sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Chico Buarque – 20 CDs

Foto/Divulgação
A partir de amanhã, dia 27 de novembro, os cariocas poderão adquirir em bancas de jornal uma coletânea dos 20 melhores discos da carreira de Chico Buarque no período de 1966 a 2006.
Não apenas CD, é um fascículo ricamente ilustrado e com informações importantes sobre o nosso maior poeta musical. Quer mais? O que sairá neste sábado custará R$ 7,90; os demais, R$ 14,90.
O primeiro é o CD-livro “Chico Buarque”, de 1978 (aquele com Chico e as samambaias ao fundo).
Phonopress  - sempre na vanguarda – já comprou, ouviu, leu, e comenta pra você mais um excelente trabalho de relançamento.
A coleção não se limita ao período da Philips e resgata obras do início de carreira na RGE e os discos produzidos para a Ariola, RCA (atual Sony-BMG) e Biscoito Fino. O volume 12 é dedicado ao raríssimo “Calabar”. O último traz Chico em italiano com arranjos de Ennio Morricone, ícone das trilhas sonoras do cinema.

No disco de 1978, temos uma obra fundamental. Chico usa todos os recursos disponíveis nos estúdios da Philips (16 canais!) para mandar recado ao regime autoritário brasileiro (1964-1985). Era o tempo no qual possuir um disco do Chico mostrava seu posicionamento político, além de cultural.
Geisel comandava as tropas; Chico a oposição e a população de pensamento arejado.
A primeira faixa é a saborosa “Feijoada Completa”. Na segunda, Chico faz o que sempre fez melhor: colocar as palavras mais certas e precisas numa letra. É a faixa “Cálice” (parceria com Gilberto Gil), um libelo contra a tortura. Nela temos Milton Nascimento em dueto com Chico e os vocais inesquecíveis do MPB4.
Outro motivo para comprar é a faixa “Trocando em Miúdos”.
O casamento musical de Chico com o maestro Francis Hime foi a melhor combinação de música e letra da história de nossa música: o mestre das palavras e o mestre dos arranjos e regência.
“Trocando em Miúdos” é o retrato mais fiel e insuperável da dor, ironia e tristeza de uma separação conjugal.
E Francis Hime vestia as letras de Chico com beleza e conhecimento musical que nunca mais se repetiria depois de “Vai Passar” (1984).
O disco ainda tem “O Meu Amor” (Marieta Severo e Alcione), “Homenagem ao Malandro”, a profética “Pivete”, "Pedaço de Mim" com a novata Zizi Possi e outras.
A última é “Apesar de Você” - um samba enredo. Um samba enredo político.
O compacto de 1970 foi proibido e recolhido. A Philips garante que salvou a fita-máster e que no disco de 1978 a gravação é a mesma.
Chico canta ao regime verde-oliva que este não seria eterno – e não foi.

Em 1973 ou 78 ainda vivíamos o período marcado pela pergunta:
“Sabe com quem está falando?”.
No tempo ditatorial era assim. Mas o ranço ditatorial ameaça ressurgir na Alvorada.  
O controle social da imprensa é inconstitucional.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Jacy Dasilva   

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Retirante" Gilberto Gil na Livraria Cultura

O Cd "Retirante" de Gilberto Gil já pode ser encontrado na Livraria Cultura de São Paulo.
Até ontem, procurei na mesma livraria e não encontrei.

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/musica/resenha/resenha.asp?nitem=11035365&sid=153161184121123520732296846&k5=128E7C13&uid=

Custa R$ 29,60 mais frete.
Vale cada centavo.

Jacy Dasilva

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Gilberto Gil - Retirante (2010)

