domingo, 6 de março de 2011

Ó Abre Alas – Chiquinha Gonzaga (1899)



Foi a primeira composição feita especificamente para o Carnaval e podemos afirmar que foi a obra que inaugurou a nossa música popular.
Ó Abre Alas foi uma encomenda do rancho “Rosa de Ouro” à compositora. Tem versos curtos e melodia dançante e de fácil memorização – requisitos básicos – que foram copiados por todos os compositores de carnaval durante o século XX.
Mas o Carnaval do Rio de Janeiro não tinha música? Sim e não.
Não havia um ritmo brasileiro definido. As pessoas saiam sozinhas ou em grupo com suas fantasias, brincando, dançando e insultando as outras pessoas ou o governo. Balançava-se o corpo e até árias operísticas eram cantadas.

Chiquinha Gonzaga

Francisca Edwiges de Lima Neves Gonzaga (1847-1935) nasceu no Rio de Janeiro.
Sua vida pessoal é mais conhecida e comentada que sua obra musical, infelizmente.
Ela começou os estudos de piano ainda moça e aos 30 anos, totalmente de improviso, numa festa, compôs seu primeiro sucesso - Atraente, uma polca.
Aliás, a polca (ritmo do Leste Europeu) era o que se tocava nas casas de classe média, além de valsas e repertório clássico.
E toda casa de boa família tinha um piano – costume trazido pela família real portuguesa ao chegar aqui em 1808. Araújo Porto Alegre (1806-1879) chegou a batizar o Rio de “cidade dos pianos”.

Atraente (1877)



Chiquinha Gonzaga, pianista, montou uma orquestra apenas com violões, instrumento “maldito” que não entrava nas casas de classe – escândalo.
Chiquinha foi pioneira em tudo aquilo que fez. Separada de seu marido, coloca anúncio no Jornal do Brasil oferecendo-se para dar aulas de piano, francês, etc.
Foi maestrina e compôs valsas, polcas, tangos, lundus, música sacra, fados e maxixes de grande sucesso. A distribuição das músicas era feita via partituras numeradas. Não havia ainda o fonógrafo, muito menos o rádio.
O compositor recebia pelas editoras ou pelas suas apresentações.
Foi ferrenha na campanha pela abolição da escravatura.
Em 1900 tornou-se amiga de Nair de Tefé (1886-1981), outra pioneira num ramo ainda mais masculino: o jornalismo.
Nair foi talvez a primeira cartunista mulher em todo o mundo. Casou-se com o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) e chamou a amiga Chiquinha para uma apresentação no Palácio do Catete.
O ano era 1914 e a primeira-dama, Nair tocou violão ao lado de Chiquinha no palácio presidencial: um escândalo político. Mulher não tocava violão, quando muito tocava piano dentro de casa e se apresentava para a família.
Chiquinha apresentou-se em vários países da Europa e foi popular especialmente em Portugal, onde morou.
Chiquinha chegou a deixar obra registrada em raros discos da Odeon (EMI) brasileira.
Outro pioneirismo foi fundar a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) ao lado de Viriato Corrêa (1884-1967) e outros para assegurar os direitos autorais.
Chiquinha musicou quase 80 obras teatrais. Compôs mais de 250 títulos.
Felizmente, Chiquinha recebeu homenagens em vida e ainda é lembrada como exemplo de superação de preconceitos.

Um trailer de Chiquinha Gonzaga (TV Globo, 1999) para os leitores de língua inglesa.



Ó Abre Alas atrvessou todo o século XX e permanece uma composição extremamente popular.
Em 1999 Chiquinha Gonzaga foi homenageada com uma minissérie da Rede Globo de grande sucesso.

Jacy Dasilva

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