quarta-feira, 20 de abril de 2011

Bridge Over Troubled Water – Simon & Garfunkel (1970)

A composição de Paul Simon é uma mensagem de amizade incondicional e mais.
Os versos “When friends just can’t be found/Like a bridge over troubled water/I will lay me down” (Quando os amigos faltarem/ Estarei como uma ponte sobre águas turbulentas) transformam a canção numa declaração de fé.
A música foi composta e gravada entre agosto e novembro de 1969.
O álbum Bridge Over Troubled Water é a última gravação em estúdio da maior dupla folk-rock da história da música.
Paul Simon e Art Garfunkel começaram a cantar juntos aos 12 anos, ainda na escola, em New York, sob o nome de Tom & Jerry – nada mais apropriado para dois talentos geniosos.
Em 1957, gravaram seu primeiro disco, nitidamente inspirados na dupla The Everly Brothers.
Em 1969, as diferenças chegaram ao ponto máximo, mas ainda deviam um álbum para a Columbia Records. O grupo se separaria logo após o lançamento do disco.
Quando o produtor Roy Halle ouviu Bridge Over Troubled Water disse que esta deveria ser cantada por Art Ganfunkel e não por Simon, seu autor.
Apesar do aborrecimento causado em Simon, Halle estava certo na escolha.
O pianista, de formação clássica, Larry Knechtel foi escalado para acompanhar a voz de Garfunkel. E o fez com maestria e simplicidade.
A música começa com a voz sussurrante e angelical de Garfunkel e piano.
Com 1 min e 40 segundos temos a primeira intervenção de um piano elétrico, em notas soltas, como percussão. O piano de Knechtel ainda prevalece.
Um minuto depois, pratos de bateria são gravados e um baixo elétrico adicionado.
Tudo ainda muito tranquilo, mas o prelúdio para a segunda parte.
Com três minutos ouvimos as primeiras batidas de uma bateria posicionada no poço do elevador do estúdio; o microfone, andares acima, capta o som que vai fazer a marcação da música dali em diante.
Com 3:20 min, a voz de Art Garfunkel tem um volume maior e está duplicada (overdub).
Caprichosamente, violinos, violas e cello são acrescentados e ganham intensidade conforme a voz de Garfunkel chega ao final da canção.
Após o término da voz e da última batida da bateria, a orquestra permanece por mais dez segundos apoteóticos.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – O álbum “Bridge Over Troubled Water”, lançado em fevereiro de 1970, foi o de maior vendagem da dupla - mais de 25 milhões de cópias. Dele constam clássicos como: Cecilia, The Boxer e El Condor Pasa.

Nota 2 – A ideia de colocar a bateria no poço do elevador foi do engenheiro de som Phil Ramone. É repetida na faixa The Boxer do mesmo álbum.

Nota 3 – Os versos “Sail on, silver girl” foram inventados por Art Garfunkel para irritar a namorada de Simon, que acabara de descobrir cabelos grisalhos. Rezava a lenda que o “silver” (prateado) fazia alusão à agulhas e heroína.

Nota 4 – Quando Simon & Garfunkel voltaram a se apresentar em 1981 no Central Park, N York, o pianista Larry Knechtel não fora escalado, para irritação de Art Garfunkel.
Larry tocou seu piano durante anos como músico contratado e fez parte do grupo Bread.

Nota 5 – Em 1971, o álbum faturou 5 Grammys.

Nota 6 – As regravações por Elvis Presley (1935-1977) e Aretha Franklin realçam a interpretação religiosa que a composição oferece.

Nota 7 – Em 2010, Andrea Bocelli e Mary J. Blige interpretaram a canção em concerto para arrecadação de fundos para as vítimas do terremoto no Haiti.

Nota 8 – Após o término das gravações do álbum, a dupla gravou um especial de fim de ano para a TV CBS que nunca foi ao ar. O programa não conseguiu patrocinadores devido às mensagens pacifistas contra a Guerra do Vietnã.
Bridge Over Troubled Water (40th Anniversary Edition) (1 CD/1 DVD)
Foto: http://www.amazon.com/

Nota 9 – Em março de 2011, a Columbia/Sony lançou uma edição comemorativa do álbum, acompanhada de DVD com o especial “evitado” em 1969.

