quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

What’d I Say – Ray Charles (1958)



Ele não foi chamado de gênio sem razão.
A composição “What’d I Say” foi feita no palco, de improviso, de frente para o público.
Ray Charles (1930-2004) havia sido contratado para tocar numa maratona de dança em casa noturna perto de Pittsburgh. Compareceu, animou a todos e deu por encerrada sua participação. O dono do establecimento dirigiu-se ao empresário de Ray e disse que pelo contrato o artista ainda devia mais 20 minutos de show. Ray concordou e disse aos membros de sua banda e às vocalistas (as famosas Raelettes) que simplesmente repetissem o que tocaria a seguir, bem ao estilo gospel-americano.
Ray fez um arpeggio em seu piano Wurlitzer e improvisou com pequenas variações. A bateria de Milt Turner, o naipe de metais e as cantoras acompanhavam Ray com vigor e talento.
Os frequentadores não sabiam que aquilo era inédito e queriam saber onde comprar o disco. Este ainda não existia e a música estava sendo composta ali, na frente de todos.
A conotação sexual da música também contribuiu para o sucesso. O jogo de canto entre Ray e as Raelettes era puro sexo.
O filme biográfico, Ray, de 2004, ilustra bem o acima descrito.
Mas o leitor de Phonopress merece saber mais.

A gravação
Ray gravou a canção em fevereiro de 1959, mas havia o velho problema: era longa demais. Tinha 6 minutos. Ainda assim, Ray queria que música fosse lançada integralmente.
O engenheiro de som Tom Dowd – mais uma vez – teve a solução possível e satisfatória: dividiu a canção em duas partes que foram lançadas em compacto, também conhecido como single.
Ray aprovou a solução e idéia de lançarem a música nas férias escolares do verão americano para maior vendagem. Ele era um excelente homem de negócios.
O disco foi lançado em junho de 1959 e alcançou o sexto lugar na parada Pop e o primeiro na Rhythm & Blues da Billboard.
A gravação foi lançada em verdadeiro estéreo (8 canais), enquanto grandes nomes da música americana ainda gravavam em mono.
“What’d I Say” foi um divisor de águas em sua carreira e oportunidade para outros artistas negros exigirem melhores contratos.
Ray Charles recebeu o primeiro Disco de Ouro.
“What’d I Say” foi regravada por Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Beatles, Steve Winwood, Johnny Cash, Nancy Sinatra, Bob Darin e muitos outros.
Foi censurada em muitas rádios. Era uma "música do diabo", dizia a patrulha religiosa.
Ray respondia: “E não foi assim que todos nós viemos ao mundo?”.
Ray Charles - inovador ao transpor para o blues e o jazz a música gospel - com "What'd I Say" - conquistou o público jovem, amante do Rock & Roll.

A Atlantic Records 
Antes de assinar com a Atlantic Records, Ray gravava country, gospel (sem a gritaria da música religiosa atual) e blues para um pequeno selo, o Swingtime.
O público pedia e Ray cantava  e gravava bem ao estilo de Nat “King” Cole (1919-1965).
Ray chamou a atenção, sobretudo pelas seguintes gravações: “Confession Blues” e “Baby Let Me Hold Your Hand”. Ray ganhou pouco com as gravações desse período.
Os irmãos Ahmet (1923-2006) e Nesuhi Ertegun (1917-1989) juntamente com Jerry Wexler (1917-2008) fundaram a gravadora Atlantic Records em 1947.
Em 1952, Ahmet comprou o contrato de Ray com a Swingtime por US$ 2.500,00.
A Atlantic Records deu a Ray a liberdade de cantar o que quis, com seu próprio estilo.
Pediu e recebeu mais músicos e cantoras para acompanhá-lo.
Ray passou a receber melhor pelo seu trabalho.
Era um homem dos estúdios e de shows. Cobrava muito bem pelas suas apresentações.
São históricas as gravações desse período: “I’ve Got a Woman”, “Hallelujah, I Love Her So”, “A Fool For You” e “What’d I Say” e outras. O LP "The Genius of Ray Charles" é marco fonográgico da Atlantic.
As Raelettes fizeram tanto sucesso que passaram a gravar sob o nome “The Ray Charles Singers”, adicionado com vozes masculinas. Foram bastante populares no Brasil.
As gravações do "The Ray Charles Singers", ou Cantores de Ray Charles nunca foram lançadas no formato digital no Brasil - uma pena. 
A Atlantic Records abriu as portas para músicos negros.
E, ao contrário da Motown – que tinha uma sonoridade própria –, na Atlantic, os cantores e músicos gravavam seu próprio estilo e som.
Os estúdios da Atlantic eram descentralizados. Os músicos gravavam em várias partes dos Estados Unidos - outra inovação.
Um exemplo é Aretha Franklin. Ela foi contratada em 1964 pela Columbia para ser uma sucessora de Dinah Washington, recém falecida (1924-1963). Claro, ela já cantava muito bem (CD Aretha Franklin - The Early Years), mas as faixas são açucaradas e nada têm a ver com o som característico dela.
Na Atlantic, Aretha floresceu e desenvolveu personalidade própria.
Wilson Picket, Roberta Flack, Ben E King, Percy Sledge, Brook Benton, Otis Redding e muitos outros foram lançados pela Atlantic.
A Atlantic é responsável também pela contratação do Led Zeppelin.

