segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

John Barry (1933-2011)



Morreu hoje um dos maiores compositores da história do cinema, John Barry.
Conhecido pelas trilhas que marcaram a filmografia de James Bond e por outros clássicos como "Born Free", Dança com Lobos", "Em Algum Lugar do Passado", "Out of Africa", Leão do Inverno", "Robin & Marian".
Quando Louis Armstrong estava doente, convidou o próprio para cantar aqueles que muitos consideram a melhor música-tema dos filmes de Bond:
"We Have All The Time In The World", com letra de Hal David.
Ele próprio telefonou a Louis e poucos acreditavam que fosse aceitar.
Louis desembarcou sozinho em Londres e gravou com emoção, como se tivesse todo o tempo do mundo e não tinha.
A música fica mais empobrecida e o cinema também.
Obrigado pelos filmes que assisti apenas por saber que você fora o compositor. 



Jacy Dasilva

Tico-Tico no Fubá – Zequinha de Abreu (1917)



José Gomes de Abreu nasceu em Santa Rita do Passa Quatro, SP, em 1880.
Seu pai, farmacêutico, queria que ele fosse médico; José queria ser Zequinha de Abreu.
E começou a compor bem menino e iniciou os estudos em música antes da adolescência.
Aos 16 anos (1896) compôs “Flor da Estrada” e “Bafo de Onça”, um maxixe, ritmo que Mário de Andrade (1893-1945) considerava o primeiro genuinamente brasileiro, embora reconhecesse que era uma mistura do tango, da habaneira e da polca.
Em 1917, em sua cidade natal, comandava um baile e executou um choro inacabado e sem nome, cujo agito dos pares no salão lhe fez dizer: “parece um tico-tico no farelo”.
Logo “Tico-tico no Fubá” tornou-se um sucesso por onde Zequinha levava sua orquestra.
A composição só foi editada em 1930 e ganhou a primeira gravação no ano seguinte -14 anos depois de criada -, pela Orquestra Colbaz do maestro Gaó (1909-1992).
Esta gravação (Columbia) permaneceu em catálogo até o final dos anos 1940.
Eurico Barreiros foi o primeiro a acrescentar uma letra para o disco de 1942 na voz Ademilde Fonseca. Alvarenga, da dupla Alvarenga e Ranchinho, também pôs letra em Tico-tico no Fubá, com o subtítulo de “Vamos Dançar, Comadre”.
Mas a interpretação de Carmen Miranda (1909-1955) com versos de Aloysio de Oliveira (1914-1995) foi a versão que internacionalizou a obra.
A composição foi usada em 1943 no filme de Walt Disney (1901-1966) “Saludos Amigos” (Alô, Amigos) e no musical “Thousands Cheer” (A Filha do Comandante).
Em 1944, em mais dois filmes: “Bathing Beauty” (Escola de Sereias) e “Kansas City Kitty” (Afinal de Quem é a Kitty?).
Em 1947, novamente na voz de Carmen para o filme “Copacabana”.
A gravação pela organista Ethel Smith (1910-1996) em 1944 levou a canção ao 14º lugar na parada pop americana vendeu mais de um milhão de cópias.
Por esta gravação a música passou a ser conhecida no mundo inteiro por “Tico-tico”.
Zequinha de Abreu faleceu em São Paulo a 22 de janeiro de 1935 sem saber que seu choro, sem nome e inacabado se tornaria um clássico internacional.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Tico-tico é um pássaro muitas vezes confundido com o pardal.

Não tenho o crédito do cartaz. Achei o cartaz na Internet. Darei o crédito se tiver a fonte.

Nota 2 – Em 1952, Zequinha foi homenageado na cinebiografia “Tico-tico no Fubá”, dirigida por Adolfo Celi (1922-1986), estrelada por Anselmo Duarte (1920-2009) e Tônia Carrero. O filme está disponível em DVD e faz parte do acervo do Canal Brasil.

