quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Adoniran Barbosa - Saudosa Maloca (1951)



O maior cronista de São Paulo nasceu há cem anos – João Rubinato.
Veio à luz em Valinhos, interior do estado, no dia 6 de agosto de 1910. Rubinato começou a trabalhar ainda menino. O filho de imigrantes italianos foi entregador de marmitas, carregador na estação de trens e varredor de uma fábrica de tecidos dentre outros biscates.
A família mudou-se para São Paulo e João, que largara os estudos, passou a ler jornais, ouvir rádio, ir ao cinema e alimentou o sonho de ser um galã nas telas.
Foi rejeitado como ator, mas não se deu por vencido.
Trabalhou como vendedor ambulante, mascate. Dessas longas jornadas percorridas a pé e da observação do cotidiano dos bairros paulistanos mais simples, nasceu o compositor.
Em 1934, inscreveu-se num programa de calouros na Rádio Cruzeiro do Sul, cantou um samba de Ismael Silva (1905-1978) e foi reprovado. Insistiu e foi aprovado ao cantar “Filosofia” de Noel Rosa (1910-1937) e André Filho (1906-1974). Ganhou o emprego de cantor rapidamente e assim o perdeu, algumas semanas depois.
Culpou seu nome italiano, João Rubinato, pelo fracasso no samba.
Ele tinha um amigo chamado Adoniran, funcionário dos correios e admirava o sambista carioca, Luiz Barbosa (1910-1938). Rubinato transformou-se em Adoniran Barbosa.
Em 1935, Adoniran ganhou um concurso de marchinhas de carnaval, promovido pela prefeitura paulistana, com “Dona Boa”.
Em 1936, já era cantor de rádio e gravou seus primeiros discos em 78 rotações para a Columbia.
Trocou inúmeras vezes de emissoras de rádio e fazia de tudo: era cantor e rádio ator.
Em 1941, foi para a Rádio Record e iniciou parceria com Oswaldo Molles (1913-1967) na música mas, principalmente, na criação de personagens de programas humorísticos – “História das Malocas” é o programa mais lembrado. Neste imortalizou tipos como “Zé Conversa”, “Charutinho”, “Dr. Sinésio Trombone” e até um imigrante italiano chamado de “Giuseppe Pernafina”. Os programas de rádio, de grande audiência, levaram Adoniran ao cinema.
Em 1945, fez “Pif-Paf”, interpretando basicamente seus tipos do rádio. No ano seguinte, repetiu-se em “Caídos do Céu”.
Em 1952, surpreendeu a todos em personagem sério no filme “O Cangaceiro” de Lima Barreto (1906-1982). O filme seguinte foi interrompido e Adoniran ainda perderia o parceiro Oswaldo Molles, que trocou de emissora.
Mas ainda restava a música.

Saudosa Maloca
Como repórter musical, Adorniran ouviu a história de dois feirantes que haviam sido despejados de um cortiço prestes a ser demolido.
Adoniran colheu os fatos, colocou-se na história e fez um clássico de nossa música.
Uma casa abandonada ocupada por três sem-teto, a retomada do imóvel, sua demolição e a construção de um edifício em seu lugar - fatos tão comuns nas cidades brasileiras, que é difícil imaginar uma canção baseada nestes.
A canção tem início com Adoniran evocando a lembrança de um “senhor” para o fato de que o edifício alto fora antes uma casa habitada por ele, Matogrosso e o Joca - três sem-tetos.
A maloca era o lar dos três até que o dono do imóvel ordenou que fosse posta abaixo.
Cada  ‘táubua’ que caía, doía no coração”. Matogrosso não protesta, impedido por Adoniran, argumentando legalidade.
Conformados por Joca (“Deus dá o frio conforme o cobertor”), deixam o lugar para ocupar a grama da praça e cantar que os melhores dias de suas vidas foram vividos no casarão abandonado.
“Saudosa Maloca” narra a situação daqueles que não têm onde morar e invadem casas abandonadas. Adoniran descreve a verticalização das metrópoles brasileiras e as conseqüências sociais da cena urbana moderna.
A música foi composta em 1951 e São Paulo já era a maior cidade da América do Sul. Adoniram chegou a gravá-la no mesmo ano sem alcançar repercussão.
O sucesso veio com a interpretação dos Demônios da Garoa, em 1955.
O conjunto vocal – ainda em atividade – foi e ainda é o maior divulgador da obra de Adoniran Barbosa.
Adoniran cantou São Paulo como ninguém. Retratou seus habitantes, seus bairros e situações: despejos, festas, metrô, atropelamentos, paquera, noivado e casamentos. Mas não pense, você leitor, que Adoniran era tristeza – era pura ternura, irreverência e humor em suas composições. O sambista número 2 da metrópole é Paulo Vanzolini.
Em 1965, Adoniran venceu, no Rio, um concurso de marchas de carnaval, promovido pela prefeitura carioca: “Trem das Onze” (gravação de Demônios da Garoa), outra obra-prima, cantada por Elis Regina em shows e gravada por Gal Costa.
Abelardo Barbosa, o Chacrinha (1917-1988) - que tive o prazer de entrevistar em 1979 – gostava dos Demônios da Garoa e ajudou a trazer ao Rio (pelo rádio e televisão) o samba paulista de Adoniran.
      
