quinta-feira, 31 de março de 2011

Mack The Knife (1928)

Em 1728, John Gay (1685-1732) escreveu The Beggar’s Opera (Ópera dos Mendigos) como uma sátira social, sobretudo à Revolução Industrial. O autor usou a Itália e a nobreza para escapar da censura, embora os nomes das personagens fossem ingleses.

Kurt Weill (1900-1950), compositor e Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo,  adaptaram a obra de Gay em 1928, com o nome de  Die Dreigroschenoper (The Threepenny Opera ou Ópera dos Três Vinténs) para ser estrelada pela esposa de Weill, Lotte Lenya (1898-1981) como crítica ao capitalismo, especialmente à miséria existente na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
E o dramaturgo Brecht, no século XX, usou a Londres vitoriana como pano de fundo.

E a trama não poderia ser mais decadente e atemporal.

A peça é totalmente centrada na figura do anti-herói,  marginal, bígamo, assassino e “rei dos ladrões”, que atende sob três alcunhas: Macheath, Mackie Messer e Mack, the Knife (Mack, o navalha).
Na peça, Mack se casa com Polly, desagradando seu pai, Peachum, outro marginal, “rei dos mendigos”, que controlava a mendicância em Londres.
Mas, ao se casar com Polly, desagrada outro pai, Tiger Brown, o chefe da polícia. Por quê?
Mack já era casado com Lucy, filha de Brown.
Assim, Peachum (rei dos mendigos) e Tiger Brown (chefe de polícia) se unem para matar Mack (rei dos ladrões).
Mas o plano não era verdadeiro, Brown era amigo de Mack e recebia deste gordas propinas.
Apesar do aviso de Tiger Brown, Mack é preso por denúncia de Jenny, sua amante e prostituta.
Mack, o navalha vai preso e é condenado à forca.
No último momento, Mack escapa com a ajuda de Lucy, primeira esposa e filha de Brown.
No final ainda recebe o perdão e o título de barão da rainha da Inglaterra.
Sua popularidade e longevidade nos palcos se deve a persistência da corrupção.
O público pergunta: Quem é o maior criminoso?

A música Die Moritat Von Mackie Messer (título original em alemão), foi composta pouco antes da estreia em Berlin.
O ator Harald Paulsen (1895-1954), que interpretava Mack, não tinha uma música para ele e reclamou.
Isso explica a simplicidade de sua linha melódica e a salada de nomes e situações que a canção evoca.
A letra é enorme e cita Mack, Macheath (a mesma pessoa), causando confusão de identidades.
Lucy, Jenny, Brown, Polly são colocadas em meio a versos contando histórias de assassinatos, desaparecimentos, sangue (que nunca respinga em Mack por usar luvas brancas) e sacos de cimento para um corpo afundar. Em meio à corrupção reinante, a letra termina com um: “Mack está de volta à cidade!”.

A versão de Louis Armstrong (1956)
Em 1954, Lotte Lenya estreou The Threepenny Opera em New York, uma produção modesta, porém de grande público, viabilizando comercialmente os musicais off-broadway.
A versão americana foi batizada de Mack The Knife, versão em inglês de Marc Blitztein (1905-1964), que repetiu a saga do anti-herói e numerosos personagens, incluindo o nome da estrela, a atriz Lotte Lenya.
Uma das pessoas a assistir a peça foi George Avakian, produtor da Columbia Records. Ele gostou da música mas não conseguiu que nenhum contratado quisesse gravá-la.
Turk Murphy (1915-1987), trombonista de jazz, fez um arranjo novo e sugeriu a Avakian que levasse a música para Louis Armstrong (1901-1971).
A reação de Armstrong foi uma sonora gargalhada e completou:

“Conheci vários como este em New Orleans. Todos eram capazes de meter uma faca em você num piscar de olhos”.

A canção foi gravada por Armstrong (com os arranjos de Murphy) em setembro de 1955.
A parte instrumental é excelente, mas Armstrong queria mesmo cantar aquela história de sede por sangue. Um biógrafo de Armstrong, Collier (Louis Armstrong, James Collier, Editora Globo, 1983) vai além, e diz que Armstrong ironiza seu antigo “protetor” dos tempos de New Orleans, um bandido local.
O resultado é irresistível.
A gravação de Armstrong colocou Mack the Knife no repertório do jazz para sempre.