Nota 3 – Zequinha compôs valsas (“Branca”, nome de sua esposa, “Tardes em Lindóia” e outras) que podem ser encontradas em suas gravações de época no CD “Zequinha de Abreu – Só Pelo Amor Vale a Vida” (Revivendo).
Outro disco importante é “Zequinha de Abreu interpretado por Jacques Klein (1930-1982) e Ezequiel Moreira” (Eldorado, 1979, relançada em CD).

Nota 4 – O guitarrista Pepeu Gomes gravou uma versão pop e instrumental da obra em 1981 (Warner).

Nota 5 – Michel Legrand regeu a London Studio Orchestra para o CD de 1998 “Happy Radio Days” (ainda em catálogo) e “Tico-tico” é a primeira música; “Delicado” (Waldir Azevedo) é a décima faixa.

Nota 6 – A Orquestra de Heliópolis (São Paulo) sob a regência de Roberto Tibiriçá executou “Aquarela do Brasil”, “Brasileirinho” e “Tico-tico no fubá” em outubro de 2010 no Festival Beethovenfest em  Bonn, Alemanha.
O público, segundo o Estadão (6 de outubro de 2010), não resistiu e levantou das poltronas.
A música agitou o salão mais uma vez.

Jacy Dasilva

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Surfboard – Antônio Carlos Jobim (1963)



Antônio Carlos Jobim nasceu há 84 anos.
Sua música encantou o mundo e inspira novos compositores.
Não vou fazer uma biografia.
Hoje, apenas uma história na qual ele para homenagear um amigo, tomou para si o jeito de compor deste e criou um clássico.
E o nome da canção é apropriado. 
Pouco se fala, mas Antônio Carlos Jobim (1927-1994) foi um pioneiro surfista.
Isso mesmo. Com as velhas pranchas de madeira. Tampouco, não vou contar suas façanhas sobre as ondas.
Roberto Menescal, no início do movimento da Bossa Nova, foi professor de boa parte dos jovens que adotaram o novo ritmo como música.
Antes da Bossa Nova, os jovens – não só no Rio, mas no Brasil inteiro – não tinham um estilo feito para eles. O violão sincopado e jazzístico foi um alento para jovens que não gostavam da música brasileira feita na época e fugiam do acordeão e piano.
Os jovens ouviam o Jazz e o iniciante Rock & Roll.
Na zona sul do Rio, as escolas de violão, chamadas academias, brotaram a partir dos saraus de apartamentos.
E, em pouco tempo, até os alunos mais avançados davam aulas para os iniciantes, tamanha era a procura.
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli iniciaram parceria musical no verão de 1960-1961.
Desse primeiro encontro nasceram clássicos como “Nós e o Mar”, “Ah, Se Eu Pudesse”, “A Morte de um Deus de Sal”, “Rio” e “O Barquinho” (conhecida no exterior como “Little Boat”) e outras músicas de bastante sucesso.
Nascia uma longa e frutífera parceria musical.
E onde entra Jobim nessa história?
Em 1963, Jobim telefona para a casa de Menescal, que morava em Copacabana, atende e Jobim pergunta:
- Você pode vir aqui em casa?
Menescal responde:
- Claro!
Jobim ainda residia em Ipanema, pertinho.
E diz o motivo:
- É que eu fiz uma música sua!
Menescal não entendeu nada e rumou para Ipanema.
Chegando, Roberto Menescal recebeu um presente, uma homenagem.
Jobim apanhou os acordes que Menescal usava com mais frequência e fez uma música completamente original - Surfboard.
As semelhanças com os acordes e estruturas musicais do que Menescal já havia composto – especialmente em “Rio” e “O Barquinho” – são evidentes.
Assim nasceu Surfboard, gravada e regravada inúmeras vezes por Jobim, Menescal e muitos outros.
Jobim não era chamado "maestro soberano" sem razão.
No documentário “7 X Bossa Nova” (2005), Menescal conta essa e outras histórias maravilhosas.

