segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Warsaw Concerto (Concerto de Varsóvia) – Richard Addinsell (1941)

Em 1941, o mundo estava em guerra e o cinema – ainda em sua infância – contribuiu no esforço de elevar o moral dos habitantes e combatentes europeus invadidos, literalmente, pela máquina de guerra nazista.
O filme de 1941, da RKO britânica, “Dangerous Moonlight” (“Luar Perigoso”, no Brasil), seria mais um filme de guerra, não fosse pela originalidade em valorizar os milhares de soldados poloneses que lutaram com os Aliados na esperança de libertar a Polônia do nazismo – o que não foi destaque à época de seu lançamento. O que de fato marcou o filme foi sua trilha musical.
O filme conta a história de Stefan Radetzky, um pianista polonês apaixonado por uma repórter americana, relutando em deixar a Varsóvia bombardeada e prestes a ser ocupada. Foge, convencido pelos amigos. Chega aos Estados Unidos, via Romênia, mas volta à Europa para ajudar na libertação da sua terra natal. Alista-se como piloto voluntário da força aérea britânica (RAF), é abatido em voo e hospitalizado na Inglaterra. Perde a memória, que é recobrada, quando toca ao piano seu famoso “Concerto de Varsóvia”.

A trilha sonora
Os produtores pensaram em usar o “Concerto № 2 para Piano”, de Rachmaninov (1873-1943), que negou o uso da obra e recusou o convite para compor uma trilha original. O fato é compreensível: o cinema era visto como um divertimento barato e como farsa do teatro.
Richard Addinsell (1904-1977) foi chamado para a tarefa de criar um tema musical no estilo Rachmaninov. Addinsell fez o trabalho pelo qual seria lembrado durante toda sua vida.
O ator principal, Anton Walbrook (1896-1967), sabia tocar piano, mas um profissional foi chamado para a tarefa – Louis Kentner. O preconceito a respeito da música de cinema era tanto que Louis pediu para que seu nome não aparecesse nos créditos temendo por sua carreira.
O tema é um concerto para piano de apenas um movimento. Aparentemente simples, dá vida às cenas de combates aéreos reais que foram usadas no filme.
Os espectadores ligavam para os cinemas para perguntar o nome do concerto usado no filme.
Addinsell estudou direito sem terminar o curso. Igualmente iniciou música em conservatórios sem terminá-los também. Foi contratado, em 1931, para musicar uma versão americana de Alice no País das Maravilhas. Voltou à Inglaterra e dedicou-se a compor para o cinema e depois para TV.
O “Concerto de Varsóvia” não é considerado uma obra clássica ou erudita. É tido como semiclássico e indicado a estudantes de piano. Pode ser.
Porém, erudito ou não, foi ouvido pelo público – o que todo compositor almeja.
Seu concerto foi usado em transmissões radiofônicas por toda a Europa no período da guerra e depois dela. Também foi gravado em LPs e CDs por várias orquestras.
As execuções por pianistas clássicos não são mais motivo de vergonha.
Após a morte de Rachmaninov, sua obra foi freqüentemente usada no cinema. O “Concerto № 2 para Piano” foi cedido ao filme “Brief Encounter” – 1946 (“Desencanto”, no Brasil) de David Lean (1908-1991).

No primeiro vídeo do YouTube, temos a execução pela Banda Sinfônica da RAF com cenas de batalhas aéreas.



No segundo, a pianista romena, Ioana Maria Lupascu, com a Orquestra Filarmônica da Romênia, exibindo uma performance longe de ser estudantil.




E a Polônia?
A invasão da Polônia em 1 de setembro de 1939 marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Porém, no dia 17 do mesmo mês, a Polônia foi novamente invadida pela Rússia – fato pouco lembrado. Churchill (1874-1965), que declarou guerra à Alemanha para libertar os poloneses não declarou guerra à Rússia.
Stalin (1879-1953) e Hitler (1889-1945) já haviam assinado um acordo que daria o lado oriental da Polônia aos russos. Ao final da guerra, todo território polonês foi anexado pelos russos. Não vou mencionar a Conferência de Yalta (1945) e outros acordos que não melhoraram a situação polonesa.
Os poloneses, que lutaram cegamente com os Aliados, não sabiam que o destino de seu país já estava selado desde o começo do conflito.
Apenas na RAF havia 145 pilotos poloneses, o maior contingente estrangeiro na força aérea.
A Polônia só viria a ser um país soberano em 1989.
Jacy Dasilva   

4 comentários:

  1. Por falar em filme de guerra e música:
    Um filme que assisti e gostei muito foi "O resgate do soldado Ryan" com Tom Hanks. Em uma das cenas, quase no final do filme, aparece o pelotão descansando para uma batalha pesada e nesse momento de descontração eles ouvem uma bonita melodia de Edith Piaf ( http://www.youtube.com/watch?v=B6mzVELFIWc&playnext=1&list=PL208B8390A82643A1&index=102 . É uma cena que marcou no filme, um dos soldados traduz a letra para os outros, quando a musica é interrompida pelo barulho dos tanques nazistas, a tal batalha então começa.

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  2. Como é bom ouvir uma música e poder fazer sua constextualizaçâo socio-política e histórica!
    E seu blog faz isso muito bem, de uma maneira simples, clara e confiável.
    Adoreiiiiiiiiiiiiiii...... Muito bom, mesmo!

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  3. por incrivel que pareça, a primeira vez que ouvi essa musica, eu tinha uns 6 anos de idade, me encantei e me emocionei profundamente, sem saber o que ela representava, apenas pela beleza da musica, me lembro como se fosse hoje, eu dentro de um carro , aqueles carrões chevrolet ou ford, o radio com certa interferencia e chiados, um frio de doer, eu e meus pais, indo ao centro de são paulo, ainda com aquelas luzes comuns incandecentes, e os letreiros luminosos da av, são joão e anhangabau enchendo nossos olhos, e essa musica ressoando no ar. quem poderia esquecer....

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    1. Obrigado por compartilhar suas lembranças e, sobretudo, pela leitura.

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