Lançado em CD as primeiras gravações de Gilberto Gil. É o CD duplo "Retirante", pela gravadora Discobertas.
O lançamento data de agosto mas não tem onde comprar, inexplicavelmente.
Traz as primeiras gravações do gênio baiano, inclusive em 78 rotações. Se você só conhece Gil a partir de "Domingo no Parque", vale a pena procurar.
A caixa "Ensaio Geral" (13 CDs), lançada em 1999, cobre o período do artista na gravadora Philips, atual Universal Music. Outra caixa, chamada "Palco" (28 CDs), de 2002, relançou o período da Warner. Seus discos sempre venderam bem, desde os tempos do LP.
A parceria de Gil e o produtor, ex-presidente da Philips e Warner e amigo, André Midani está toda registrada em CDs.
Mas faltava reunir suas gravações mais primitivas pela JS, RCA e Arlequim.
O produtor Marcelo Fróes põe no mercado o que faltava.
O projeto gráfico da capa pode não empolgar. Mas o encarte de 16 páginas é lindo.
O trabalho de garimpo reuniu 32 faixas divididas em dois CDs.
A qualidade é satisfatória. Afinal, as primeiras gravações são de 1962. Tem coisas interessantes, como "Povo Petroleiro” e “Coça Coça Lacerdinha”.
É verdade que parte do material já foi lançado anteriormente em outras compilações de Gil, mas em "Retirante" está tudo no mesmo lugar. Tem as primeiras gravações de “Procissão” e “Roda”.
O segundo CD é ainda mais interessante porque resgata uma gravação demo para a editora musical Arlequim, em 1966.
A simplicidade de Gil e seu violão em 18 músicas é comovente.
Gilberto Gil nunca foi de pular de gravadora em gravadora. Ao contrário, sua discografia é de fácil pesquisa: basicamente Philips (Universal) e Warner.
Daí a a improtância de "Retirante".
Mas Phonopress não entende a dificuldade em encontrar o bom disco.
Nos Estados Unidos, a loja online www. amazon.com tem. Aliás, tem até os discos de Gil que nunca foram lançados no Brasil. A HMV britânica, idem.
Uma parte significativa de CDs fundamentais de música brasileira só é encontrada fora do Brasil. E não estamos falando de artistas que partiram e não voltaram ou obscuros.
Jobim nunca saiu de catálogo nos Estados Unidos. Elis Regina tem toda a discografia lançada e relançada no Japão. Marcos Valle é figurinha fácil nas lojas inglesas.
O CD "Retirantes" não tem na Saraiva, Livraria Cultura, Fnac, Americanas ou Submarino.
Mas eu juro que ele existe. Comprei, por mero acaso, num hipermercado, num cesto cheio daqueles discos que você tem que garimpar e, invariavelmente, não acha nada aproveitável.  O site do próprio mercado não tinha o CD para venda. Telefonei para as poucas lojas de discos remanescentes no Rio e ninguém tinha.
Um site pra lá de suspeito afirma ter mas sem nenhum sistema de proteção à compras online.
Listo as faixas - que são boas. O CD não se destina apenas a colecionadores e fãs.
É pura MPB.

CD 1
01. Povo Petroleiro
02. Coça Coça Lacerdinha
03. Serenata do Teleco-teco
04. Maria Tristeza
05. Vontade de Amar
06. Meu Luar, Minhas Canções
07. Decisão - Amor de Carnaval
08. Vem, Colombina
09. Procissão
10. Roda
11. Iemanjá
12. Ensaio Geral - Versão Compacto
13. Minha Senhora
14. Felicidade Vem Depois

CD 2
01. Me Diga, Moço
02. Rancho da Rosa Encarnada
03. Vento de Maio
04. Ensaio Geral
05. Rancho da Boa Vinda
06. Serenata de Teleco-teco
07. Meu Choro Pra Você
08. Beira-mar
09. Zabelê
10. Minha Senhora
11. Ninguém Dá o que Não Tem
12. Decisão - Amor de Carnaval
13. Antigamente
14. Maria - Me Perdoe, Maria
15. Iemanjá
16. A Última Coisa Bonita
17. Retirante
18. Cantiga


Se o garimpo de reunir as faixas é admirável, a dificuldade para encontrar o CD é vergonhosa.
Jacy Dasilva

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

The Beatles disponível no iTunes

Foto: Alcemar Oliveira. Gentilmente cedida para Phonopress


Há cerca de 3 meses, perguntaram a Yoko Ono sobre os avanços nas negociações para colocar o catálogo dos Beatles no iTunes (Folha de São Paulo, 6 de agosto de 2010). Ela respondeu:

"Os Beatles ficarão longe do iTunes por um bom tempo.
Esperem sentados pela venda de músicas dos Beatles no iTunes ou outras lojas online".