Nota: Jobim nasceu no Rio de Janeiro em 25 de janeiro de 1927, o mesmo dia do aniversário de fundação da cidade de São Paulo.
Em 1992, compôs "Te Amo, São Paulo".

Eu também.
Jacy Dasilva

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cornish Rhapsody – Huberth Bath (1944)



O filme britânico “Love Story” de 1944 é um romance ambientado em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Dirigido por Leslie Arliss (1901-1987) baseado num conto de J.W. Drawbell.
A produção dos estúdios Gainsborough fazia parte dos esforços de guerra.
Atualmente, ainda é lembrado mais pela trilha sonora que pela história.
Depois do sucesso do filme “Dangerous Moonlight” e seu tema musical, “Warsaw Concerto”, por que não repetir a fórmula?
Em “Love Story”, uma pianista chamada Lissa Campbell, interpretada por Margaret Lockwood (1916-1990), anuncia sua retirada da vida musical para ingressar na Royal Air Force (RAF) como voluntária.
Foi rejeitada após o exame médico ter constatado sequelas fatais de uma escarlatina em sua adolescência.
Segundo os médicos, Lissa iria morrer em pouco tempo.
Dado o veredito, parte para um retiro na região da Cornuália (Cornwall), no sudoeste da Inglaterra.
Chegando ao hotel, Lissa aluga uma charrete (cosmopolita, queria alugar um carro) e passeia até uma colina à beira mar de onde tira a inspiração para compor “Cornish Rhapsody”.
Ainda na colina, encontra o jovem Kit Firth, interpretado por Stewart Granger (1913-1993), ex-piloto da RAF, sobre o qual pairavam acusações de covardia.
Em verdade, estava ficando progressivamente cego após uma explosão ocorrida numa batalha aérea. Foi para a Cornuália trabalhar em mineração.
Lissa e Kit iniciam um romance, mas escondem suas doenças.
Parece um dramalhão, mas não é.
O romance e os diálogos têm o melhor do humor inglês.
Kit faz uma cirurgia milagrosa que lhe devolve a visão e o posto de piloto da RAF.
Lissa perde Kit para uma rival e inicia série de apresentações para as tropas aliadas pela Europa e norte da África.
O reencontro de Lissa e Kit se dá no Royal Albert Hall (filmado no Minack Theatre, na Cornuália) durante a apresentação de seu concerto de despedida dos palcos.
“Cornish Rhapsody” foi composta por Huberth Bath (1883-1945), um dos pioneiros em trilhas sonoras do cinema britânico.
No filme, a própria Margaret Lockwood toca a composição, porém a interpretação foi substituída pela gravação da pianista Harriet Cohen.
O maestro Sidney Beer conduziu a National Symphony Orchestra para as filmagens.
As Gravações
A composição possui inúmeras gravações. Comento as mais representativas. As lojas online oferecem o tema para venda avulsa, por download ou CD.
Foto: site http://www.silversirens.co.uk/
A gravação original do filme foi sucesso na Europa no mesmo ano do filme.
O disco foi lançado nos Estados Unidos em 1946, alcançou o hit parade clássico da revista Billboard em junho, chegando ao quinto lugar em vendas.
Não sem motivos, “The Warsaw Concerto”, com The Boston Pops Orchestra, estava no quarto lugar.

A gravadora Naxos lançou em CD “Cornish Rhapsody” original em 1998.

Em 1960, The Boston Pops Orchestra, regida por Arthur Fiedler (1894-1979), gravou a obra. O solo de piano é de Leo Litwin.
Em 1990, a RCA lançou os CDs “Motion Pictures Classics” volumes 1 e 2, cobrindo gravações da orquestra no período de 1954 até 1971.
O trabalho primoroso dos engenheiros de som Robert Warren e Michael DiCosino dos Laboratórios Dolby e a remasterização de Nathaniel Johnson, Larry Frankie e David Satz, trouxeram vida nova às antigas gravações. É difícil acreditar que algumas gravações tenham mais de meio século.
O site amazon.com tem os discos à venda.