A música chegou ao 20º lugar na parada Billboard americana em fevereiro de 1956. Mas na Inglaterra, o disco de Armstrong alcançou o 11º lugar, levando Louis e seu grupo a nova turnê europeia.
O sucesso não foi apenas de público, crítica e vendas.
A música levou pessoas a assistirem o espetáculo de Lotte Lenya e despertou a atenção de outros artistas.
Mas, definitivamente, não é uma canção para qualquer intérprete.

A versão de Bobby Darin (1959)
Bobby Darin (1936-1973) não queria gravá-la.
Seu maior sucesso havia sido Splish, Splash (Darin-Murray) em 1957.
Ele trilhava o caminho de Elvis e temia um fracasso ao regravar um sucesso de Armstrong.
Até 1959 só gravara singles e That’s All (ATCO/Atlantic) seria seu primeiro álbum.
Ele foi convencido pelos irmãos e produtores Ahmet e Neshuhi Ertegun, donos da Atlantic Records.
A gravação foi em dezembro de 1958, mas só foi lançada em agosto de 1959.
Os arranjos cheios de swing foram de Richard Wess e a interpretação de Darin tornaram-na a favorita de Frank Sinatra (1915-1998).
Mack the Knife com BobbyDarin ficou por 9 semanas em 1º lugar na Billboard (seu único primeiro lugar), vendeu mais de 2 milhões de cópias e garantiu a ele o Grammy de Melhor Interpretação e Artista Iniciante de 1959. A canção também foi a melhor de 1959.



A versão de Ella Fitzgerald (1960)

A versão de Ella Fitzgerald (1917-1996) mostra o poder de uma boa intérprete.
Em 1960, Ella estava em Berlin (Ocidental, na época) para se apresentar e sua performance seria registrada para futuro álbum.
Estava acompanhada do Paul Smith Quartet e começou seu show em 13 de fevereiro de 1960.
Cantou clássicos de Cole Porter, Rodgers&Hart, Gershwin e preparava-se para a 16ª música, Mack The Knife.
Ainda sob os aplausos da música anterior, ela advertiu: “I hope I’ll remember all the words” (Espero lembrar de todas as palavras) e não deu outra: Esqueceu a letra.
Mas, a primeira-dama da canção (como era chamada) fez juz ao título e improvisou uma letra nova, debochando de seu prórpio esquecimento, fazendo uma imitação impagável de Louis Armstrong e citando a gravação de Bobby Darin.
Ella e seu scat-singing (improviso sobre a melodia, principalmente com onomatopeias) enriqueceram a melodia original, dando nova harmonia e notas mais altas.
A partir da gravação histórica foi obrigada a lembrar o improviso que criou.
Mack The Knife – Ella Live In Berlin (Verve) recebeu o Grammy de Melhor Performance Vocal de 1960 (álbum e single).
Em 1999, o álbum foi adicionado ao Grammy Hall of Fame pelo seu valor histórico.




A versão de Frank Sinatra (1984)

Ele também não queria gravá-la.
O autor Renzo Mora, único brasileiro a biografar Sinatra, conta em Sinatra – O Homem e a Música (Casa & Palavra, 2001, Décima Edição) que o produtor Quincy Jones propôs que Sinatra gravasse Mack The Knife e este disse:

“Por quê? Louis e todo mundo já cantaram tão bem, que diabos a gente pode fazer com ela?”

A pergunta de Sinatra foi incorporada à letra feita por Frank Foster especialmente para a gravação.
A letra ainda faz referência à Máfia (execuções e corpos sendo jogados no rio com botas de cimento), e outra a Marlon Brando (os dois se odiavam), citando a frase de O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972): “Uma oferta que não pode ser recusada”.
Na interpretação de Sinatra para Mack The Knife ele homenageia Louis, Darin, Ella Fitzgerald e o time de virtuoses que o acompanhavam na realização do álbum LA Is My Lady (Quincy Jones, Lionel Hampton, Lee Ritenour, George Benson, Major Holey e outros). Durante os shows, passou a homenagear os músicos que estivessem na banda, citando-os nominalmente ao longo da interpretação.
Voltou a regravá-la para o álbum Duets II, de 1994, ao lado de Jimmy Buffett.



Uma observação: Louis, Ella e Sinatra interpretam a canção com fina ironia, aparentando uma certa alegria. Mas os três conheceram bem a pobreza, a corrupção e tiveram "protetores" de vários calibres.