O tempo passou rápido.
Hoje, o site americano iTunes anuncia a venda online de todo o catálogo dos fab four.
Mas não fique muito animado - o Brasil está de fora. O "privilégio" está disponível em apenas 25 países.
Também não se estusiasme à toa. O preço por cada arquivo de áudio (com aquela qualidade duvidosa) é salgado.
Faça as contas.
Cada faixa está saindo por US$ 1,29 (cerca de R$ 2,25).
Os álbuns simples estão custando US$ 12,99 (cerca de R$ 22,46).
Os duplos custam US$ 19,99 (R$ 34,60).
Aqui mesmo no Brasil é possível comprar toda coleção dos Beatles por valor semelhante (dependendo do álbum) nas lojas (Saraiva, Fnac, Cultura) ou online (Submarino, Saraiva, Cultura, etc.).
Os CDs trazem a vantagem de sistematizar os álbuns como foram concebidos; tiveram boa remasterização em 2009; não têm nenhum tipo de compressão canhestra e ainda oferecem um documentário sobre a história de cada disco.
Bom, o material gráfico (fotos, desenhos e textos) também é de primeira e mais um ponto em favor dos CDs.
Além disso, você armazena para ouvir do jeito que quiser - comprime ou não.
Um CD não é eterno, mas tem a vida mais longa do que qualquer tocador de MP3.
Os iPods de hoje têm uma capacidade que dispensa qualquer compressão.
Oficialmente, os Beatles tiveram a primeira vida discográfica entre 1962 e 1970. Foram um fenômeno musical e mercadológico.
Venderam muito no velho formato LP. Após a separação, fizeram mais dinheiro com o velho catálogo.
Novo sucesso de vendas na primeira versão em CD de 1986.
A versão de 2009 arrastou grisalhos, marmanjos às lojas e, surpreendentemente, os jovens -  uma nova legião de admiradores.
E as vendas nunca pararam no mundo inteiro.
A EMI precisa vender tudo de novo para sair da falência. Há 48 anos, os Beatles "salvam" a gravadora britânica. A fonte de Phonopress é a edição eletrônica do The New York Times de ontem.
É um milagre que John, Paul, George e Ringo tenham ficado ricos, pois os contratos assinados eram leoninos. As fitas eram economizadas e, até para uma geladeira (com cadeado) no estúdio, foi necessário ofício ao presidente da gravadora.
Paul McCartney, Ringo, as viúvas de John Lennon e George Harrison não precisam do iTunes.
O iTunes e a EMI precisam dos Beatles.
Os Beatles farão novamente história no iTunes.
Jacy Dasilva

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Warsaw Concerto (Concerto de Varsóvia) – Richard Addinsell (1941)

Em 1941, o mundo estava em guerra e o cinema – ainda em sua infância – contribuiu no esforço de elevar o moral dos habitantes e combatentes europeus invadidos, literalmente, pela máquina de guerra nazista.
O filme de 1941, da RKO britânica, “Dangerous Moonlight” (“Luar Perigoso”, no Brasil), seria mais um filme de guerra, não fosse pela originalidade em valorizar os milhares de soldados poloneses que lutaram com os Aliados na esperança de libertar a Polônia do nazismo – o que não foi destaque à época de seu lançamento. O que de fato marcou o filme foi sua trilha musical.
O filme conta a história de Stefan Radetzky, um pianista polonês apaixonado por uma repórter americana, relutando em deixar a Varsóvia bombardeada e prestes a ser ocupada. Foge, convencido pelos amigos. Chega aos Estados Unidos, via Romênia, mas volta à Europa para ajudar na libertação da sua terra natal. Alista-se como piloto voluntário da força aérea britânica (RAF), é abatido em voo e hospitalizado na Inglaterra. Perde a memória, que é recobrada, quando toca ao piano seu famoso “Concerto de Varsóvia”.