Mantovani gravou uma versão impecável, sem o excesso de cordas característico.
No Brasil, o LP “Mantovani – A Lenda da Montanha de Cristal” (1961) foi muito popular e diversas vezes relançado. Muitos ainda procuram o disco. Em 1996, a Polygram relançou a gravação no CD “Mantovani e sua Orquestra”.

Outra gravação que merece destaque é de 1986, relançada em 1992: "The Music of Famous Film Themes", com The Hamburg Radio Dance Orchestra (Stardust/Wisepack), regida por Gilbert Vinter.

Em 1989, Richard Clayderman com a Royal Philharmonic Orchestra gravaram a composição. O CD está disponível na amazon.com.

Em 2009, “The Golden Age of Light Music”, Sound Stage Orchestra (Guild Light Music) traz a gravação.
O CD ainda tem “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso (1903-1964).


Notas Fora da Pauta

Nota 1 – No Brasil o filme recebeu o nome de “Uma História de Amor”. Nos Estados Unidos, teve o nome trocado para “A Lady Surrenders”.

Nota 2 – Margaret Lockwood é mais conhecida no Brasil pelo filme “A Dama Oculta” (The Lady Vanishes, 1938), de Alfred Hitchcock (1899-1980).
A atriz teve longa carreira no teatro, cinema e televisão. Trabalhou até 1980.

Nota 3 – Stewart Granger (britânico naturalizado americano) fez grande sucesso como ator em Hollywood. Ainda é lembrado por Scaramouche de 1952.

Nota 4 – Hubert Bath faleceu no ano seguinte ao filme, mas sua obra permanece até hoje. Sua composição “Out of The Blue” é usada desde 1948 como tema de abertura do noticiário esportivo da rádio BBC.

Nota 5 – O DVD do filme pode ser encontrado no Brasil com o título Love Story (1944). O lançamento é da Interfilmes/Classic Line.
  
Nota 6 – Rapsódia é o termo musical empregado para designar obras musicais de apenas um movimento e sem estrutura musical rígida, permitindo improvisos.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

What’d I Say – Ray Charles (1958)



Ele não foi chamado de gênio sem razão.
A composição “What’d I Say” foi feita no palco, de improviso, de frente para o público.
Ray Charles (1930-2004) havia sido contratado para tocar numa maratona de dança em casa noturna perto de Pittsburgh. Compareceu, animou a todos e deu por encerrada sua participação. O dono do establecimento dirigiu-se ao empresário de Ray e disse que pelo contrato o artista ainda devia mais 20 minutos de show. Ray concordou e disse aos membros de sua banda e às vocalistas (as famosas Raelettes) que simplesmente repetissem o que tocaria a seguir, bem ao estilo gospel-americano.
Ray fez um arpeggio em seu piano Wurlitzer e improvisou com pequenas variações. A bateria de Milt Turner, o naipe de metais e as cantoras acompanhavam Ray com vigor e talento.
Os frequentadores não sabiam que aquilo era inédito e queriam saber onde comprar o disco. Este ainda não existia e a música estava sendo composta ali, na frente de todos.
A conotação sexual da música também contribuiu para o sucesso. O jogo de canto entre Ray e as Raelettes era puro sexo.
O filme biográfico, Ray, de 2004, ilustra bem o acima descrito.
Mas o leitor de Phonopress merece saber mais.