A versão de Robbie Williams (2001)
Robbie Williams, fã de Sinatra, gravou em 2001 o álbum Swing When Your’re Winning, uma homenagem não apenas ao repertório de Sinatra, mas a todo o Rat Pack.
Sinatra, Sammy Davis, Jr. (1925-1990), Dean Martin (1917-1995) e outros membros eventuais se reuniam para curtir a vida ao máximo.
Com espírito anárquico e cômico, entregaram-se às farras, shows e filmes que fizeram juntos.
Robbie Williams, grande farrista, homenageia o Rat Pack no álbum e shows sempre lotados.
O álbum de Robbie recebeu 7 discos de platina no Reino Unido e 5 discos de platina na Alemanha.
O vídeo é de show no Royal Albert Hall, Londres.


Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Lotte Lenya é mais conhecida pelo papel da vilã Rosa Klebb no filme Moscou Contra 007 (From Russia With Love, 1963). Na montagem off-broadway, o papel de Mack foi do ator e cantor Jerry Orbach (1935-2004), que é mais conhecido no Brasil por sua interpretação do detetive Lennie Briscoe no seriado Law & Order.

Nota 2 – A Ópera dos Três Vinténs foi traduzida em mais de 18 línguas e teve mais de 10 mil apresentações apenas na Europa.

Nota 3 – Chico Buarque fez uma versão de Mack The Knife (O Malandro) para a Ópera do Malandro, peça,álbum e filme.

Nota 4 – A Ópera dos Mendigos ganhou luxuosa versão da BBC de Londres em telefilme de 1983 estrelado por Roger Daltrey (vocalista do The Who).

Nota 5 – Em 1989, uma versão cinematográfica da Ópera dos Três Vinténs foi lançada com o título de Mack the Knife (O Rei dos Ladrões, no Brasil) com Raul Julia no papel principal.

Nota 6 - Para entender melhor o que foi o Rat Pack, Jazz e Sinatra recomendo aos leitores o próximo lançamento do autor Renzo Mora.
“3 Homens e Nenhum Segredo”.
Seus livros: "Fica Frio - Uma Breve História do Cool Jazz"; "Cinema Falado" e "Sinatra - O Homem e a Música" podem ser encontrados na Livraria Cultura.
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?nautor=204193&refino=1&p=1

Três Homens e Nenhum Segredo, o livro.
Em breve nas livrarias


Jacy Dasilva
Para os amigos Nelson Azambuja, Renzo Mora e Gisele Sayeg

terça-feira, 22 de março de 2011

It Never Rains In Southern California – Albert Hammond (1972)