Jacy Dasilva


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Chico Anysio – 80 Anos e Compositor Também

Há 80 anos nascia Chico Anysio.
Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho nasceu em Maranguape, Ceará em 12 de abril de 1931.
Ator - sobretudo de humor -, redator, produtor, comentarista de futebol, contrarregra, diretor, pintor, ator de cinema, dublador, escritor e mais.
No rádio, ganhou projeção nacional pela criação e interpretação de tipos em programas humorísticos – formato que levou para a televisão com grande sucesso a partir de 1959 na TV Rio.
Seu período mais criativo e de maior audiência veio a partir da TV Globo.
Em 1973, cria um programa humorístico todo encenado numa cidade fictícia, “Chico City”, exibido semanalmente até 1980.
Este show fazia críticas mordazes aos costumes provincianos e políticos, começando pelo prefeito corrupto, Valfrido Canavieira.
Sempre é lembrado pelo humor que produziu.
Personagens e bordões que foram incorporados à linguagem popular, oriundos de tipos como Pantaleão (É mentira, Terta?), Painho (Afe Maria), Lingüinha, Alberto Roberto (Símbalo sescual), Professor Raimundo (E o salário, ó!), o Profeta, Gastão Franco (Calada!), Bozó ("Eu sou da Globo!") e muitos outros.  
Talvez chegue a uma centena as personagens criadas por ele.
Cercou-se de seus velhos companheiros de rádio, resgatando-os para a televisão.
Sua versatilidade em criar tipos tão diversos – no comportamento e voz – impressiona e é frequentemente questionado sobre como conseguia.
Ele respondia:

“Não sei, já tentaram explicar, dizendo possuir alguma influência espírita, mas eu não sei”.

Porém, Chico é menos lembrado por também ser compositor – e de sucessos.
Em Chico City (Programa humorístico semanal exibido entre 1973 e 1980), criou uma dupla musical com Arnaud Rodrigues (1942-2010) chamada “Baianos e os Novos Caetanos”.
Os destaques musicais da dupla foram “Vô Batê Pá Tu (Arnaud Rodrigues-Orlandivo), canção na qual comentavam as delações de artistas de esquerda no regime militar brasileiro e “Folia de Reis”, uma homenagem a esta manifestação religiosa do catolicismo.

A produção musical de Chico Anysio vem de longe.
Em 1954, “Guarda Chuva de Pobre”, gravada pelos Vocalistas Tropicais.
“A Fia de Chico Brito”, de 1956, por Dolores Duran (1930-1959).
O Trio Irakitan, em 1957, lança em disco outra composição de Chico, “Hino ao Músico”.
Chico gravou em 1960 as marchas carnavalescas “Não Sou de Nada” e “Eu Sou Durão”, parceria com Mario Lago (1911-2002).
No IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1965) compôs em parceria com João Roberto Kelly “Rancho da Praça Onze”, gravada por Dalva de Oliveira (1917-1972).
Nos anos de 1970, como mencionado acima, gravou discos com “Baiano e Os Novos Caetanos” (gravadora CID) – de excelente vendagem e execução em rádios.
Produziu gravações de seus shows, como comediante, inclusive no Carneggie Hall.
Em 1980, foi parceiro de Benito Di Paula em “De Quem é Essa Morena”.

A canção escolhida pelo autor é “Rio Antigo” (parceria com Nonato Buzar) belamente interpretada por Alcione em 1979 para álbum de vendagem recorde - “Gostoso Veneno” – PolyGram (Philips/Universal).


A composição traz a memória dos tempos do bonde, teatro de revista, Cinelândia, bares, música, rádio e personagens típicos de um Rio de Janeiro efervescente em cultura.
Chico Anysio também marcou a história da música brasileira.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Venda de Música pela Internet - O artista ganha?

Uma cena do filme Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) apenas para lembrarmos das velhas e boas lojas de discos de beira de rua.
Sem saudosismo barato - as lojas formaram o gosto musical de gerações.



Em entrevista ao jornal britânico Sunday Times de 14 de março último, o cantor e compositor Jon Bon Jovi disse:

“Steve Jobs é pessoalmente responsável por acabar com o negócio da música”.

Em princípio, achei a declaração exagerada e resolvi pesquisar.
Steve Jobs é um dos pioneiros da computação moderna, fundador da Apple e do braço musical, o iTunes. É o queridinho dos nerds e geeks. E, como todo bilionário, abate seus lucros em gestos de “caridade” fartamente divulgados na mídia.
Jon Bon Jovi disse mais:

“Hoje o adolescente não tem mais a ideia do que seja um álbum, e nunca foi a uma loja de discos”.

Sim, é verdade. A experiência de frequentar lojas de discos é única. Mas as grandes gravadoras são mais culpadas pela derrocada nas vendas de CDs que Steve Jobs.
O artista (cantor, compositor, grupo musical, etc.) também é culpado. Assina o que vê pela frente, não consulta advogados especializados e amarga prejuízos por toda carreira musical.
Todos os grandes artistas assinaram maus contratos: Frank Sinatra, Louis Armstrong, Beatles. Mas conseguiram revertê-los.
Nem vou mencionar os casos envolvendo artistas brasileiros.

Após alguns anos de negociação, o catálogo completo de The Beatles está disponível para a venda no iTunes.
Pink Floyd conseguiu que alguns de seus álbuns não sejam fatiados. Enfim, os grandes artistas conseguiram mais vantagens artísticas e financeiras.
Mas, na média, os números são frios e vergonhosos.