A gravação
Ray gravou a canção em fevereiro de 1959, mas havia o velho problema: era longa demais. Tinha 6 minutos. Ainda assim, Ray queria que música fosse lançada integralmente.
O engenheiro de som Tom Dowd – mais uma vez – teve a solução possível e satisfatória: dividiu a canção em duas partes que foram lançadas em compacto, também conhecido como single.
Ray aprovou a solução e idéia de lançarem a música nas férias escolares do verão americano para maior vendagem. Ele era um excelente homem de negócios.
O disco foi lançado em junho de 1959 e alcançou o sexto lugar na parada Pop e o primeiro na Rhythm & Blues da Billboard.
A gravação foi lançada em verdadeiro estéreo (8 canais), enquanto grandes nomes da música americana ainda gravavam em mono.
“What’d I Say” foi um divisor de águas em sua carreira e oportunidade para outros artistas negros exigirem melhores contratos.
Ray Charles recebeu o primeiro Disco de Ouro.
“What’d I Say” foi regravada por Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Beatles, Steve Winwood, Johnny Cash, Nancy Sinatra, Bob Darin e muitos outros.
Foi censurada em muitas rádios. Era uma "música do diabo", dizia a patrulha religiosa.
Ray respondia: “E não foi assim que todos nós viemos ao mundo?”.
Ray Charles - inovador ao transpor para o blues e o jazz a música gospel - com "What'd I Say" - conquistou o público jovem, amante do Rock & Roll.

A Atlantic Records 
Antes de assinar com a Atlantic Records, Ray gravava country, gospel (sem a gritaria da música religiosa atual) e blues para um pequeno selo, o Swingtime.
O público pedia e Ray cantava  e gravava bem ao estilo de Nat “King” Cole (1919-1965).
Ray chamou a atenção, sobretudo pelas seguintes gravações: “Confession Blues” e “Baby Let Me Hold Your Hand”. Ray ganhou pouco com as gravações desse período.
Os irmãos Ahmet (1923-2006) e Nesuhi Ertegun (1917-1989) juntamente com Jerry Wexler (1917-2008) fundaram a gravadora Atlantic Records em 1947.
Em 1952, Ahmet comprou o contrato de Ray com a Swingtime por US$ 2.500,00.
A Atlantic Records deu a Ray a liberdade de cantar o que quis, com seu próprio estilo.
Pediu e recebeu mais músicos e cantoras para acompanhá-lo.
Ray passou a receber melhor pelo seu trabalho.
Era um homem dos estúdios e de shows. Cobrava muito bem pelas suas apresentações.
São históricas as gravações desse período: “I’ve Got a Woman”, “Hallelujah, I Love Her So”, “A Fool For You” e “What’d I Say” e outras. O LP "The Genius of Ray Charles" é marco fonográgico da Atlantic.
As Raelettes fizeram tanto sucesso que passaram a gravar sob o nome “The Ray Charles Singers”, adicionado com vozes masculinas. Foram bastante populares no Brasil.
As gravações do "The Ray Charles Singers", ou Cantores de Ray Charles nunca foram lançadas no formato digital no Brasil - uma pena. 
A Atlantic Records abriu as portas para músicos negros.
E, ao contrário da Motown – que tinha uma sonoridade própria –, na Atlantic, os cantores e músicos gravavam seu próprio estilo e som.
Os estúdios da Atlantic eram descentralizados. Os músicos gravavam em várias partes dos Estados Unidos - outra inovação.
Um exemplo é Aretha Franklin. Ela foi contratada em 1964 pela Columbia para ser uma sucessora de Dinah Washington, recém falecida (1924-1963). Claro, ela já cantava muito bem (CD Aretha Franklin - The Early Years), mas as faixas são açucaradas e nada têm a ver com o som característico dela.
Na Atlantic, Aretha floresceu e desenvolveu personalidade própria.
Wilson Picket, Roberta Flack, Ben E King, Percy Sledge, Brook Benton, Otis Redding e muitos outros foram lançados pela Atlantic.
A Atlantic é responsável também pela contratação do Led Zeppelin.