Sem dúvida, é sua canção mais conhecida.
Parece ser o caso de um compositor de uma música só, mas não é.
Hammond nasceu em Londres em 1944, mas foi levado para a terra natal dos pais, Gibraltar (território britânico reivindicado pela Espanha), devido aos bombardeios aéreos na Segunda Guerra Mundial. Por conta disso, ouvia música espanhola, inglesa e árabe – idiomas que aprendeu.
Em entrevista ao jornal The Guardian,  Hammond disse que já sabia que queria ser músico aos 8 anos quando começou a cantar no coral de sua igreja. Adorava os hinos religiosos e ambicionava poder compô-los.
Sua primeira composição Blue Boy foi feita aos 10 anos, especialmente para uma escocesa, também criança, que estava a passeio com os pais em Gibraltar.
Seu tio tinha bares em Gibraltar com jukeboxes repletos de músicas as quais ouvia sem parar. Seu primeiro ídolo foi Buddy Holly (1936-1959) e começou a aprender sozinho, “tirando” músicas ao piano e violão.
Entre os 17 e 19 anos começou a trabalhar com música.
Fazia versões para o idioma espanhol de sucessos do rock & roll americanos.
E foi para o Marrocos tocar em boates de Casablanca.
Depois, voltou para Gibraltar e montou sua primeira banda, The Diamond Boys.
Viajou até Madri e ganhou um concurso de rock & roll espanhol. O prêmio foi um contrato com a RCA.
Voltou para Londres em 1961, já com 20 anos.
Gravou discos que não venderam. Lavava pratos em vários restaurantes, trabalhava numa sapataria, mas não desistiu de ser compositor.
Para esses locais levava seu rádio de pilha e quando tocava Little Arrows, dizia aos clientes: “Essa música é minha”. Todos riam em total descrédito.
Em 1964, conheceu Mike Hazlewood (1941-2001) na Inglaterra e formaram outra banda, The Family Dogg. A parceria deu resultados concretos em 1969 quando a composição Way of Life chegou ao 6º lugar do Hit Parade britânico.
O mundo musical vivia uma revolução desencadeada pelo rock, sobretudo o britânico.
A qualidade das composições do período era tanta, que cunharam o termo “British Invasion” nos Estados Unidos, para designar o sucesso que grupos ingleses faziam em território americano. The Beatles, Rolling Stones, The Hollies, The Who, Cream e muitos outros artistas exemplificam o termo.
O mercado fonográfico americano não ficou de braços cruzados. Vários compositores britânicos foram convidados a ceder ou vender composições inéditas para intérpretes americanos.
Mas, como em todo negócio – e música também é -, existem os golpistas.
Albert Hammond foi para os Estados Unidos com a promessa de ganhar dinheiro fazendo música.
Foi parar na Califórnia sem nenhum contrato.
Bateu às portas de várias gravadoras e produtoras e todos não se mostraram interessados.
Morando de favor na casa de uma secretária, sem dinheiro, sem emprego, pôs a letra numa velha melodia contando sua situação.
A melodia de It Never Rains in Southern California foi composta em 1969 quando Hammond tocava nas ruas de Madri. Nesse tempo ficou amigo de um certo Julio Iglesias.
A situação de pobreza era a mesma na Califórnia. Foi só colocar letra relatando as promessas e trapaças.
E assim nasceu a canção que conhecemos. Mas ninguém queria gravá-la.
It Never Rains In Southern California foi oferecida aos Seekers, Glen Campbell e outros artistas. Todos diziam que a música era horrível.
Hammond se apresentava no bar do Bervely Hills Hotel e o produtor Clive Davis estava na plateia e ofereceu um contrato para um disco.
Clive ouviu todas as músicas e perguntou:
- Você tem mais alguma?
- Tenho uma que ninguém gosta, respondeu Hammond.
It Never Rains in Southern California agradou e Clive disse que seria também o nome do disco de 1972.
A música foi sucesso em todo mundo, ganhando até uma versão em espanhol.
Aí vieram os contratos verdadeiros.
Em 1973, a CBS (Columbia) ofereceu 500 mil dólares por suas composições. Seu parceiro Mike Hazelwood também recebeu mas disse que não queria mais a parceria.
Hammond pensou em devolver o dinheiro, porém a CBS forneceu-lhe outros parceiros.
Com Hal David, mais conhecido por ser o letrista de Burt Bacharach, fez 99 Miles From LA. A gravação de Art Garfunkel é a mais conhecida.



Para a mulher que lhe deu abrigo e se apaixonou escreveu The Air That I Breathe, gravada por The Hollies. Gentilmente incluiu o nome de Hazlewood na parceria.



Com Carole Bayer Sager compôs When I Need You, famosa na voz de Leo Sayer.



Com John Bettis e Richard Carpenter fez I Need To Be In Love para os Carpenters.
O vídeo tem uma introdução maior que a gravação original.



Para o amigo Julio Iglesias fez To All The Girls I’ve Loved Before, que em 1983 gravou a canção com Willie Nelson. A música foi sucesso planetário e garantiu a Julio a entrada no mercado americano.
Em 2010, Alanis Morissette gravou uma versão da música chamada To All The Boys I've Loved Before



Da parceria com Diane Warren surgiu Don’t You Love Me Anymore para Joe Cocker.
 



Com Graham Lyle compôs I Don’t Wanna Lose You para Tina Turner.



Em 1987, recebeu uma indicação ao Oscar de melhor Canção por Nothing's Gonna Stop Us Now, tema da comédia romântica Manequin, gravada pelo Starship.


Em 1988, a convite da NBC, compôs em parceria com John Bettis o tema dos Jogos Olímpicos de Seul – One Moment In Time para a voz de Whitney Houston.



Notas Fora da Pauta
Nota 1 – Em 1967, houve um plebiscito em Gibraltar. A população preferiu continuar sendo governada pelos britânicos. A Espanha ainda reclama.

Nota 2 - As composições de Albert Hammond somam mais 360 milhões de cópias vendidas em todo mundo.

Nota 3 – Albert Hammond coleciona uma indicação ao Oscar, alguns Grammys, vários discos de Ouro e Platina ao redor do mundo e o prestigioso Prêmio Ivor Novello pela Academia Britânica de Compositores e Letristas.

