domingo, 5 de junho de 2011

João Gilberto – 80 anos

A interpretação de “Chega de Saudade” (Jobim-Vinícius de Moraes) por João Gilberto em 1958 foi um divisor de águas e inaugurou a moderna música brasileira. O disco com menos de 2 min virou a cabeça de uma geração que não tinha música própria – os jovens brasileiros do final dos anos 1950.

A música brasileira era uma ressaca de desilusões amorosas, mulheres bandidas, destruidoras de lares, bebida – muita bebida -, e um nacionalismo irracional.
Não havia sol, mar ou felicidade amorosa. A noite, a decepção, o porre e o cigarro eram o mote das canções. Alegria havia apenas nas velhas marchinhas de Carnaval.
O que tocava nas rádios e vitrolas era o som esfumaçado e embriagado da decadência e da fossa. Antes da Bossa Nova, o bolero-suicida imperava absoluto.
O acordeão era o instrumento dos meninos; o piano, das meninas e o violão para os vagabundos - assim era no Brasil.

Nascido em Juazeiro, Bahia, em 10 de junho de 1931, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, chegou ao disco e ao mundo por persistência própria. O disco Chega de Saudade foi lançado em 75 RPM pela insistência de Dorival Caymmi (1914-2008) e André Midani.
Caetano Veloso, Francis Hime, Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e muitos outros jovens  pararam tudo e tomaram o caminho da música após ouvirem João Gilberto nos versos de Vinícius de Moraes (1913-1980) e na música de Antônio Carlos Jobim (1927-1994).
E, com apenas uma faixa musical, a Bossa Nova de João, tornou antigo e ultrapassado tudo o que havia. Não foi proposital; inevitável.
Mas havia exceções: as vozes de Mário Reis (1097-1981), Dick Farney (1921-1987) e Os Cariocas; os violões de Garoto (1915-1955) e Laurindo Almeida (1917-1995), as canções de Dorival Caymmi (1914-2008) e Ary Barroso (1903-1964) já eram modernas antes da Bossa Nova e foram incorporadas pelo novo modo de compor e interpretar a nossa música.

No que João Gilberto foi e é moderno? Nas harmonias, no violão sincopado, na valorização das letras e na supressão de tudo que é excessivo numa canção.
E até hoje, quantos intérpretes são tão coerentes com suas convicções artísticas? Poucos, certamente. E João não faz concessões.
O álbum “Amoroso” (Warner), gravado nos Estados Unidos por João em 1977 e com arranjos fenomenais de Claus Ogerman é o preferido do público, não de João. É um disco obrigatório, aula de bom gosto, produção e orquestração.
Do álbum "Amoroso", Wave (Antônio Carlos Jobim).

Se João tivesse registrado apenas seus três primeiros discos - todos gravados no Brasil pela EMI/Odeon (Chega de Saudade, 1959; O Amor, o Sorriso e a Flor, 1960 e João Gilberto, 1961) -, já teria deixado seu legado musical ao mundo.   
Na música de João, não cabe o vibrato no cantar, nem efeitos de estúdio ou acústica. O cantar é simples, seco e honesto. Na música de João, o mínimo é o máximo do requinte.

Jacy Dasilva

Nenhum comentário:

Postar um comentário