A ABC-Paramount
Ray Charles deixou a Atlantic em 1962 e foi para a iniciante ABC-Paramount.
Esta não tinha um sucesso sequer e precisava desesperadamente de uma estrela.
Além de boa soma em dinheiro e liberdade criativa, a ABC ofereceu a Ray algo inédito no mundo fonográfico: ele seria dono de suas gravações.
Ao contrário do que já foi publicado, Ray não pediu os fonogramas (embora quisesse), a gravadora ofereceu-lhe como último recurso para que deixasse a Atlantic. 
Seus discos “Genius+Soul=Jazz”, “Greatest Country & Western Hits”, “Ray Charles & Betty Carter”, “Sweet, Soul & Tears”, “Volcanic Action Of My Soul” e outros são antológicos.
Do período são as canções “I Can’t Stop Loving You”, “Georgia On My Mind”, “Cry”, “America The Beautiful”, “Hit The Road Jack”, “Yesterday”, “Ruby”, “Unchain My Heart” e muitos outros clássicos.

As Vindas ao Brasil
Ray Charles veio ao Brasil pela primeira vez em setembro de 1963.
Sua produção trouxe tudo: microfones, mesa de som, amplificadores e câmeras para registrar tudo. Além do pagamento, uma exigência: o dois shows seriam transmitidos pela TV, ao vivo, do Teatro Record em São Paulo uma única vez.
E assim foi feito.
Em 2004, o show -filmado em película e em preto e braco - foi disponibilizado no DVD “Ô Gênio: Ray Charles, Live in Brazil, 1963” (o acento circunflexo no “O” é inexplicável).
Em 1995, veio novamente ao Brasil.
Tocou no Free Jazz Festival no Rio de Janeiro e São Paulo e os ingressos – caríssimos - esgotaram rapidamente.
Ainda em São Paulo, tocou no Parque do Ibirapuera para mais de 100 mil pessoas.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 - Em 1989, o próprio Ray Charles e o engenheiro de som Steve Hoffman remasterizaram para o formato digital todo o catálogo do período ABC-Paramount.

Nota 2 –Além de ser dono de boa parte de sua obra, Ray comprou direitos autorais de vários sucessos que havia gravado e interpretado, mas não havia composto. Teve mais de uma editora musical. Existem até hoje.

Nota 3 – O disco de 2004, “Genius Loves Company”, vendeu 3,2 milhões de cópias no lançamento. O destaque do disco vai para o dueto com Elton John em “Sorry Seems To Be The Hardest Word”. Uma nova geração conheceu o gênio.

Nota 4 – Ray recebeu 11 prêmios Grammy ao longo da carreira.

Nota 5 – Pouco antes de falecer, Ray deu a cada um de seus 12 filhos a quantia de 1 milhão de dólares. Faleceu em 2004, em casa, cercado pela família. Morreu rico e, em vida, ajudou muitos em dificuldades financeiras.

Nota 6 – Ahmet e Nesuhi Ertegun foram grandes admiradores e divulgadores da música brasileira no exterior.
Fãs declarados de Elis Regina, Jobim e João Gilberto.
Juntamente com o produtor André Midani criaram a noite brasileira no Festival de Jazz de Montreaux.

Nota 7 – Ahmet e Nesuhi, no início dos anos 1970, contrataram Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer e outros craques  e fundaram o time de futebol “New York Cosmos”.

Nota 8 - Arpeggio é executado quando as notas que formam um acorde (conjunto de três ou mais notas tocadas simultaneamente) são tocadas separadamente, em qualquer sequência. Arpeggio é também conhecido como acorde quebrado.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Baker Street - Gerry Rafferty (1978)



Gerry Rafferty (1947-2011), um compositor despretensioso.
Perdeu o pai aos 16 anos e por isso, começou a compor.
Como de praxe, montou diversas pequenas bandas nos anos 60.
Gerry era escocês, bem como sua mãe. O pai, irlandês, foi vitimado pelo alcoolismo.
Sua mãe lhe ensinou música e canções do folclore escocês e irlandês.
As influências de Bob Dylan e Beatles também foram importantes ao seu estilo de composição, conforme entrevistas dadas.
Em 1972, formou com Joe Egan a banda Stealers Wheel.
O som não era impressionante, tampouco barulhento.
Faziam um soft-rock agradável, melodioso. Os discos eram bem gravados e mixados.
Os discos tiveram venda modesta, porém significativa em seu tempo.
Não dava pra competir com Cat Stevens - no auge do sucesso - nem ambicionavam isso.
Os maiores sucessos da banda são: “Next To Me” e “Stuck In The Middle With You”. Esta última foi usada nos filme “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992) de Quentin Tarantino.