“Eu faço samba que fala em Casa Verde. Eu não posso falar em Copacabana, pois não a conheço, falo então da Sorocabana. Eu falo da Mooca, falo do metrô, da 23 de maio, das nossas ruas, falo da Praça da Sé, de Jaçanã, da Vila Esperança, dos Gusmões.
Falo do que entendo, do que sei”.
Adoniran Barbosa

Adoniran não cantava o português errado por ignorância: era o seu estilo paulistano e italiano do Bixiga. Ele não fazia tipo - andava como imigrante legítimo. Vestia-se tipicamente com terno, gravata e chapéu. Não se fantasiava de habitante do Brás apenas por morar em São Paulo.
Mal aposentado pela previdência, continuou cantando em circos e nos palcos que encontrou pela frente.
Em 1972 gravou o programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, para a TV Cultura (disponível em DVD pela carioca Biscoito Fino desde 2007).
Aceitou convites das TVs Tupi e Bandeirantes, atuando em papéis dramáticos e cômicos nas telenovelas: “Os inocentes”, “Mulheres de Areia” e “Ceará contra 007”.
No início dos anos 70, Adoniran gravou alguns compactos para a RGE, como por exemplo “Nóis Viemos Aqui Pra Que?”, “Jabá Sintético”, e pouca coisa mais. Foram discos de produção modesta e quase anônima, pois mal se ouvia Adoniran, sufocado por um coral carnavalesco.
Seu registro discográfico teria ficado por aí. Mas não ficou.
Apenas em 1974, por iniciativa do produtor paulista, J.C. Botezelli, o Pelão, foi que Adoniran Barbosa gravou, pela EMI-Odeon, seu primeiro LP (12 faixas) com a própria voz, ainda que maltratada pelo tabagismo.
O disco “Adoniran Barbosa” teve direção artística do maestro Lindolpho Gaya (1921-1987) e arranjos de José Briamonte. O disco tocou em rádios, vendeu bem e Adoniran iniciou uma série de shows e entrevistas. Enfim, foi redescoberto.
Em 1975, o mesmo time de produtores lançou outro LP, também chamado “Adoniran Barbosa” com mais 12 faixas bem gravadas – outro sucesso.
Em 1977, Adoniran fez show no Teatro 13 de Maio (São Paulo) com Cartola (1908-1980), Nélson Cavaquinho (1911-1986), Zé Kéti (1921-1999) e Mário Lago (1911-2002), uma verdadeira ponte-aérea do samba.
Em 1980, em homenagem aos seus 70 anos, o produtor Fernando Faro convidou Adoniran a gravar outro LP pela EMI-Odeon chamado “Adoniran Barbosa e Convidados”, um disco de duetos com Elis Regina (1945-1982), Clementina de Jesus (1901-1987), Carlinhos Vergueiro, Grupo Talismã (o conjunto que acompanhava Adoniran em shows), Gonzaguinha (1945-1991), Roberto Ribeiro (1940-1996) e Vânia Carvalho (irmã de Beth Carvalho e mãe de “Luciana”, a canção), Djavan e Clara Nunes (1943-1983). Todo trabalho feito para EMI-Odeon pode ser encontrado em CDs nas lojas online.
Adoniran Barbosa faleceu em 23 de novembro de 1982, mesmo ano de sua fã, Elis Regina.




Nota 1: em 1958, Adoniran compôs “Abrigo de Vagabundo”, onde reconstrói sua maloca e indaga o paradeiro de seus antigos amigos, Matogrosso e Joca.

Nota 2: O conjunto carioca “Nóis Num Semo Tatu”, criação de Robson Camilo, apresenta regularmente desde os anos 90, na casa de shows “Rio Scenarium”, na Lapa, repertório de Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa. Marcelo Pacheco, músico, jornalista e amigo de Phonopress, é violonista do grupo. O último show deles foi mês passado.  

Nota 3: O “senhor” que Adoniran chama no início de “Saudosa Maloca” não é ninguém específico. É o ouvinte da canção que ele convida?

“Adoniran é mais que um repórter, é um historiador.
Quem quiser entender São Paulo da segunda metade
do século passado tem que ouvir a obra dele.”
Orivaldo Perin, jornalista.

Jacy Dasilva  


Um comentário:

  1. Vi uma homenagem a Adoniran Barbosa pela Rede Globo, e desde lá me tornei fã desde excelente cantor, mesmo não tendo vivido na mesma época que ele. A Saudosa Maloca é simplesmente uma obra de arte desse imenso cartor brasileiro.

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