Nota 4 – Em 2000, recebeu da rainha Elizabeth II o título de Oficial do Império Britânico (OBE).

Nota 5 – Hammond é pai de Albert Hammond Jr., guitarrista da banda The Strokes.
Pai e filho lançarão álbuns novos em 2011.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 16 de março de 2011

The Girl From Ipanema – Astrud Gilberto (1963)



Garota de Ipanema (Jobim-Vinícius) na voz de Astrud Gilberto fez história – e ainda faz, visto que o disco nunca saiu de catálogo fora do Brasil desde o seu lançamento em 1963.
Segundo o historiador da bossa nova, Ruy Castro, Garota de Ipanema não foi composta no bar Veloso, frequentado pela dupla de compositores.
Jobim fez a melodia em sua casa na Rua Barão da Torre (Ipanema) e Vinícius fez a letra em seu sítio em Petrópolis.
Vinícius queria a composição para um musical chamado Blimp que nunca concluiu, tampouco encenou.
A primeira apresentação de Garota de Ipanema foi em agosto de 1962 no palco do restaurante Bon Gourmet (Copacabana) com Jobim, João Gilberto, Otávio Bailey, Milton Banana (1935-1999) e Os Cariocas no show denominado de “O Encontro”.
Pery Ribeiro foi o primeiro brasileiro a gravá-la para a Odeon em janeiro de 1963.
Jobim gravou uma versão instrumental no disco “The Composer of Desafinado Plays” (Verve, 1963).
A versão em inglês, feita por Norman Gimbel, pretendia suprimir a palavra “Ipanema”, pois ele achava que nenhum americano entenderia seu significado.
Outro problema é que a versão americana “come” notas musicais: “Olha que coisa mais linda” (oito notas); a americana: “Tall and Tan and..” (quatro).
Jobim nunca gostou da versão de Gimbel. Seu versionista preferido foi Gene Lees (1928-2010).
E quando foi reclamar das péssimas versões para o inglês, na editora musical americana, ouviu:

“O que você está pensando? Acha que suas músicas serão gravadas pelo Frank Sinatra?”

