quarta-feira, 6 de abril de 2011

Venda de Música pela Internet - O artista ganha?

Uma cena do filme Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) apenas para lembrarmos das velhas e boas lojas de discos de beira de rua.
Sem saudosismo barato - as lojas formaram o gosto musical de gerações.



Em entrevista ao jornal britânico Sunday Times de 14 de março último, o cantor e compositor Jon Bon Jovi disse:

“Steve Jobs é pessoalmente responsável por acabar com o negócio da música”.

Em princípio, achei a declaração exagerada e resolvi pesquisar.
Steve Jobs é um dos pioneiros da computação moderna, fundador da Apple e do braço musical, o iTunes. É o queridinho dos nerds e geeks. E, como todo bilionário, abate seus lucros em gestos de “caridade” fartamente divulgados na mídia.
Jon Bon Jovi disse mais:

“Hoje o adolescente não tem mais a ideia do que seja um álbum, e nunca foi a uma loja de discos”.

Sim, é verdade. A experiência de frequentar lojas de discos é única. Mas as grandes gravadoras são mais culpadas pela derrocada nas vendas de CDs que Steve Jobs.
O artista (cantor, compositor, grupo musical, etc.) também é culpado. Assina o que vê pela frente, não consulta advogados especializados e amarga prejuízos por toda carreira musical.
Todos os grandes artistas assinaram maus contratos: Frank Sinatra, Louis Armstrong, Beatles. Mas conseguiram revertê-los.
Nem vou mencionar os casos envolvendo artistas brasileiros.

Após alguns anos de negociação, o catálogo completo de The Beatles está disponível para a venda no iTunes.
Pink Floyd conseguiu que alguns de seus álbuns não sejam fatiados. Enfim, os grandes artistas conseguiram mais vantagens artísticas e financeiras.
Mas, na média, os números são frios e vergonhosos.

Seja pelo iTunes, 7Digital ou Amazon.com, o preço do álbum físico, CD, é quase idêntico ao preço do somatório de todas as faixas individuais do mesmo álbum.
Com algumas importantes vantagens para o álbum:

1 - O CD ou álbum tem identidade. “Gal Canta Caymmi” (1976), “Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band” (1967); Os Songbooks de Ella Fitzgerald (produzidos por Norman Granz) ou todos produzidos por Almir Chediak têm uma história a contar. E dei apenas alguns exemplos. O leitor pode acrescentar “Are You Experienced?” (Jimi Hendrix, 1967) e “Nevermind” (Nirvana, 1991) à longa lista.

2 – Não fosse a invenção do CD, vários intérpretes do passado não teriam chegado ao presente. A música digital resgatou Maria Callas, Caruso, Noel Rosa, Francisco Alves, Louis Armstrong, Billie Holiday e outros pioneiros da música mundial. Tudo isso graças ao CD.

3 – O download vende MP3. O formato MP3 não tem a mesma qualidade musical do PCM (mais conhecido como Wave), presente nos CDs.
O MP3 foi fruto da Guerra Fria, inventado para dar qualidade e compressão à voz humana. Procure por “O Formato MP3” neste blog http://phonopress.blogspot.com/2010/10/o-formato-mp3.html .
Um bom uso do MP3 são os audiobooks para deficientes visuais.
Se o comprador desejar um formato melhor, paga mais caro (a pequena vantagem financeira sumiu), o iTunes Loseless – que nada mais é do que o PCM (Stereo, 44mil e cem amostras por segundo, 16 bits) rebatizado.

4 – O CD traz informações sobre o artista, muitas vezes fundamentais para a apreciação da obra. Sem contar músicos participantes, ano do disco, produtor, etc. E acrescento o trabalho dos artistas gráficos.

5 - Com boa conservação, os CDs têm vida longa. Já os arquivos MP3 podem ser perdidos facilmente.

Como ganha o artista?
O artista individual ou grupo recebe de diversas fontes, dependendo de seu contrato, importância no cenário musical e comercial.
Pode receber boa soma para trocar uma gravadora pela outra.
Recebe por cada álbum produzido, lotes de 3 a 5 álbuns, ou ainda, por anos de contrato.
Se for compositor, ganha direitos autorais.
Depois de lançado o disco, o artista sai em turnê e fatura diretamente.
Basicamente é assim que o artista sobrevive ou sobrevivia.

E pela venda Internet?
Os números são do mercado americano e assustam.
Imagine quanto “ganha” o artista brasileiro.
Usei o câmbio de R$ 1,61 por cada dólar como referência.

Um CD vendido em loja reverte, em média, US$ 1,02 (R$ 1,64) ao artista.
Cerca de 10% do valor e sempre foi assim desde os tempos do LP.
Por isso, a luta dos artistas para terem seus discos numerados.

