quarta-feira, 16 de março de 2011

The Girl From Ipanema – Astrud Gilberto (1963)



Garota de Ipanema (Jobim-Vinícius) na voz de Astrud Gilberto fez história – e ainda faz, visto que o disco nunca saiu de catálogo fora do Brasil desde o seu lançamento em 1963.
Segundo o historiador da bossa nova, Ruy Castro, Garota de Ipanema não foi composta no bar Veloso, frequentado pela dupla de compositores.
Jobim fez a melodia em sua casa na Rua Barão da Torre (Ipanema) e Vinícius fez a letra em seu sítio em Petrópolis.
Vinícius queria a composição para um musical chamado Blimp que nunca concluiu, tampouco encenou.
A primeira apresentação de Garota de Ipanema foi em agosto de 1962 no palco do restaurante Bon Gourmet (Copacabana) com Jobim, João Gilberto, Otávio Bailey, Milton Banana (1935-1999) e Os Cariocas no show denominado de “O Encontro”.
Pery Ribeiro foi o primeiro brasileiro a gravá-la para a Odeon em janeiro de 1963.
Jobim gravou uma versão instrumental no disco “The Composer of Desafinado Plays” (Verve, 1963).
A versão em inglês, feita por Norman Gimbel, pretendia suprimir a palavra “Ipanema”, pois ele achava que nenhum americano entenderia seu significado.
Outro problema é que a versão americana “come” notas musicais: “Olha que coisa mais linda” (oito notas); a americana: “Tall and Tan and..” (quatro).
Jobim nunca gostou da versão de Gimbel. Seu versionista preferido foi Gene Lees (1928-2010).
E quando foi reclamar das péssimas versões para o inglês, na editora musical americana, ouviu:

“O que você está pensando? Acha que suas músicas serão gravadas pelo Frank Sinatra?”

