quinta-feira, 31 de março de 2011

Mack The Knife (1928)

Em 1728, John Gay (1685-1732) escreveu The Beggar’s Opera (Ópera dos Mendigos) como uma sátira social, sobretudo à Revolução Industrial. O autor usou a Itália e a nobreza para escapar da censura, embora os nomes das personagens fossem ingleses.

Kurt Weill (1900-1950), compositor e Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo,  adaptaram a obra de Gay em 1928, com o nome de  Die Dreigroschenoper (The Threepenny Opera ou Ópera dos Três Vinténs) para ser estrelada pela esposa de Weill, Lotte Lenya (1898-1981) como crítica ao capitalismo, especialmente à miséria existente na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
E o dramaturgo Brecht, no século XX, usou a Londres vitoriana como pano de fundo.

E a trama não poderia ser mais decadente e atemporal.

A peça é totalmente centrada na figura do anti-herói,  marginal, bígamo, assassino e “rei dos ladrões”, que atende sob três alcunhas: Macheath, Mackie Messer e Mack, the Knife (Mack, o navalha).
Na peça, Mack se casa com Polly, desagradando seu pai, Peachum, outro marginal, “rei dos mendigos”, que controlava a mendicância em Londres.
Mas, ao se casar com Polly, desagrada outro pai, Tiger Brown, o chefe da polícia. Por quê?
Mack já era casado com Lucy, filha de Brown.
Assim, Peachum (rei dos mendigos) e Tiger Brown (chefe de polícia) se unem para matar Mack (rei dos ladrões).
Mas o plano não era verdadeiro, Brown era amigo de Mack e recebia deste gordas propinas.
Apesar do aviso de Tiger Brown, Mack é preso por denúncia de Jenny, sua amante e prostituta.
Mack, o navalha vai preso e é condenado à forca.
No último momento, Mack escapa com a ajuda de Lucy, primeira esposa e filha de Brown.
No final ainda recebe o perdão e o título de barão da rainha da Inglaterra.
Sua popularidade e longevidade nos palcos se deve a persistência da corrupção.
O público pergunta: Quem é o maior criminoso?

A música Die Moritat Von Mackie Messer (título original em alemão), foi composta pouco antes da estreia em Berlin.
O ator Harald Paulsen (1895-1954), que interpretava Mack, não tinha uma música para ele e reclamou.
Isso explica a simplicidade de sua linha melódica e a salada de nomes e situações que a canção evoca.
A letra é enorme e cita Mack, Macheath (a mesma pessoa), causando confusão de identidades.
Lucy, Jenny, Brown, Polly são colocadas em meio a versos contando histórias de assassinatos, desaparecimentos, sangue (que nunca respinga em Mack por usar luvas brancas) e sacos de cimento para um corpo afundar. Em meio à corrupção reinante, a letra termina com um: “Mack está de volta à cidade!”.

A versão de Louis Armstrong (1956)
Em 1954, Lotte Lenya estreou The Threepenny Opera em New York, uma produção modesta, porém de grande público, viabilizando comercialmente os musicais off-broadway.
A versão americana foi batizada de Mack The Knife, versão em inglês de Marc Blitztein (1905-1964), que repetiu a saga do anti-herói e numerosos personagens, incluindo o nome da estrela, a atriz Lotte Lenya.
Uma das pessoas a assistir a peça foi George Avakian, produtor da Columbia Records. Ele gostou da música mas não conseguiu que nenhum contratado quisesse gravá-la.
Turk Murphy (1915-1987), trombonista de jazz, fez um arranjo novo e sugeriu a Avakian que levasse a música para Louis Armstrong (1901-1971).
A reação de Armstrong foi uma sonora gargalhada e completou:

“Conheci vários como este em New Orleans. Todos eram capazes de meter uma faca em você num piscar de olhos”.

A canção foi gravada por Armstrong (com os arranjos de Murphy) em setembro de 1955.
A parte instrumental é excelente, mas Armstrong queria mesmo cantar aquela história de sede por sangue. Um biógrafo de Armstrong, Collier (Louis Armstrong, James Collier, Editora Globo, 1983) vai além, e diz que Armstrong ironiza seu antigo “protetor” dos tempos de New Orleans, um bandido local.
O resultado é irresistível.
A gravação de Armstrong colocou Mack the Knife no repertório do jazz para sempre.



A música chegou ao 20º lugar na parada Billboard americana em fevereiro de 1956. Mas na Inglaterra, o disco de Armstrong alcançou o 11º lugar, levando Louis e seu grupo a nova turnê europeia.
O sucesso não foi apenas de público, crítica e vendas.
A música levou pessoas a assistirem o espetáculo de Lotte Lenya e despertou a atenção de outros artistas.
Mas, definitivamente, não é uma canção para qualquer intérprete.

A versão de Bobby Darin (1959)
Bobby Darin (1936-1973) não queria gravá-la.
Seu maior sucesso havia sido Splish, Splash (Darin-Murray) em 1957.
Ele trilhava o caminho de Elvis e temia um fracasso ao regravar um sucesso de Armstrong.
Até 1959 só gravara singles e That’s All (ATCO/Atlantic) seria seu primeiro álbum.
Ele foi convencido pelos irmãos e produtores Ahmet e Neshuhi Ertegun, donos da Atlantic Records.
A gravação foi em dezembro de 1958, mas só foi lançada em agosto de 1959.
Os arranjos cheios de swing foram de Richard Wess e a interpretação de Darin tornaram-na a favorita de Frank Sinatra (1915-1998).
Mack the Knife com BobbyDarin ficou por 9 semanas em 1º lugar na Billboard (seu único primeiro lugar), vendeu mais de 2 milhões de cópias e garantiu a ele o Grammy de Melhor Interpretação e Artista Iniciante de 1959. A canção também foi a melhor de 1959.



