paul tocou todos os instrumentos e o resultado foi péssimo.
Extremamente mal produzido, apenas “Waterfalls” e “Coming Up” se destacam. Para tentar salvar o álbum, a versão ao vivo (e bem melhor) de “Coming Up” foi lançada em single.

John ironizou Paul, mas elogiou “Coming Up”. Paul, no videoclipe da mesma canção ironiza John. No bumbo da bateria está escrito “Plastic”, uma referência a The Plastic Ono Band, formada por John nos anos 1970.

Assim foram os anos 1970: troca de farpas entre os dois maiores compositores populares do século XX. Os advogados marcavam reuniões e ambos concordavam em não fazerem ataques mútuos, pela imprensa ou via canções.

Porém, Paul e Linda McCartney visitavam John e Yoko com frequência e a amizade era verdadeira. A rivalidade era musical.
Outra diferença não superada era o desejo de que todos os ex-Beatles guardassem dinheiro para comprarem os direitos autorais de todas as composições dos Beatles e formassem uma única editora musical.
Paul achava um absurdo pagar para tocar suas próprias composições.
O único conciliador era Ringo Starr, espantosamente aquele com menor número de composições próprias e que nada lucraria se as composições de Lennon & McCartney pertencessem à dupla.
George Harrison (1943-2001) comprou a maioria de suas composições e formou sua editora musical, a Harrissongs.

“All Those Years Ago”, tributo de Harrison, tocou nas rádios durante todo o ano de 1981 e ganhou novo fôlego no mês de dezembro, quando se completou 1 ano da morte de John Lennon.
O mundo musical cobrava uma homenagem de Paul McCartney; os fãs, idem.

Em 1981, Paul chamou o 5° Beatle, George Martin e o engenheiro de som Geoff Emerick para fazer seu melhor álbum em anos, “Tug of War” (cabo de guerra). Ao contrário do álbum de 1980, Paul convidou músicos – Stevie Wonder, Stanley Clarke, Eric Stewart, Denny Laine, Steve Gadd, Ringo Starr e o veterano Carl Perkins (1932-1998). O resultado foi suntuoso, bem gravado e mixado (digitalmente). O álbum começa com um manifesto pacifista, “Tug of War” e termina com outro manifesto, a faixa “Ebony and Ivory”, contra o preconceito racial – temas em que John Lennon era mestre.
Era a tentativa de Paul, que fora demonizado pela imprensa após a morte de John, em mostrar que não era apenas um autor de boas melodias, que era capaz de politizar suas letras.

A faixa “Here Today”, em homenagem a John Lennon, foi composta no estilo de “Yesterday”, usando acordes semelhantes e arranjos discretos de um quarteto de cordas. Nesta, Paul tem uma conversa imaginária com John, relembrando a amizade, a ironia de John e até as diferenças entre ambos. Ao final, agradece a John por “estar” em sua canção.
A tão esperada homenagem veio de forma simples e honesta.
Nas reportagens que precederam o lançamento do álbum, Paul não fez alarde da faixa em tributo ao amigo, apenas confirmava que sua presença.

Notas Fora da Pauta

Nota 1– Os álbuns “Band On The Run” (1974), “Venus And Mars” (1975), “Tug Of War” (1982), “Flowers In The Dirt” (1990) e “Run Devil, Run” (1999) são os mais coesos, gravados em estúdio, da discografia de Paul. Ele é um excelente compositor de singles e, por isso as compilações e os álbuns de shows são os mais recomendados.

Nota 2 – Paul começou a cantar em shows “Here Today” apenas recentemente, após a morte de George Harrison, em 2001.

Nota 3 – George Harrison nunca foi convidado para um álbum de Paul McCartney. Paul canta em shows “Something” em homenagem a George.

Nota 4 – Ganhei o LP “Tug Of War” num sorteio telefônico na Rádio Cidade, Rio de Janeiro, em 1982.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 6 de julho de 2011

All Those Years Ago (George Harrison) 1981




A gravação de George Harrison (1943-2001) para homenagear seu amigo e ex-Beatle, John Lennon não foi feita, originariamente, com esse propósito.

Em 1980, George compôs “Wreck My Brain” e “All Those Years Ago” para o também ex-beatle, Ringo Starr.
A carreira solo de Ringo é marcada por composições e participações dos ex-Beatles nas gravações e produções de seus álbuns.
Mas havia um problema com “All Those Years Ago”: Ringo não tinha extensão vocal para cantá-la; George guardou a canção.

Em 8 de dezembro de 1980, John Lennon foi assassinado na porta de sua residência em Nova York. Após o choque inicial, George tirou da gaveta “All Those Years Ago” – que já possuía uma letra saudosista – e reescreveu a letra para homenagear o amigo John.

Para a gravação, George Harrison com as presenças de Paul McCartney, Linda McCartney (1941-1998), Ringo Starr, Denny Laine (guitarrista de Paul), George Martin (produtor e 5° Beatle) e do engenheiro de som dos álbuns dos Beatles, Geoff Emerick.

O álbum Somewhere in England, contendo “All Those Years Ago” foi lançado em maio de 1981. A faixa-tributo alcançou o 13° lugar na Inglaterra e 2° nos Estados Unidos.
No Brasil, a composição fez enorme sucesso.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Ao contrário do que foi publicado à época do lançamento do single, All Those Years Ago, não foi o primeiro encontro de 3 ex-Beatles num mesmo estúdio. Em 1973, Ringo, George e John gravaram “I’m de Greatest”, uma homenagem-paródia, composta por John para Ringo Starr.

Nota 2  – George, Ringo e Paul só voltariam a se reunir novamente em estúdio no ano de 1994 para gravarem duas faixas inéditas de John Lennon, “Free As A Bird” e “Real Love”, para o projeto Anthology.

Nota 3 – Após a morte de John, a TV Globo fez um Globo Repórter especial sobre a morte de John. Naquela sexta-feira, filmei as imagens da TV com uma câmera Super-8 montada num tripé. Após o lançamento do single “All Those Years Ago”, costumava ligar um Walkman com fita da canção no aparelho de projeção.
Assim, fiz meu primeiro videoclipe. Ainda guardo a película da Kodak.

Jacy Dasilva