Astrud Gilberto

Astrud Weinert nasceu em Salvador no dia 29 de março de 1940.
Filha de um alemão que dava aulas de inglês, veio para o Rio de Janeiro em 1948.
Trabalhou no Ministério da Agricultura e frequentava os encontros de bossa nova, sobretudo aqueles na casa de Nara Leão (1942-1989).
Em 1959, Astrud casou com João Gilberto e passou acompanhá-lo em suas apresentações. E assim, começou a cantar, esporadicamente, nos shows amadores de bossa nova.
Em 1963, foi para Nova York com João, que havia sido convidado para gravar com  Jobim um LP com o saxofonista de jazz, Stan Getz (1927-1991) pela Verve.
E foi porque sabia falar inglês.
Sua participação no disco foi fruto de seu esforço e persistência.
Atualmente, a literatura sobre bossa nova e os encartes dos relançamentos da Verve tendem a amenizar o veto à participação de Astrud no álbum, ou mesmo negá-lo.
Mas foi assim.
João Gilberto – sempre por razões inexplicáveis – não queria a esposa cantora.
Talvez quisesse que ela cantasse só pra ele - o que entendo.
Stan Getz também não.Mas ele tinha motivos.
Seu disco anterior, “Jazz Samba Encore! Stan Getz & Luiz Bonfá” teve os vocais da esposa de Bonfá, Maria Toledo, cantando em português e não agradou Getz.
Hoje, o disco é um clássico, mas na época não foi sucesso.
Getz queria alguém cantando em inglês e pensou em chamar sua esposa, Monica.
Antonio Carlos Jobim era a favor que Astrud gravasse as versões em inglês de Garota de Ipanema (The Girl From Ipanema) e Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars), pois sabia que ela cantava bem ao estilo bossa nova e convenceu o produtor Creed Taylor a convidá-la.
Bastou que começasse a cantar para convencer João e Getz de que a cantora certa já estava lá.
Após as sessões, o primeiro problema: Getz não queria que Astrud recebesse pagamento algum pela sua participação.
Todos protestaram e Astrud recebeu míseros US$120,00 (valor mínimo do sindicato) pelos vocais.
O segundo problema foi o tempo de gravação de Garota de Ipanema.
 The Girl From Ipanema ficou enorme (mais de 5 min) por causa dos vocais de João e Astrud e o solo de Getz.
O produtor sabia que tinha um hit nas mãos.
A música tinha o tamanho natural para um LP de jazz, mas grande demais para tocar nas rádios.
Passaram-se meses até que, depois de muito pensar, Creed Taylor suprimiu os vocais de João Gilberto (sem que ele soubesse), deixou apenas o vocal de Astrud e lançou a gravação em single (compacto) com 2: 46 min e Corcovado com 2:20 min.
Astrud, com sua voz pequena e suave, transformou a canção num sucesso de vendas (2 milhões de cópias só no lançamento) e a crítica amou.
The Girl From Ipanema recebeu o Grammy de Música do Ano e o LP Getz/Gilberto recebeu o prêmio de Melhor Álbum do Ano de 1964.
João Gilberto recebeu cerca de 25 mil dólares pela gravação (Ruy Castro).
Getz ganhou o suficiente para comprar uma mansão de antingo astro de Hollywood.
Jobim montou sua primeira editora musical nos Estados Unidos e passou a receber direitos autorais de forma mais honesta que no Brasil.
O LP reabilitou a carreira de Stan Getz que logo tratou de contratar Astrud como cantora de seu grupo (evidentemente com um salário bem melhor).
Com ele viajou pelos Estados Unidos e gravou o LP Getz A-Go-Go ao vivo.
Astrud teve um filho com João (João Marcelo), mas se separou deste em fins de 1964.
Em janeiro de 1965, gravou seus primeiros LPs solo, The Astrud Gilberto Album e The Shadow of Your Smile - ambos pela Verve-, iniciando assim, uma carreira própria e sólida.
Nos Estados Unidos, Astrud virou moda e inspirou várias cantoras “sem voz”.
Participou de filmes (The College Girl e The Hanged Man) e se apresentou em programas de TV e teatros de várias cidades americanas e da Europa.
Esteve no Brasil em 1966, quando fez uma temporada no Teatro Record, de São Paulo.
Em 1967, gravou “Who Needs Forever”, música-tema do filme de espionagem ‘The Deadly Affair’ e ‘The Gentle Rain’ para o filme de mesmo nome.
Em 1969, lançou um disco completamente cantado em japonês, Golden Japanese Album – raro e caro: US$117,90 (http://www.amazon.com/).
Nos anos 1970 começou a compor e recebeu um prêmio no Tokyo Music Festival pela música Live Today, em 1976.
Nos anos 1980 e 90 viajou intensamente pelos Estados Unidos, Europa e Japão, acompanhada de um sexteto.
Em 1992, recebeu o Latin Jazz USA Award pelo conjunto de sua obra.
Com seus dois filhos, criou, em 1996 a Gregmar Productions, Inc., por onde lançou o CD Astrud Gilberto-Live in New York.
Em 1994, a TV Globo gravou (em película) o especial João e Antônio. Astrud negociou e recebeu um cachê digno para cantar Garota de Ipanema.
Sua participação não foi ao ar.
Ainda em 1996, gravou em dueto com George Michael Desafinado para o projeto Red + Hot, que financia pesquisas relacionadas à Aids.
No ano seguinte, lançou Temperance, com boas críticas.
Seu último trabalho foi Jungle, de 2002.
Atualmente vive nos Estados Unidos, não dá entrevistas e é ferrenha defensora dos direitos dos animais.
O que sua discografia tem de mais surpreendente é o fato dela - com um fio de voz – ter sido produzida e acompanhada pelos melhores de seu tempo:
Chet Baker, Gil Evans, Eumir Deodato, Stanley Turrentine, Walter Wanderley, Luiz Bonfa, Getz, Jobim, Dom Um Romão, Marty Paich, Phil Ramone, Rudy Van Gelder e Quincy Jones, dentre outros.
Astrud Gilberto é considerada uma “não diva” do jazz – sem grande voz, sem vícios ou tragédias pessoais.
Ela desafina. Mas ninguém desafina como ela.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – A gravação The Girl From Ipanema por Astrud é considerada uma das 50 melhores canções de todos os tempos pela Biblioteca do Congresso Americano (Library of Congress, 2004).

Nota 2 - O LP Getz/Gilberto foi o disco de jazz mais vendido até o ano de 1963, superando até mesmo o obrigatório Time Out! (The Dave Brubeck Quartet, Columbia, 1959).

Nota 3 – Sua voz - pequena e semitonada - influenciou cantoras como Sade, Karen Carpenter, Diana Krall e Basia. Esta última dedicou-lhe uma canção de nome Astrud em seu disco de 1987, Time and Tide (Columbia/Sony).

Nota 4 – Garota de Ipanema é a terceira música mais executada no mundo inteiro.
Frank Sinatra - ao contrário do que o funcionário da editora musical disse - gravou 17 músicas de Antônio Carlos Jobim. E não gravou mais devido às péssimas versões para o inglês.

Jacy Dasilva


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