terça-feira, 2 de novembro de 2010

Yesterday – Paul McCartney (1965)

“Não, eu não quero nada de Mantovani nessa música!”, disse Paul McCartney ao produtor George Martin, que não via nenhuma possibilidade de gravar Yesterday com os outros três Beatles e sugeriu um arranjo de orquestra. Mas afinal, quem era o Mantovani que McCartney não queria?

Mantovani
Annunzio Paolo Mantovani (1905-1980) foi maestro de uma das orquestras mais populares da história. Executavam repertório clássico e versões orquestrais de sucessos do rádio e cinema. Sua orquestra tinha programa de rádio e TV na Inglaterra desde os anos 50. Os discos gravados fizeram imenso sucesso ao redor do mundo, inclusive no Brasil.
O som característico de Mantovani era a chamada “cascata de cordas” – um efeito que duplicava artificialmente a sessão de violinos das gravações e acrescentava eco, como se fossem gravadas em grandes catedrais. O som dos solistas não possuía quase eco, mas mixado aos violinos duplicados, o efeito era celestial. Era esse artificialismo que Paul McCartney detestava.

A Criação
Paul fez muitas canções na casa da família Asher, em Londres. Namorava Jane Asher, irmã do músico Peter Asher, e dormia na casa da família com frequência.
Acordou, numa manhã do início de 1965, com a música inteira na cabeça, conforme contou inúmeras vezes. Foi até o piano da família e tocou a melodia para não esquecer.
Durante as filmagens de Help!, tocava a música em todos os intervalos possíveis. O diretor Richard Lester chegou a advertir Paul, que se não parasse de tocar aquilo, removeria o piano.
Durante algum tempo, Paul pensou que sua composição pudesse ser um plágio inconsciente. Procurou colegas músicos para mostrar a canção e todos diziam não conhecer nenhuma semelhante. As editoras musicais deram o mesmo veredito.
Para a música não havia letra e, provisoriamente foi chamada de “Scrambled Eggs” (ovos mexidos). John Lennon chegou a colaborar para que a música tivesse uma letra. Mas o resultado final é uma composição solo de McCartney.
Paul, numa viagem a Portugal, pediu emprestado o violão folk, com cordas de aço, ao amigo Bruce Welch, guitarrista do grupo Shadows (conjunto que durante muito tempo acompanhou Cliff Richard, o Elvis britânico). Foi ao violão que Paul conseguiu colocar a letra definitiva em Yesterday. Mas como gravá-la?

A Solução de George Martin
O produtor dos Beatles recebeu com entusiasmo a composição de Paul, mas não vislumbrava uma gravação com guitarras, baixo e bateria. Era algo muito mais clássico e elaborado do que qualquer música feita pelos Beatles anteriormente.
Pediu que Paul gravasse com vocal e violão e ficou de pensar em como fazer dela uma canção beatle. Não dava.
George Martin sugeriu ao empresário da banda, Brian Epstein (1934-1967), que Yesterday fosse lançada como compacto solo de McCartney. A resposta foi negativa. Daí a idéia de Martin de fazer um arranjo de cordas. Paul McCartney pensou que seria uma orquestra horrorosa; Martin, simplicidade.
Aliás, nunca é demais destacar o papel de George Martin na carreira dos Beatles. Ele não apenas solucionava problemas musicais, como expandiu os conhecimentos em teoria musical que os Beatles possuíam em pequena quantidade. Ensinou contraponto, notação musical, harmonia, etc. Interferia, quase sem sucesso, para que as gravações tivessem a melhor qualidade técnica possível. Comprou brigas entre os Beatles e a EMI e, por fim, foi uma espécie de pai pra eles. Ele não é chamado de "quinto beatle" à toa.
A letra de Yesterday é um poema nostálgico e sentimental. Paul coloca a impossibilidade de retornar ao passado e a necessidade de um lugar para fugir dos problemas. Ainda lamenta por uma pessoa que se foi para sempre – temas universais.
As explicações para um sentimento tão nostálgico em alguém tão jovem (23 anos) são diversas e muitos concordam que a perda de sua mãe foi determinante para os versos.
A melodia é única, simples e a interpretação sincera, nada piegas e honesta emociona até os dias de hoje.
A gravação solo de McCartney e o quarteto de cordas é faixa do disco Help!, embora não apareça no filme.
Yesterday é a canção mais executada e gravada de toda a história da música popular mundial.
Foi regravada cerca de 3 mil vezes, incluindo cantores e cantoras de todos os gêneros, por instrumentistas variados e muitas orquestras - incluindo a de Mantovani.
A gravação por Ray Charles (1930-2004), em 1967, mereceu um telegrama de agradecimento dos Beatles – fãs de Ray desde os tempos em que tocavam em bailes e faziam covers de What I´d Say, I Got a Woman e Hallelujah, I Love Her So.
A primeira apresentação ao vivo de Yesterday foi em 1 de agosto de 1965, num programa ao vivo chamado Blackpool Night Out.
Na apresentação, Paul é anunciado como se fosse um artista solo que ganha uma oportunidade – gozação dos outros três. Paul canta sozinho no palco acompanhado pela orquestra no fosso do teatro.
A partir de Yesterday, os Beatles foram levados à sério pela crítica e pelos músicos de todo mundo.
A interpretação de Paul McCartney é a melhor de todas.
Quem for aos shows de McCartney, programados para este mês no Brasil, assistirá um espetáculo de canções inesquecíveis e uma aula de história.

Jacy Dasilva

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