Astrud Gilberto

Astrud Weinert nasceu em Salvador no dia 29 de março de 1940.
Filha de um alemão que dava aulas de inglês, veio para o Rio de Janeiro em 1948.
Trabalhou no Ministério da Agricultura e frequentava os encontros de bossa nova, sobretudo aqueles na casa de Nara Leão (1942-1989).
Em 1959, Astrud casou com João Gilberto e passou acompanhá-lo em suas apresentações. E assim, começou a cantar, esporadicamente, nos shows amadores de bossa nova.
Em 1963, foi para Nova York com João, que havia sido convidado para gravar com  Jobim um LP com o saxofonista de jazz, Stan Getz (1927-1991) pela Verve.
E foi porque sabia falar inglês.
Sua participação no disco foi fruto de seu esforço e persistência.
Atualmente, a literatura sobre bossa nova e os encartes dos relançamentos da Verve tendem a amenizar o veto à participação de Astrud no álbum, ou mesmo negá-lo.
Mas foi assim.
João Gilberto – sempre por razões inexplicáveis – não queria a esposa cantora.
Talvez quisesse que ela cantasse só pra ele - o que entendo.
Stan Getz também não.Mas ele tinha motivos.
Seu disco anterior, “Jazz Samba Encore! Stan Getz & Luiz Bonfá” teve os vocais da esposa de Bonfá, Maria Toledo, cantando em português e não agradou Getz.
Hoje, o disco é um clássico, mas na época não foi sucesso.
Getz queria alguém cantando em inglês e pensou em chamar sua esposa, Monica.
Antonio Carlos Jobim era a favor que Astrud gravasse as versões em inglês de Garota de Ipanema (The Girl From Ipanema) e Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars), pois sabia que ela cantava bem ao estilo bossa nova e convenceu o produtor Creed Taylor a convidá-la.
Bastou que começasse a cantar para convencer João e Getz de que a cantora certa já estava lá.
Após as sessões, o primeiro problema: Getz não queria que Astrud recebesse pagamento algum pela sua participação.
Todos protestaram e Astrud recebeu míseros US$120,00 (valor mínimo do sindicato) pelos vocais.
O segundo problema foi o tempo de gravação de Garota de Ipanema.
 The Girl From Ipanema ficou enorme (mais de 5 min) por causa dos vocais de João e Astrud e o solo de Getz.
O produtor sabia que tinha um hit nas mãos.
A música tinha o tamanho natural para um LP de jazz, mas grande demais para tocar nas rádios.
Passaram-se meses até que, depois de muito pensar, Creed Taylor suprimiu os vocais de João Gilberto (sem que ele soubesse), deixou apenas o vocal de Astrud e lançou a gravação em single (compacto) com 2: 46 min e Corcovado com 2:20 min.
Astrud, com sua voz pequena e suave, transformou a canção num sucesso de vendas (2 milhões de cópias só no lançamento) e a crítica amou.
The Girl From Ipanema recebeu o Grammy de Música do Ano e o LP Getz/Gilberto recebeu o prêmio de Melhor Álbum do Ano de 1964.
João Gilberto recebeu cerca de 25 mil dólares pela gravação (Ruy Castro).
Getz ganhou o suficiente para comprar uma mansão de antingo astro de Hollywood.
Jobim montou sua primeira editora musical nos Estados Unidos e passou a receber direitos autorais de forma mais honesta que no Brasil.
O LP reabilitou a carreira de Stan Getz que logo tratou de contratar Astrud como cantora de seu grupo (evidentemente com um salário bem melhor).
Com ele viajou pelos Estados Unidos e gravou o LP Getz A-Go-Go ao vivo.
Astrud teve um filho com João (João Marcelo), mas se separou deste em fins de 1964.
Em janeiro de 1965, gravou seus primeiros LPs solo, The Astrud Gilberto Album e The Shadow of Your Smile - ambos pela Verve-, iniciando assim, uma carreira própria e sólida.
Nos Estados Unidos, Astrud virou moda e inspirou várias cantoras “sem voz”.
Participou de filmes (The College Girl e The Hanged Man) e se apresentou em programas de TV e teatros de várias cidades americanas e da Europa.
Esteve no Brasil em 1966, quando fez uma temporada no Teatro Record, de São Paulo.
Em 1967, gravou “Who Needs Forever”, música-tema do filme de espionagem ‘The Deadly Affair’ e ‘The Gentle Rain’ para o filme de mesmo nome.
Em 1969, lançou um disco completamente cantado em japonês, Golden Japanese Album – raro e caro: US$117,90 (http://www.amazon.com/).
Nos anos 1970 começou a compor e recebeu um prêmio no Tokyo Music Festival pela música Live Today, em 1976.
Nos anos 1980 e 90 viajou intensamente pelos Estados Unidos, Europa e Japão, acompanhada de um sexteto.
Em 1992, recebeu o Latin Jazz USA Award pelo conjunto de sua obra.
Com seus dois filhos, criou, em 1996 a Gregmar Productions, Inc., por onde lançou o CD Astrud Gilberto-Live in New York.
Em 1994, a TV Globo gravou (em película) o especial João e Antônio. Astrud negociou e recebeu um cachê digno para cantar Garota de Ipanema.
Sua participação não foi ao ar.
Ainda em 1996, gravou em dueto com George Michael Desafinado para o projeto Red + Hot, que financia pesquisas relacionadas à Aids.
No ano seguinte, lançou Temperance, com boas críticas.
Seu último trabalho foi Jungle, de 2002.
Atualmente vive nos Estados Unidos, não dá entrevistas e é ferrenha defensora dos direitos dos animais.
O que sua discografia tem de mais surpreendente é o fato dela - com um fio de voz – ter sido produzida e acompanhada pelos melhores de seu tempo:
Chet Baker, Gil Evans, Eumir Deodato, Stanley Turrentine, Walter Wanderley, Luiz Bonfa, Getz, Jobim, Dom Um Romão, Marty Paich, Phil Ramone, Rudy Van Gelder e Quincy Jones, dentre outros.
Astrud Gilberto é considerada uma “não diva” do jazz – sem grande voz, sem vícios ou tragédias pessoais.
Ela desafina. Mas ninguém desafina como ela.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – A gravação The Girl From Ipanema por Astrud é considerada uma das 50 melhores canções de todos os tempos pela Biblioteca do Congresso Americano (Library of Congress, 2004).

Nota 2 - O LP Getz/Gilberto foi o disco de jazz mais vendido até o ano de 1963, superando até mesmo o obrigatório Time Out! (The Dave Brubeck Quartet, Columbia, 1959).

Nota 3 – Sua voz - pequena e semitonada - influenciou cantoras como Sade, Karen Carpenter, Diana Krall e Basia. Esta última dedicou-lhe uma canção de nome Astrud em seu disco de 1987, Time and Tide (Columbia/Sony).