Next To Me



Stuck In The Middle With You


O grupo Stealers Wheel acabou em 1975 e começaram as disputas legais pelo uso do nome da banda. É compreensível: muitas vezes vemos o anúncio de um show com o nome do artista seguido de "ex-conjunto tal". E não faltariam exemplos.
Sem poder usar o nome da banda, lança “City to City”, em 1978 com seu nome Gerry Raferty.
Por conta da faixa “Baker Street”, o disco vendeu 5 milhões e meio de cópias, rivalizando com a trilha sonora de “Os Embalos de Sábado à Noite” (Saturday Night Fever). E a música estava longe de ser dançante. Além disso, era enorme, 6 minutos – tudo que as rádios odeiam.
Existem versões compactas de 4 e 5 minutos.
A canção foi motivada pela frustração do autor com a vida londrina. Por conta das questões legais envolvendo seu antigo grupo, viajava constantemente entre Glasgow e Londres.
Um amigo emprestou-lhe um apartamento na Baker Street, rua londrina imortalizada por Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) em seus romances estrelados por Sherlock Holmes.
Gerry achava Londres fria e impessoal e põe suas impressões nos versos.
Tudo que ele queria era voltar pra sua casinha no interior da Escócia.
Uma música de 6 minutos, com uma introdução instrumental de 1 minuto – que também é o refrão que não recebeu letra –, um solo imenso de guitarra e com versos entristecidos era a fórmula do fracasso. Não foi.
O solo de sax-alto, tocado por Raphael Ravenscroft agradou. Conheço gente que aprendeu o instrumento por causa da música.
Igualmente, o solo de guitarra, tocado por Hugh Burns foi considerado pela revista "Rolling Stone" um dos 100 mais belos da música pop.
A introdução, gravada bem alto, apresenta a parte da melodia cantada. Nota-se uma percussão ao estilo árabe a princípio.
Os sintetizadores não ofuscam, ao contrário, a economia deles valoriza as inferências.
A gravação é uma lição de engenharia sonora. E nisso, os ingleses são mestres.
A música foi um sucesso e ele ficou um bom tempo na estrada. Não voltou pra casa.
Seu desabafo rendeu milhões em todas as moedas.
Foi regravada pela London Symphony Orchestra (excelente orquestração de Louis Clark), Maynard Ferguson, grupos de heavy metal diversos e Foo Fighters.
Gerry Rafferty faleceu ontem, dia 4, na Itália, de insuficiência hepática.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 - No mundo inteiro a música provocou um aumento súbito nas vendas de saxofones.

Nota 2 - No Brasil, a música chegou em 1980 e era tocada, integralmente, na Rádio Cidade (102,9) do Rio de Janeiro. Os locutores Romilson Luiz e Fernando Mansur não deixavam de elogiar a música.

Nota 3 - Em 1989, a coletânea “The Best Of Gerry Rafferty” trouxe a música com mais 30 segundos. A mesma coletânea foi relançada em 2006.

Nota 4 - Seu parceiro, Joe Egan, seguiu carreira solo e é mais conhecido pela música "Back on The Road", sucesso de 1979.