A trilha sonora
Os produtores pensaram em usar o “Concerto № 2 para Piano”, de Rachmaninov (1873-1943), que negou o uso da obra e recusou o convite para compor uma trilha original. O fato é compreensível: o cinema era visto como um divertimento barato e como farsa do teatro.
Richard Addinsell (1904-1977) foi chamado para a tarefa de criar um tema musical no estilo Rachmaninov. Addinsell fez o trabalho pelo qual seria lembrado durante toda sua vida.
O ator principal, Anton Walbrook (1896-1967), sabia tocar piano, mas um profissional foi chamado para a tarefa – Louis Kentner. O preconceito a respeito da música de cinema era tanto que Louis pediu para que seu nome não aparecesse nos créditos temendo por sua carreira.
O tema é um concerto para piano de apenas um movimento. Aparentemente simples, dá vida às cenas de combates aéreos reais que foram usadas no filme.
Os espectadores ligavam para os cinemas para perguntar o nome do concerto usado no filme.
Addinsell estudou direito sem terminar o curso. Igualmente iniciou música em conservatórios sem terminá-los também. Foi contratado, em 1931, para musicar uma versão americana de Alice no País das Maravilhas. Voltou à Inglaterra e dedicou-se a compor para o cinema e depois para TV.
O “Concerto de Varsóvia” não é considerado uma obra clássica ou erudita. É tido como semiclássico e indicado a estudantes de piano. Pode ser.
Porém, erudito ou não, foi ouvido pelo público – o que todo compositor almeja.
Seu concerto foi usado em transmissões radiofônicas por toda a Europa no período da guerra e depois dela. Também foi gravado em LPs e CDs por várias orquestras.
As execuções por pianistas clássicos não são mais motivo de vergonha.
Após a morte de Rachmaninov, sua obra foi freqüentemente usada no cinema. O “Concerto № 2 para Piano” foi cedido ao filme “Brief Encounter” – 1946 (“Desencanto”, no Brasil) de David Lean (1908-1991).

No primeiro vídeo do YouTube, temos a execução pela Banda Sinfônica da RAF com cenas de batalhas aéreas.



No segundo, a pianista romena, Ioana Maria Lupascu, com a Orquestra Filarmônica da Romênia, exibindo uma performance longe de ser estudantil.




E a Polônia?
A invasão da Polônia em 1 de setembro de 1939 marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Porém, no dia 17 do mesmo mês, a Polônia foi novamente invadida pela Rússia – fato pouco lembrado. Churchill (1874-1965), que declarou guerra à Alemanha para libertar os poloneses não declarou guerra à Rússia.
Stalin (1879-1953) e Hitler (1889-1945) já haviam assinado um acordo que daria o lado oriental da Polônia aos russos. Ao final da guerra, todo território polonês foi anexado pelos russos. Não vou mencionar a Conferência de Yalta (1945) e outros acordos que não melhoraram a situação polonesa.
Os poloneses, que lutaram cegamente com os Aliados, não sabiam que o destino de seu país já estava selado desde o começo do conflito.
Apenas na RAF havia 145 pilotos poloneses, o maior contingente estrangeiro na força aérea.
A Polônia só viria a ser um país soberano em 1989.
Jacy Dasilva   

