terça-feira, 22 de março de 2011

It Never Rains In Southern California – Albert Hammond (1972)



Sem dúvida, é sua canção mais conhecida.
Parece ser o caso de um compositor de uma música só, mas não é.
Hammond nasceu em Londres em 1944, mas foi levado para a terra natal dos pais, Gibraltar (território britânico reivindicado pela Espanha), devido aos bombardeios aéreos na Segunda Guerra Mundial. Por conta disso, ouvia música espanhola, inglesa e árabe – idiomas que aprendeu.
Em entrevista ao jornal The Guardian,  Hammond disse que já sabia que queria ser músico aos 8 anos quando começou a cantar no coral de sua igreja. Adorava os hinos religiosos e ambicionava poder compô-los.
Sua primeira composição Blue Boy foi feita aos 10 anos, especialmente para uma escocesa, também criança, que estava a passeio com os pais em Gibraltar.
Seu tio tinha bares em Gibraltar com jukeboxes repletos de músicas as quais ouvia sem parar. Seu primeiro ídolo foi Buddy Holly (1936-1959) e começou a aprender sozinho, “tirando” músicas ao piano e violão.
Entre os 17 e 19 anos começou a trabalhar com música.
Fazia versões para o idioma espanhol de sucessos do rock & roll americanos.
E foi para o Marrocos tocar em boates de Casablanca.
Depois, voltou para Gibraltar e montou sua primeira banda, The Diamond Boys.
Viajou até Madri e ganhou um concurso de rock & roll espanhol. O prêmio foi um contrato com a RCA.
Voltou para Londres em 1961, já com 20 anos.
Gravou discos que não venderam. Lavava pratos em vários restaurantes, trabalhava numa sapataria, mas não desistiu de ser compositor.
Para esses locais levava seu rádio de pilha e quando tocava Little Arrows, dizia aos clientes: “Essa música é minha”. Todos riam em total descrédito.
Em 1964, conheceu Mike Hazlewood (1941-2001) na Inglaterra e formaram outra banda, The Family Dogg. A parceria deu resultados concretos em 1969 quando a composição Way of Life chegou ao 6º lugar do Hit Parade britânico.
O mundo musical vivia uma revolução desencadeada pelo rock, sobretudo o britânico.
A qualidade das composições do período era tanta, que cunharam o termo “British Invasion” nos Estados Unidos, para designar o sucesso que grupos ingleses faziam em território americano. The Beatles, Rolling Stones, The Hollies, The Who, Cream e muitos outros artistas exemplificam o termo.
O mercado fonográfico americano não ficou de braços cruzados. Vários compositores britânicos foram convidados a ceder ou vender composições inéditas para intérpretes americanos.
Mas, como em todo negócio – e música também é -, existem os golpistas.
Albert Hammond foi para os Estados Unidos com a promessa de ganhar dinheiro fazendo música.
Foi parar na Califórnia sem nenhum contrato.
Bateu às portas de várias gravadoras e produtoras e todos não se mostraram interessados.
Morando de favor na casa de uma secretária, sem dinheiro, sem emprego, pôs a letra numa velha melodia contando sua situação.
A melodia de It Never Rains in Southern California foi composta em 1969 quando Hammond tocava nas ruas de Madri. Nesse tempo ficou amigo de um certo Julio Iglesias.
A situação de pobreza era a mesma na Califórnia. Foi só colocar letra relatando as promessas e trapaças.
E assim nasceu a canção que conhecemos. Mas ninguém queria gravá-la.
It Never Rains In Southern California foi oferecida aos Seekers, Glen Campbell e outros artistas. Todos diziam que a música era horrível.
Hammond se apresentava no bar do Bervely Hills Hotel e o produtor Clive Davis estava na plateia e ofereceu um contrato para um disco.
Clive ouviu todas as músicas e perguntou:
- Você tem mais alguma?
- Tenho uma que ninguém gosta, respondeu Hammond.
It Never Rains in Southern California agradou e Clive disse que seria também o nome do disco de 1972.
A música foi sucesso em todo mundo, ganhando até uma versão em espanhol.
Aí vieram os contratos verdadeiros.
Em 1973, a CBS (Columbia) ofereceu 500 mil dólares por suas composições. Seu parceiro Mike Hazelwood também recebeu mas disse que não queria mais a parceria.
Hammond pensou em devolver o dinheiro, porém a CBS forneceu-lhe outros parceiros.
Com Hal David, mais conhecido por ser o letrista de Burt Bacharach, fez 99 Miles From LA. A gravação de Art Garfunkel é a mais conhecida.