Nota 4 – Garota de Ipanema é a terceira música mais executada no mundo inteiro.
Frank Sinatra - ao contrário do que o funcionário da editora musical disse - gravou 17 músicas de Antônio Carlos Jobim. E não gravou mais devido às péssimas versões para o inglês.

Jacy Dasilva


domingo, 6 de março de 2011

Ó Abre Alas – Chiquinha Gonzaga (1899)



Foi a primeira composição feita especificamente para o Carnaval e podemos afirmar que foi a obra que inaugurou a nossa música popular.
Ó Abre Alas foi uma encomenda do rancho “Rosa de Ouro” à compositora. Tem versos curtos e melodia dançante e de fácil memorização – requisitos básicos – que foram copiados por todos os compositores de carnaval durante o século XX.
Mas o Carnaval do Rio de Janeiro não tinha música? Sim e não.
Não havia um ritmo brasileiro definido. As pessoas saiam sozinhas ou em grupo com suas fantasias, brincando, dançando e insultando as outras pessoas ou o governo. Balançava-se o corpo e até árias operísticas eram cantadas.

Chiquinha Gonzaga

Francisca Edwiges de Lima Neves Gonzaga (1847-1935) nasceu no Rio de Janeiro.
Sua vida pessoal é mais conhecida e comentada que sua obra musical, infelizmente.
Ela começou os estudos de piano ainda moça e aos 30 anos, totalmente de improviso, numa festa, compôs seu primeiro sucesso - Atraente, uma polca.
Aliás, a polca (ritmo do Leste Europeu) era o que se tocava nas casas de classe média, além de valsas e repertório clássico.
E toda casa de boa família tinha um piano – costume trazido pela família real portuguesa ao chegar aqui em 1808. Araújo Porto Alegre (1806-1879) chegou a batizar o Rio de “cidade dos pianos”.

Atraente (1877)



Chiquinha Gonzaga, pianista, montou uma orquestra apenas com violões, instrumento “maldito” que não entrava nas casas de classe – escândalo.
Chiquinha foi pioneira em tudo aquilo que fez. Separada de seu marido, coloca anúncio no Jornal do Brasil oferecendo-se para dar aulas de piano, francês, etc.
Foi maestrina e compôs valsas, polcas, tangos, lundus, música sacra, fados e maxixes de grande sucesso. A distribuição das músicas era feita via partituras numeradas. Não havia ainda o fonógrafo, muito menos o rádio.
O compositor recebia pelas editoras ou pelas suas apresentações.
Foi ferrenha na campanha pela abolição da escravatura.
Em 1900 tornou-se amiga de Nair de Tefé (1886-1981), outra pioneira num ramo ainda mais masculino: o jornalismo.
Nair foi talvez a primeira cartunista mulher em todo o mundo. Casou-se com o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) e chamou a amiga Chiquinha para uma apresentação no Palácio do Catete.
O ano era 1914 e a primeira-dama, Nair tocou violão ao lado de Chiquinha no palácio presidencial: um escândalo político. Mulher não tocava violão, quando muito tocava piano dentro de casa e se apresentava para a família.
Chiquinha apresentou-se em vários países da Europa e foi popular especialmente em Portugal, onde morou.
Chiquinha chegou a deixar obra registrada em raros discos da Odeon (EMI) brasileira.
Outro pioneirismo foi fundar a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) ao lado de Viriato Corrêa (1884-1967) e outros para assegurar os direitos autorais.
Chiquinha musicou quase 80 obras teatrais. Compôs mais de 250 títulos.
Felizmente, Chiquinha recebeu homenagens em vida e ainda é lembrada como exemplo de superação de preconceitos.

Um trailer de Chiquinha Gonzaga (TV Globo, 1999) para os leitores de língua inglesa.



Ó Abre Alas atrvessou todo o século XX e permanece uma composição extremamente popular.
Em 1999 Chiquinha Gonzaga foi homenageada com uma minissérie da Rede Globo de grande sucesso.