Seja pelo iTunes, 7Digital ou Amazon.com, o preço do álbum físico, CD, é quase idêntico ao preço do somatório de todas as faixas individuais do mesmo álbum.
Com algumas importantes vantagens para o álbum:

1 - O CD ou álbum tem identidade. “Gal Canta Caymmi” (1976), “Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band” (1967); Os Songbooks de Ella Fitzgerald (produzidos por Norman Granz) ou todos produzidos por Almir Chediak têm uma história a contar. E dei apenas alguns exemplos. O leitor pode acrescentar “Are You Experienced?” (Jimi Hendrix, 1967) e “Nevermind” (Nirvana, 1991) à longa lista.

2 – Não fosse a invenção do CD, vários intérpretes do passado não teriam chegado ao presente. A música digital resgatou Maria Callas, Caruso, Noel Rosa, Francisco Alves, Louis Armstrong, Billie Holiday e outros pioneiros da música mundial. Tudo isso graças ao CD.

3 – O download vende MP3. O formato MP3 não tem a mesma qualidade musical do PCM (mais conhecido como Wave), presente nos CDs.
O MP3 foi fruto da Guerra Fria, inventado para dar qualidade e compressão à voz humana. Procure por “O Formato MP3” neste blog http://phonopress.blogspot.com/2010/10/o-formato-mp3.html .
Um bom uso do MP3 são os audiobooks para deficientes visuais.
Se o comprador desejar um formato melhor, paga mais caro (a pequena vantagem financeira sumiu), o iTunes Loseless – que nada mais é do que o PCM (Stereo, 44mil e cem amostras por segundo, 16 bits) rebatizado.

4 – O CD traz informações sobre o artista, muitas vezes fundamentais para a apreciação da obra. Sem contar músicos participantes, ano do disco, produtor, etc. E acrescento o trabalho dos artistas gráficos.

5 - Com boa conservação, os CDs têm vida longa. Já os arquivos MP3 podem ser perdidos facilmente.

Como ganha o artista?
O artista individual ou grupo recebe de diversas fontes, dependendo de seu contrato, importância no cenário musical e comercial.
Pode receber boa soma para trocar uma gravadora pela outra.
Recebe por cada álbum produzido, lotes de 3 a 5 álbuns, ou ainda, por anos de contrato.
Se for compositor, ganha direitos autorais.
Depois de lançado o disco, o artista sai em turnê e fatura diretamente.
Basicamente é assim que o artista sobrevive ou sobrevivia.

E pela venda Internet?
Os números são do mercado americano e assustam.
Imagine quanto “ganha” o artista brasileiro.
Usei o câmbio de R$ 1,61 por cada dólar como referência.

Um CD vendido em loja reverte, em média, US$ 1,02 (R$ 1,64) ao artista.
Cerca de 10% do valor e sempre foi assim desde os tempos do LP.
Por isso, a luta dos artistas para terem seus discos numerados.

O mesmo CD baixado pelo iTunes (que cobra do consumidor o mesmo preço do CD e vende MP3) reverte US$0,09 (nove centavos de dólar) ou R$ 0,14 (cartorze centavos) ao artista.
Isso é pagamento justo?
Não acabei.

Os valores das rádios online são piores.
Uma música executada na Last.fm paga ao artista US$ 0,0007 ou R$ 0,0011! Isso é esmola!

Bom, nem é preciso ter bola de cristal para concluir que os artistas consagrados, que ganharam e guardaram dinheiro, estão ricos, como desejo a todos eles.
E os artistas iniciantes?
Vão morrer de fome.

Gravadoras e artistas cometeram e cometem erros mercadológicos enormes.
O autor de Phonopress oferece algumas saídas ainda viáveis.

O relançamento em CD de todos os acervos de todas as gravadoras (ainda que custe renovar contratos com artistas, grupos ou herdeiros) a um preço baixo. Afinal, o que já foi lançado no passado já está pago e existe um mercado ávido por relançamentos. Quase nada do que existiu em LP foi convertido para CD.
Preços baixos sempre.
Capas baratas. O CD é a única mídia musical em que a quantidade de embalagem (plástico) é maior do que o produto principal, o disco.

E agora a solução mais improvável, por conta da vaidade das gravadoras.

A Sony/BMG, Warner, EMI, Universal (as 4 grandes) poderiam abrir lojas físicas, nas ruas, vendendo os discos delas próprias e a preço baixo.
Pôsteres, fotos autografadas e discos personalizados seriam bem-vindos, principalmente ao público jovem - aquele que nunca entrou numa loja de discos.
Bastaria começar com uma loja em cada capital do mundo: Nova York, Paris, Londres, Rio, São Paulo, Tokio e aguardar.
Aposto no sucesso da ideia.
As gravadoras (mais unidas) e artistas (com contratos mais justos) deixariam suas condições de reféns da venda digital.

Jacy Dasilva