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Efeito Doppler

O entendimento do fenômeno ou efeito Doppler é fundamental para entendermos diversos fenômenos sonoros, luminosos e até astronômicos que fazem parte do nosso cotidiano.
O físico austríaco Christian Doppler (1803-1853) observou que um apito de trem tornava-se mais agudo e mais alto à medida que a locomotiva se aproximava dele, voltando a ficar mais grave e baixo conforme se afastava. Da mesma forma, uma fonte luminosa é mais intensa quando está mais perto do observador. Em 1842, publicou trabalho com suas observações no campo da propagação do som e da luz.
Sua comprovação inicial veio com o experimento do holandês Buys Ballot (1817-1890), em 1845.
Ballot conseguiu uma locomotiva que puxava um pequeno grupo de trompetistas tocando a mesma nota musical e, ao longo dos trilhos, posicionou vários músicos profissionais para fazerem a notação em pauta musical do que estavam ouvindo.
Buys Ballot verificou que as notas ouvidas e anotadas eram diferentes das notas emitidas pelos músicos a partir do trem em movimento e, que a partir dessa diferença, era possível medir a distância entre a fonte sonora e o observador – já que a velocidade do som é constante.
O efeito Doppler e o experimento de Buys Ballot não tiveram reconhecimento em sua época e muitos duvidaram de sua veracidade. Apenas no final do século XX é que a tecnologia conseguiu aferir e validar com precisão o efeito e o experimento.
O que não é de espantar. As ondas sonoras - e estamos falando delas também - só foram comprovadas por Hertz no final do século XIX, muito embora já se soubessem de sua existência.
O efeito Doppler quando aplicado a outro fenômeno, o eco, produziu um avanço tecnológico que nos proporcionou o sonar, o radar e o ultrassom.
As antenas retransmissoras de sinais de rádio, televisão e telefonia celular são necessárias por causa do efeito Doppler.
Você leva uma multa no trânsito porque é apressado e o radar é baseado no efeito Doppler.
O fluxo sanguíneo gera um eco que pode ser medido no ultrassom pedido por seu médico – o efeito Doppler.
Quando você grava instrumentos musicais ou voz, buscando a fidelidade sonora, procura eliminar a diferença entre o que é executado de fato e aquilo que pode ser realmente ouvido – efeito Doppler de novo.
O samba-enredo “atravessa” na passarela por causa do efeito Doppler.
Por quê? O som cantado pelos puxadores de samba se mistura ao das poderosas baterias da escola, ecoam e voltam para os microfones. Além disso, o público e os passistas cantam o samba também, que ecoa para a avenida, puxadores e retorna via microfones. É a transmissão, misturada com a retransmissão que confundem puxadores, bateria, passistas e público, sem contar que a escola está em movimento - isso faz o samba "atravessar" e ser cantado de formas diferentes, em tempos diferentes. 
Mesmo sem saber, os construtores do passado projetavam e construíam anfiteatros para “segurar” o som emitido pelo palco. A absorção do som pelas pessoas também ajuda.
As conchas acústicas têm a mesma função.
Outro exemplo: você chega atrasado a um show e fica longe do palco – vê pouco, mas ouve bem – porque as torres de som levam o som até você. Mas levam o som com milésimos de segundo de atraso. Leve um binóculo e perceberá um atraso mínimo entre a emissão sonora e o que chega até seus ouvidos. Por quê?
Se o som for transmitido de forma igual, vai produzir uma massa de som original somada ao som amplificado e mais um eco tão perturbador, que vai confundir o espectador e os próprios músicos.
Numa transmissão de TV, ao vivo, o jornalista do estúdio faz uma pergunta ao entrevistado que está na rua ou num outro estúdio e demora a responder a pergunta. Porque demorou a ouvir - efeito Doppler. Hoje, mesmo com os satélites, existe uma diferença de cerca de 1 segundo para a onda sonora chegar de local a outro. Quanto mais perto, menor o atraso ou delay.
Em 1957, a Rússia (principal país da antiga União Soviética) lançou o primeiro satélite artificial, o Sputnik. A certeza de que estava em órbita foi dada pela medição da distância do som emitido pelo satélite (um ruído com intervalos constantes) e a recepção deste na Terra.
A transmissão via satélite também é uma aplicação do efeito Doppler.
O astrônomo americano Harlow Shapley (1885-1972) usou o conceito do fenômeno ou efeito Doppler para demonstrar que o Universo está em expansão.

Curiosidade número 1: Buys Ballot possivelmente conseguiu uma locomotiva, em pleno século XIX, só pra fazer um experimento, porque era filho de um ministro holandês.

Curiosidade número 2: Christian Doppler morou, em Viena, numa casa situada entre as residências de Mozart (1756-1791) e do maestro Herbert von Karajan (1908-1989) – este último, grande incentivador da criação dos compact discs ou CDs.

Jacy Dasilva

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Yesterday – Paul McCartney (1965)

“Não, eu não quero nada de Mantovani nessa música!”, disse Paul McCartney ao produtor George Martin, que não via nenhuma possibilidade de gravar Yesterday com os outros três Beatles e sugeriu um arranjo de orquestra. Mas afinal, quem era o Mantovani que McCartney não queria?

Mantovani
Annunzio Paolo Mantovani (1905-1980) foi maestro de uma das orquestras mais populares da história. Executavam repertório clássico e versões orquestrais de sucessos do rádio e cinema. Sua orquestra tinha programa de rádio e TV na Inglaterra desde os anos 50. Os discos gravados fizeram imenso sucesso ao redor do mundo, inclusive no Brasil.
O som característico de Mantovani era a chamada “cascata de cordas” – um efeito que duplicava artificialmente a sessão de violinos das gravações e acrescentava eco, como se fossem gravadas em grandes catedrais. O som dos solistas não possuía quase eco, mas mixado aos violinos duplicados, o efeito era celestial. Era esse artificialismo que Paul McCartney detestava.