Jacy Dasilva

terça-feira, 1 de março de 2011

Cidade Maravilhosa – André Filho (1934)



Hoje, 1º de março, é aniversário da Cidade do Rio de Janeiro.
A cidade foi fundada pelo militar português, Estácio de Sá, em 1565, com o nome de Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Estácio de Sá chegou em 1563 com a missão de expulsar os invasores franceses que queriam instalar uma colônia, a França Antártica no Brasil. 
Estácio aliou-se aos mandatários da Capitania de São Vicente (São Paulo), jesuítas e índios de várias tribos, conseguindo expulsar os franceses em 20 de janeiro de 1565. Por isso, o santo padroeiro da cidade é São Sebastião.
O índio Arariboia (tribo temiminó) apoiou os portugueses, ganhou um pedaço de terra do outro lado da Baía de Guanabara e fundou a cidade de Niterói (águas escondidas em tupi-guarani) em 22 de novembro de 1567.
O Rio tornou-se capital do Brasil-colônia em 1763.
Com a chegada da família real portuguesa em 1808, o Rio foi alçado à condição de capital de todo o Império português.
Proclamada a República (1889), o Rio de Janeiro foi capital do Brasil até 1960.
O termo “Cidade Maravilhosa” foi dado pelo escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934) em homenagem às belezas naturais da cidade nos anos 1920.
E como era o Rio de Janeiro nos anos 1930?
O cinejornal da Metro-Goldwyn-Meyer (TCM) nos dá uma ajuda, embora com um olhar de exotismo.
E o Rio de Janeiro era lindo mesmo.


Antônio André de Sá Filho (1906-1964) nasceu no Rio de Janeiro, mas ainda criança foi considerado menino de "mau comportamento". Por conta disso, foi enviado a Niterói para ser internado no Colégio Salesiano, conhecido pela sua disciplina e educação musical.
André ficou órfão muito cedo foi criado pelos avós.
André e irmãs receberam aulas de música.
No colégio, tornou-se amigo de Henrique Foréis Domingues (1908-1980), mais conhecido como "Almirante" ("a maior patente do rádio"), que teve grande influência na vida musical de André.
André Filho foi um aplicado aluno de música e aprendeu a tocar vários instrumentos.
Voltou para o Rio e tornou-se músico, depois de desistir do Direito e recusar o pedido da família para que fosse médico.
Ele foi compositor, arranjador, locutor e autor de jingles para várias emissoras de rádio do Rio.
Em parceria com Noel Rosa (1910-1937), compôs o clássico samba "Filosofia".
Destacou-se como autor de vários sambas e marchas carnavalescas para Carmen Miranda (1909-1955), Silvio Caldas (1908-1998), Mário Reis (1907-1981) e Vicente Celestino (1894-1968).
Compôs “Cidade Maravilhosa” quando morava numa casa situada à rua do Matoso, Tijuca.
Queria que Carmen Miranda a gravasse.
Ela achou a composição ótima para deslanchar a carrreira de sua irmã, também cantora - Aurora Miranda (1915-2005).
André ao violão e Aurora gravaram “Cidade Maravilhosa” para a Odeon (EMI) em 1934.
No concurso oficial de marchas de carnavalescas de 1935, “Cidade Maravilhosa” já era conhecida e favorita do público, mas ficou em segundo lugar.
Pouco importa, é a primeira no coração dos habitantes dos Rio de Janeiro.
Foi a composição favorita de seu autor.
Em qualquer baile de Carnaval é executada pelas bandas e acompanhada pelo público com entusiamo há gerações.
Qualquer disco de Carnaval que se preze tem "Cidade Maravilhosa" como faixa - LP ou CD.
As regravações foram inúmeras, mas a de Caetano Veloso valoriza os versos da canção.



Jacy Dasilva

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – O governador Carlos Lacerda (1914-1977) escolheu a marcha como hino oficial do Estado da Guanabara em 1964. O prefeito César Maia, em 2003, ratificou a canção como hino oficial do Rio de Janeiro.

Nota 2 - A gravação de Aurora e André foi relançada em LP e CD por Chico, gentilíssimo dono da extinta rede de lojas Moto Discos, em 1990 com a ajuda da EMI. Além disso, lançou uma série extensa de LPs remasterizados com antigos cantores da "época de ouro do rádio" e antigos sucessos de carnaval.

Nota 3 - Apesar de usar o vídeo oficial da candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos de 2016, celebro o aniversário do Rio e homenageio o autor de seu hino.

Nota 4 – Até hoje, a Banda do Colégio Salesiano de Niterói encerra suas apresentações com “Cidade Maravilhosa” em homenagem ao ex-aluno. Pude testemunhar, pois participava da banda "rival", a do Colégio Plínio Leite.