A versão de Ella Fitzgerald (1960)

A versão de Ella Fitzgerald (1917-1996) mostra o poder de uma boa intérprete.
Em 1960, Ella estava em Berlin (Ocidental, na época) para se apresentar e sua performance seria registrada para futuro álbum.
Estava acompanhada do Paul Smith Quartet e começou seu show em 13 de fevereiro de 1960.
Cantou clássicos de Cole Porter, Rodgers&Hart, Gershwin e preparava-se para a 16ª música, Mack The Knife.
Ainda sob os aplausos da música anterior, ela advertiu: “I hope I’ll remember all the words” (Espero lembrar de todas as palavras) e não deu outra: Esqueceu a letra.
Mas, a primeira-dama da canção (como era chamada) fez juz ao título e improvisou uma letra nova, debochando de seu prórpio esquecimento, fazendo uma imitação impagável de Louis Armstrong e citando a gravação de Bobby Darin.
Ella e seu scat-singing (improviso sobre a melodia, principalmente com onomatopeias) enriqueceram a melodia original, dando nova harmonia e notas mais altas.
A partir da gravação histórica foi obrigada a lembrar o improviso que criou.
Mack The Knife – Ella Live In Berlin (Verve) recebeu o Grammy de Melhor Performance Vocal de 1960 (álbum e single).
Em 1999, o álbum foi adicionado ao Grammy Hall of Fame pelo seu valor histórico.




A versão de Frank Sinatra (1984)

Ele também não queria gravá-la.
O autor Renzo Mora, único brasileiro a biografar Sinatra, conta em Sinatra – O Homem e a Música (Casa & Palavra, 2001, Décima Edição) que o produtor Quincy Jones propôs que Sinatra gravasse Mack The Knife e este disse:

“Por quê? Louis e todo mundo já cantaram tão bem, que diabos a gente pode fazer com ela?”

A pergunta de Sinatra foi incorporada à letra feita por Frank Foster especialmente para a gravação.
A letra ainda faz referência à Máfia (execuções e corpos sendo jogados no rio com botas de cimento), e outra a Marlon Brando (os dois se odiavam), citando a frase de O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972): “Uma oferta que não pode ser recusada”.
Na interpretação de Sinatra para Mack The Knife ele homenageia Louis, Darin, Ella Fitzgerald e o time de virtuoses que o acompanhavam na realização do álbum LA Is My Lady (Quincy Jones, Lionel Hampton, Lee Ritenour, George Benson, Major Holey e outros). Durante os shows, passou a homenagear os músicos que estivessem na banda, citando-os nominalmente ao longo da interpretação.
Voltou a regravá-la para o álbum Duets II, de 1994, ao lado de Jimmy Buffett.



Uma observação: Louis, Ella e Sinatra interpretam a canção com fina ironia, aparentando uma certa alegria. Mas os três conheceram bem a pobreza, a corrupção e tiveram "protetores" de vários calibres.

A versão de Robbie Williams (2001)
Robbie Williams, fã de Sinatra, gravou em 2001 o álbum Swing When Your’re Winning, uma homenagem não apenas ao repertório de Sinatra, mas a todo o Rat Pack.
Sinatra, Sammy Davis, Jr. (1925-1990), Dean Martin (1917-1995) e outros membros eventuais se reuniam para curtir a vida ao máximo.
Com espírito anárquico e cômico, entregaram-se às farras, shows e filmes que fizeram juntos.
Robbie Williams, grande farrista, homenageia o Rat Pack no álbum e shows sempre lotados.
O álbum de Robbie recebeu 7 discos de platina no Reino Unido e 5 discos de platina na Alemanha.
O vídeo é de show no Royal Albert Hall, Londres.


Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Lotte Lenya é mais conhecida pelo papel da vilã Rosa Klebb no filme Moscou Contra 007 (From Russia With Love, 1963). Na montagem off-broadway, o papel de Mack foi do ator e cantor Jerry Orbach (1935-2004), que é mais conhecido no Brasil por sua interpretação do detetive Lennie Briscoe no seriado Law & Order.

Nota 2 – A Ópera dos Três Vinténs foi traduzida em mais de 18 línguas e teve mais de 10 mil apresentações apenas na Europa.

Nota 3 – Chico Buarque fez uma versão de Mack The Knife (O Malandro) para a Ópera do Malandro, peça,álbum e filme.

Nota 4 – A Ópera dos Mendigos ganhou luxuosa versão da BBC de Londres em telefilme de 1983 estrelado por Roger Daltrey (vocalista do The Who).

Nota 5 – Em 1989, uma versão cinematográfica da Ópera dos Três Vinténs foi lançada com o título de Mack the Knife (O Rei dos Ladrões, no Brasil) com Raul Julia no papel principal.

Nota 6 - Para entender melhor o que foi o Rat Pack, Jazz e Sinatra recomendo aos leitores o próximo lançamento do autor Renzo Mora.
“3 Homens e Nenhum Segredo”.
Seus livros: "Fica Frio - Uma Breve História do Cool Jazz"; "Cinema Falado" e "Sinatra - O Homem e a Música" podem ser encontrados na Livraria Cultura.
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?nautor=204193&refino=1&p=1

Três Homens e Nenhum Segredo, o livro.
Em breve nas livrarias


Jacy Dasilva
Para os amigos Nelson Azambuja, Renzo Mora e Gisele Sayeg

2 comentários:

  1. O grupo Dire Straits menciona, entre outras oldies goldies a canção "Mack the Knife" no hit "Walk of Life" no disco de 1985 "Brothers in Arms". Essa canção, composta por Mark Knopfler diz na letra "He do the song about the knife"

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