O mesmo CD baixado pelo iTunes (que cobra do consumidor o mesmo preço do CD e vende MP3) reverte US$0,09 (nove centavos de dólar) ou R$ 0,14 (cartorze centavos) ao artista.
Isso é pagamento justo?
Não acabei.

Os valores das rádios online são piores.
Uma música executada na Last.fm paga ao artista US$ 0,0007 ou R$ 0,0011! Isso é esmola!

Bom, nem é preciso ter bola de cristal para concluir que os artistas consagrados, que ganharam e guardaram dinheiro, estão ricos, como desejo a todos eles.
E os artistas iniciantes?
Vão morrer de fome.

Gravadoras e artistas cometeram e cometem erros mercadológicos enormes.
O autor de Phonopress oferece algumas saídas ainda viáveis.

O relançamento em CD de todos os acervos de todas as gravadoras (ainda que custe renovar contratos com artistas, grupos ou herdeiros) a um preço baixo. Afinal, o que já foi lançado no passado já está pago e existe um mercado ávido por relançamentos. Quase nada do que existiu em LP foi convertido para CD.
Preços baixos sempre.
Capas baratas. O CD é a única mídia musical em que a quantidade de embalagem (plástico) é maior do que o produto principal, o disco.

E agora a solução mais improvável, por conta da vaidade das gravadoras.

A Sony/BMG, Warner, EMI, Universal (as 4 grandes) poderiam abrir lojas físicas, nas ruas, vendendo os discos delas próprias e a preço baixo.
Pôsteres, fotos autografadas e discos personalizados seriam bem-vindos, principalmente ao público jovem - aquele que nunca entrou numa loja de discos.
Bastaria começar com uma loja em cada capital do mundo: Nova York, Paris, Londres, Rio, São Paulo, Tokio e aguardar.
Aposto no sucesso da ideia.
As gravadoras (mais unidas) e artistas (com contratos mais justos) deixariam suas condições de reféns da venda digital.

Jacy Dasilva

Um comentário:

  1. Gostei muito do seu post sobre MP3. Bastante oportuno. Pena q não
    saiba responder no próprio Phonopress. Mas um dia aprendo.
    Bons tempos (na década de 80 e inicio de 90) em que revirava os LPs
    das lojas Farelo e Moto Discos (hoje é uma sapataria) na Sete de
    Setembro e garimpava discos sentado no chão ou de cócoras - os
    recém-chegados sempre ficavam no chão (no Farelo). Foi lá que
    encontrei jóias como os LPs "Superman" (da Barbra, com aquela capa
    horrorosa) e Romance Dance (da Kim Carnes) importados, e a preço de
    banana. Nem me importava com o carimbo de "Invendável". Era meu e
    pronto !!!
    Depois foram as Lojas Americanas que colocavam caixas e mais caixas de
    CDs que proporcionava uma alegria desesperadora. Ao vir alguém com um
    CD q ainda não tinha localizado era um desafio para continuar no
    garimpo. Era uma maravilhosa bagunça.
    Mas acabou. A música do MP3 desfez meu lazer. As lojas fecharam e as
    Americanas agora têm um setor irritantemente comportado.
    Nos EUA as grande lojas só vendem blockbusters musicais (ou seja,
    quase nada). Ainda sobrevive em NY na 23 Park Row, pertinho da
    Brooklin Bridge, a J&R Electronics. Um oásis, que, é fato, não vai
    durar muito. Lembra muito o meu saudoso Farelo, só que em dimensões
    novaiorquinas - são quatro andares (salvo engano) de CDs, LPs, DVDs e
    até fitas cassete, sem falar na infinidade de pôsteres e camisetas.
    Não mais HMV, Virgin ou BestBuy que despertem a ânsia de encontrar um
    disco. A Virgin de San Francisco está fechada e ainda com o letreiro
    (apagado) - dá vontade de chorar.
    Quer procurar um CD ? Busque na Internet... E devemos aproveitar o
    pouco q resta.
    Mas também é inegável que os downloads trouxeram outra perspectiva
    para nós, "discófilos": posso baixar discos que nunca chegaram ao
    Brasil, ou mesmo antes de chegarem.
    Nem tudo está perdido! Hoje tenho "discos" digitalizados que nunca
    encontrei nas lojas: uma coletânea de Nicollete Larson ou de Michel
    Polnareff ou mesmo a discografia de Sylvester ou de Rick James. Tudo
    sem capa, sem letras, sem encartes. Fazer o quê ?



    --
    Alcemar Oliveira

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