A ABC-Paramount
Ray Charles deixou a Atlantic em 1962 e foi para a iniciante ABC-Paramount.
Esta não tinha um sucesso sequer e precisava desesperadamente de uma estrela.
Além de boa soma em dinheiro e liberdade criativa, a ABC ofereceu a Ray algo inédito no mundo fonográfico: ele seria dono de suas gravações.
Ao contrário do que já foi publicado, Ray não pediu os fonogramas (embora quisesse), a gravadora ofereceu-lhe como último recurso para que deixasse a Atlantic. 
Seus discos “Genius+Soul=Jazz”, “Greatest Country & Western Hits”, “Ray Charles & Betty Carter”, “Sweet, Soul & Tears”, “Volcanic Action Of My Soul” e outros são antológicos.
Do período são as canções “I Can’t Stop Loving You”, “Georgia On My Mind”, “Cry”, “America The Beautiful”, “Hit The Road Jack”, “Yesterday”, “Ruby”, “Unchain My Heart” e muitos outros clássicos.

As Vindas ao Brasil
Ray Charles veio ao Brasil pela primeira vez em setembro de 1963.
Sua produção trouxe tudo: microfones, mesa de som, amplificadores e câmeras para registrar tudo. Além do pagamento, uma exigência: o dois shows seriam transmitidos pela TV, ao vivo, do Teatro Record em São Paulo uma única vez.
E assim foi feito.
Em 2004, o show -filmado em película e em preto e braco - foi disponibilizado no DVD “Ô Gênio: Ray Charles, Live in Brazil, 1963” (o acento circunflexo no “O” é inexplicável).
Em 1995, veio novamente ao Brasil.
Tocou no Free Jazz Festival no Rio de Janeiro e São Paulo e os ingressos – caríssimos - esgotaram rapidamente.
Ainda em São Paulo, tocou no Parque do Ibirapuera para mais de 100 mil pessoas.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 - Em 1989, o próprio Ray Charles e o engenheiro de som Steve Hoffman remasterizaram para o formato digital todo o catálogo do período ABC-Paramount.

Nota 2 –Além de ser dono de boa parte de sua obra, Ray comprou direitos autorais de vários sucessos que havia gravado e interpretado, mas não havia composto. Teve mais de uma editora musical. Existem até hoje.

Nota 3 – O disco de 2004, “Genius Loves Company”, vendeu 3,2 milhões de cópias no lançamento. O destaque do disco vai para o dueto com Elton John em “Sorry Seems To Be The Hardest Word”. Uma nova geração conheceu o gênio.

Nota 4 – Ray recebeu 11 prêmios Grammy ao longo da carreira.

Nota 5 – Pouco antes de falecer, Ray deu a cada um de seus 12 filhos a quantia de 1 milhão de dólares. Faleceu em 2004, em casa, cercado pela família. Morreu rico e, em vida, ajudou muitos em dificuldades financeiras.

Nota 6 – Ahmet e Nesuhi Ertegun foram grandes admiradores e divulgadores da música brasileira no exterior.
Fãs declarados de Elis Regina, Jobim e João Gilberto.
Juntamente com o produtor André Midani criaram a noite brasileira no Festival de Jazz de Montreaux.

Nota 7 – Ahmet e Nesuhi, no início dos anos 1970, contrataram Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer e outros craques  e fundaram o time de futebol “New York Cosmos”.

Nota 8 - Arpeggio é executado quando as notas que formam um acorde (conjunto de três ou mais notas tocadas simultaneamente) são tocadas separadamente, em qualquer sequência. Arpeggio é também conhecido como acorde quebrado.

Jacy Dasilva

Um comentário:

  1. Na biografia do Quincy Jones ele conta que aos 16 anos Ray já morava sozinho (e tinha namorada!!!).
    Vi no Free Jazz, aqui em SP. Os organizadores contam que a 1a. coisa que fez ao descer do avião e entrar no carro da produção foi sacar uma seringa e aplicar, por cima da calça mesmo.
    Mesmo assim, fez um grande e emocionante show.
    Abraços, Irmão
    Renzo

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