Jacy Dasilva

sábado, 1 de janeiro de 2011

La Marseillaise – Rouge de Lisle (1792)



Hoje, 1 de janeiro de 2011, não contarei a história de nosso hino.
Não tenho razões para tal.
A democracia não é apenas o direito a voto regular. Democracia é um sistema que assegura as liberdades individuais e coletivas com a igualdade entre os poderes da nação.
Não é isso que tivemos nos últimos 8 anos.
Tivemos a corrupção em níveis inéditos.
Tivemos a perseguição a órgãos de imprensa, como no caso do jornal "O Estado de São Paulo".
Igualmente o atual governo rasgou os princípios básicos da diplomacia internacional.
A eleição de Dilma Rousseff trouxe de volta a camarilha ao primeiro escalão da república brasileira.
O assalto ao Erário permanecerá?
Para quem participou pela restauração do regime democrático, hoje não é dia de comemorar.
Para quem foi aos comícios pelas eleições diretas neste país, hoje é dia de expectariva.
Para quem teve amigos e familiares mortos pelas guerrilhas e aparelhos oficiais de repressão, hoje ainda é dia de luto.
As lutas armadas  - de ambos os lados - foram insanas e condenáveis.
Para quem freqüentou redações de jornais brasileiros e se deparou com censores, hoje não é dia de liberdade. Porque este governo que se perpetua quer calar a imprensa.
A morte de Celso Daniel e do prefeito de Jandira foram crimes políticos em pleno regime democrático.
O déficit público será o calcanhar da nova presidente.
Restaurar as trapalhadas na política externa também.
Nos últimos 8 anos assistimos Lula apoiar todo tipo de regime autoritário.
E o estrago na diplomacia é grave.
A lei de controle social da imprensa está na ordem do dia. Ainda que inconstitucional.
Os funcionários públicos, eleitos ou concursados, são servidores do povo.
Somos mal tratados de hospitais a tribunais e achamos normal.
Não é normal.
Recebem salários pagos por nós.
Hoje, não vejo a festa da democracia.
Não torço pelo atual governo, visto que é obrigação do mesmo - e de qualquer governante - servir ao povo.
A corruptocracia se perpetua no Brasil até o momento.
Hoje, temos o triunfo do radicalismo, do fanatismo militante e da propaganda política.

Quando Francisco Franco, ditador e genocida espanhol morreu em 1975, todos esperavam que seu pupilo, o atual rei Juan Carlos desse continuidade ao regime.
Não deu. Instaurou uma democracia parlamentarista.
Não foram necessárias eleições para que se fizesse uma democracia.
Nixon, presidente americano entre 1968 e 1974, foi eleito pelo voto e governou de forma abusiva, usando todo aparato repressivo possível. Renunciou por causa dos abusos que cometeu.
A ditadura brasileira acabou muito mais pela pressão do presidente Jimy Carter (1976-1980) e outros líderes mundiais, incluindo o Papa João Paulo II, do que pelas guerrilhas.
O voto, por si só, não garante democracia.

“La Marseillaise”, é uma canção revolucionária que se tornou hino da França.
Composta por um oficial, Rouget de Lisle (1770-1863), em 1792 alcançou grande sucesso popular em plena Revolução Francesa.
Napoleão Bonaparte a odiava. Igualmente Luis VIII e Napoleão III. Sua execução era considerada subversiva.
Apenas com a instauração da III República é que “La Marseillaise” foi definitivamente aceita como o hino francês, recebendo ratificações nas constituições de 1946 e 1958. A orquestração é de Hector Berlioz (1803-1869).
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi adotada como hino da Resistência Francesa e por todos que lutavam contra o nazismo.
Em “Casablanca”, filme de 1942, há uma cena no bar do Rick, personagem de Humphrey Bogart (1899-1957), em que um grupo de nazista está se refestelando ao som de “Deutschland Über Alles” e incomoda a todos os presentes. Victor Lazlo, um herói da resistência tcheca, interpretado por Paul Heinred (1908-1992) pede que orquesta da casa toque “La Marseillaise” e contagia a todos com a mensagem de bravura e liberdade do hino francês.

Jacy Dasilva