A Criação
Paul fez muitas canções na casa da família Asher, em Londres. Namorava Jane Asher, irmã do músico Peter Asher, e dormia na casa da família com frequência.
Acordou, numa manhã do início de 1965, com a música inteira na cabeça, conforme contou inúmeras vezes. Foi até o piano da família e tocou a melodia para não esquecer.
Durante as filmagens de Help!, tocava a música em todos os intervalos possíveis. O diretor Richard Lester chegou a advertir Paul, que se não parasse de tocar aquilo, removeria o piano.
Durante algum tempo, Paul pensou que sua composição pudesse ser um plágio inconsciente. Procurou colegas músicos para mostrar a canção e todos diziam não conhecer nenhuma semelhante. As editoras musicais deram o mesmo veredito.
Para a música não havia letra e, provisoriamente foi chamada de “Scrambled Eggs” (ovos mexidos). John Lennon chegou a colaborar para que a música tivesse uma letra. Mas o resultado final é uma composição solo de McCartney.
Paul, numa viagem a Portugal, pediu emprestado o violão folk, com cordas de aço, ao amigo Bruce Welch, guitarrista do grupo Shadows (conjunto que durante muito tempo acompanhou Cliff Richard, o Elvis britânico). Foi ao violão que Paul conseguiu colocar a letra definitiva em Yesterday. Mas como gravá-la?

A Solução de George Martin
O produtor dos Beatles recebeu com entusiasmo a composição de Paul, mas não vislumbrava uma gravação com guitarras, baixo e bateria. Era algo muito mais clássico e elaborado do que qualquer música feita pelos Beatles anteriormente.
Pediu que Paul gravasse com vocal e violão e ficou de pensar em como fazer dela uma canção beatle. Não dava.
George Martin sugeriu ao empresário da banda, Brian Epstein (1934-1967), que Yesterday fosse lançada como compacto solo de McCartney. A resposta foi negativa. Daí a idéia de Martin de fazer um arranjo de cordas. Paul McCartney pensou que seria uma orquestra horrorosa; Martin, simplicidade.
Aliás, nunca é demais destacar o papel de George Martin na carreira dos Beatles. Ele não apenas solucionava problemas musicais, como expandiu os conhecimentos em teoria musical que os Beatles possuíam em pequena quantidade. Ensinou contraponto, notação musical, harmonia, etc. Interferia, quase sem sucesso, para que as gravações tivessem a melhor qualidade técnica possível. Comprou brigas entre os Beatles e a EMI e, por fim, foi uma espécie de pai pra eles. Ele não é chamado de "quinto beatle" à toa.
A letra de Yesterday é um poema nostálgico e sentimental. Paul coloca a impossibilidade de retornar ao passado e a necessidade de um lugar para fugir dos problemas. Ainda lamenta por uma pessoa que se foi para sempre – temas universais.
As explicações para um sentimento tão nostálgico em alguém tão jovem (23 anos) são diversas e muitos concordam que a perda de sua mãe foi determinante para os versos.
A melodia é única, simples e a interpretação sincera, nada piegas e honesta emociona até os dias de hoje.
A gravação solo de McCartney e o quarteto de cordas é faixa do disco Help!, embora não apareça no filme.
Yesterday é a canção mais executada e gravada de toda a história da música popular mundial.
Foi regravada cerca de 3 mil vezes, incluindo cantores e cantoras de todos os gêneros, por instrumentistas variados e muitas orquestras - incluindo a de Mantovani.
A gravação por Ray Charles (1930-2004), em 1967, mereceu um telegrama de agradecimento dos Beatles – fãs de Ray desde os tempos em que tocavam em bailes e faziam covers de What I´d Say, I Got a Woman e Hallelujah, I Love Her So.
A primeira apresentação ao vivo de Yesterday foi em 1 de agosto de 1965, num programa ao vivo chamado Blackpool Night Out.
Na apresentação, Paul é anunciado como se fosse um artista solo que ganha uma oportunidade – gozação dos outros três. Paul canta sozinho no palco acompanhado pela orquestra no fosso do teatro.
A partir de Yesterday, os Beatles foram levados à sério pela crítica e pelos músicos de todo mundo.
A interpretação de Paul McCartney é a melhor de todas.
Quem for aos shows de McCartney, programados para este mês no Brasil, assistirá um espetáculo de canções inesquecíveis e uma aula de história.

Jacy Dasilva