Para a mulher que lhe deu abrigo e se apaixonou escreveu The Air That I Breathe, gravada por The Hollies. Gentilmente incluiu o nome de Hazlewood na parceria.



Com Carole Bayer Sager compôs When I Need You, famosa na voz de Leo Sayer.



Com John Bettis e Richard Carpenter fez I Need To Be In Love para os Carpenters.
O vídeo tem uma introdução maior que a gravação original.



Para o amigo Julio Iglesias fez To All The Girls I’ve Loved Before, que em 1983 gravou a canção com Willie Nelson. A música foi sucesso planetário e garantiu a Julio a entrada no mercado americano.
Em 2010, Alanis Morissette gravou uma versão da música chamada To All The Boys I've Loved Before



Da parceria com Diane Warren surgiu Don’t You Love Me Anymore para Joe Cocker.
 



Com Graham Lyle compôs I Don’t Wanna Lose You para Tina Turner.



Em 1987, recebeu uma indicação ao Oscar de melhor Canção por Nothing's Gonna Stop Us Now, tema da comédia romântica Manequin, gravada pelo Starship.


Em 1988, a convite da NBC, compôs em parceria com John Bettis o tema dos Jogos Olímpicos de Seul – One Moment In Time para a voz de Whitney Houston.



Notas Fora da Pauta
Nota 1 – Em 1967, houve um plebiscito em Gibraltar. A população preferiu continuar sendo governada pelos britânicos. A Espanha ainda reclama.

Nota 2 - As composições de Albert Hammond somam mais 360 milhões de cópias vendidas em todo mundo.

Nota 3 – Albert Hammond coleciona uma indicação ao Oscar, alguns Grammys, vários discos de Ouro e Platina ao redor do mundo e o prestigioso Prêmio Ivor Novello pela Academia Britânica de Compositores e Letristas.

Nota 4 – Em 2000, recebeu da rainha Elizabeth II o título de Oficial do Império Britânico (OBE).

Nota 5 – Hammond é pai de Albert Hammond Jr., guitarrista da banda The Strokes.
Pai e filho lançarão álbuns novos em 2011.

Jacy Dasilva

4 comentários:

  1. Jacy, que trabalhos bacanas: do Hammond e o seu! Adoro ler seus comentários, sempre pertinentes, que vão se desenrolando em um texto bem conduzido. É sempre um prazer visitar o blog. Bjs e parabéns pelo trabalho. Gisele

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  2. Prezado Jacy:

    Parabéns, mais uma vez! Pelo compositor enfocado e suas músicas maravilhosas!
    Eu sempre tive muita pena dos pobres compositores, em geral tão esquecidos dos que ouvem as suas músicas, em função dos intérpretes que levam todos os louros ... Com esse artigo estás resgatando uma parcela dessa imensa dívida que temos para com os compositores.
    Sem querer ser o "sapateiro que vai além da chinela", mas apenas como uma contribuição, penso que o título da música que canta o Joe Cocker é, na verdade, "Don't you love me anymore", ou seja, teria apenas faltado o pronome "me".
    Parabéns novamente, obrigado e um grande abraço.

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  3. Nelson,
    Obrigado pela correção.
    Uma das intenções do blog é valorizar compositores e letristas.
    A outra é desmistificar que se pode fazer música com fins comerciais. Só aqui no Brasil ganhar dinheiro com música é assunto tabu.
    Todos os nossos grandes compositores fizeram e fazem música de encomenda e recebem por isso.
    O único que tinha coragem de dizer foi o inesquecível Antônio Carlos Jobim.
    Apareça sempre por aqui.
    Jacy Dasilva

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  4. A música que ninguém queria gravar é muito bonita mesmo, dias desse ouvi uma versão cantada por uma mulher com o vocal parecido com o da Tanita Tikaram porém não consegui achar nada na internet, alguém saberia me dizer que canta essa versão de It Never Rains In Southern California

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