quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Formato MP3

MP3 é o nome da maior revolução na indústria fonográfica dos últimos tempos. Para alguns é marca o fim das gravadoras tradicionais – pode ser.
Mas o fato é que hoje as pessoas escutam mais música e fazem a sua própria seleção de repertório – seja para suportar o tempo no transporte público, no automóvel ou no lazer – por causa do MP3. E nunca se ouviu tanta música no mundo.
Mas o que é o MP3?

Uma breve história
Antes do MP3, no século XIX, a música já era transmitida via telefone, inventado em 1876.
No final da década de 1890, uma empresa londrina chamada Electrophone transmitia óperas, peças de teatro e noticiário para assinantes. Nos anos 20 do século passado, transmissões em dois canais foram feitas usando os velhos cabos de cobre – de concertos até discursos presidenciais nos Estados Unidos.
O MP3 foi projetado para ser um formato para transmissão de áudio (voz) de qualidade, via linhas telefônicas e seu desenvolvimento começou nos anos 70. Bem como a fibra óptica, e a Internet, o MP3 é mais um filho da Guerra Fria.
Em 1987, o cientista alemão Dieter Szeiter da Universidade Erlanger e Karlheinz Brandenburg do Instituto Fraunhofer descobriram um algoritmo (espécie de fórmula matemática com a finalidade de solucionar problemas em computação) capaz de comprimir áudio com sucesso e, teoricamente, sem perda de qualidade. Foi chamado Eureka-EU147. Um cientista chamado Karlheinz Brandenburg já havia trabalhado em compressão de áudio em 1977, mas o projeto foi arquivado.
Em 1988, houve a criação do Moving Picture Experts Group (MPEG) que desenvolveu fórmulas específicas para codificação e compressão de vídeo e áudio.
Em 1992, nasceu o MPEG Audio Layer 3, ou MP3. O que faz isso? Comprime em cerca de onze vezes o tamanho de um arquivo de áudio, eliminando as redundâncias e os timbres que o ouvido humano "não é capaz de ouvir".
Uma música extraída de um CD - uma faixa padrão de 3 minutos - que tem cerca de 30MB é capaz de ficar com aproximadamente 3MB.
Devemos lembrar que, no início dos anos 90, os discos rígidos ou HDs dos computadores não tinham a capacidade gigantesca que têm hoje - a compressão era uma necessidade.
Mas o MP3 é um bom formato de som?

A Qualidade do MP3
Bom, esse é o aspecto que mais gera controvérsias. Se o formato padrão de um CD (44Khz de amostragem e 16 bit) é questionado por muitos amantes do vinil, imaginem algo que ainda comprima ainda mais o som.
Em teoria, o MP3 não deveria ter perda. Mas o fato que é não é preciso ter um “ouvido absoluto” ou ser João Gilberto, para sacar que algo está faltando quando se ouve um MP3. Experimente passar uma música que você conheça bem, mas bem mesmo, para MP3, usando o bitrate (taxa de compressão) padrão de 128kbps. Escute os dois arquivos e certamente dará por falta de alguma coisa, seja na voz, orquestra, percussão ou no próprio volume do MP3.
Se não se convencer, tudo bem. Alguns só convertem em taxas maiores como 320 kbps. Mas ainda assim há perda de material.
Não condeno o formato.
Mas a indústria fonográfica não precisava ficar em polvorosa quando surgiu o Napster (1999), criado por um universitário de 19 anos em Boston - Shawn Fanning.
Ele só queria trocar arquivos com seus amigos pela Internet. Porém criou uma revolução no modo de ouvir música.
Hoje, qualquer celular, DVD player, iPods e até TVs reproduzem o formato MP3. Seu computador é capaz de converter sem esforço um CD para MP3. 

A Reação da Indústria Fonográfica
Foi desproporcional e só incentivou a pirataria.
André Midani, executivo de várias gravadoras brasileiras e estrangeiras, disse em sua autobiografia que: “aqueles universitários queriam ser comprados, não processados”. Ele tem razão.
A proibição e os processos contra o Napster, Audiogalaxy, pessoas físicas e outros sites de compartilhamento foram inócuos e criaram a ilusão da música gratuita.
Outros formatos como o Ogg Vorbis, WMA, o Flac, e o MP3pro não foram tão populares mas ainda existem.
Bastaria - na minha humilde opinião -convencer que o som em MP3 não era uma maravilha. Você conhece algum artista que grave e lance seu disco em MP3? Quando muito, é faixa bônus.
Lembrando sua origem, o MP3 foi uma solução para transmissão de áudio - especialmente voz - por linhas telefônicas. É um formato que fica bem melhor quando escutado em fones de ouvido do que em boas caixas acústicas e as gravadoras sabem disso. Tanto que remasterizam as músicas “empurrando” tudo que se ouve numa canção para o primeiro plano, para caber  naquele fone minúsculo ou alto-falantes de computador de qualidade duvidosa.
A indústria fonográfica ainda detêm as fitas master de tudo que produziu e lançou.
Hoje, o download legal e pago cresce no mundo inteiro, ao passo que o ilegal continua mas sem a mesma força. Hoje, consomem-se faixas avulsas e distorcidas.
Toda uma classe de profissionais sofreu, principalmente os designers gráficos, fotógrafos e outros que faziam a identidade visual de um CD.
Quando surgiu a ameaça do Napster e clones, as gravadoras estavam prestes a lançar discos no formato 5.1, com uma taxa de amostragem maior que os 44Khz e com 20, 24bit. Simplesmente desistiram de nos oferecer algo melhor que o CD comum - uma invenção do início dos anos 80. Acho que estão dando um tempo e vão vender muito MP3. Você já olhou as taxas de compressão dos arquivos MP3 vendidos no iTunes, 7Digital e outros sites? Veja.
A tecnologia de gravação estereofônica já estava disponível bem antes do primeiro aparelho de alta-fidelidade estar à venda.
Quando os aparelhos estéreo invadiram as lojas de departamentos nos anos 60, as gravadoras relançaram tudo de novo.Todos trocaram seus LPs mono por estéreos.
Por isso, não se desfaça de seus CDs. Muitos ainda se arrependem de ter jogado fora seus LPs. Não converta sua audioteca para MP3, exceto para ouvir no seu iPod e aparentados. Guarde seus discos: sejam CDs ou os velhos LPs. Bom, guarde seus MP3 também porque sua manipulação frequente também traz mais prejuízos sonoros.
Recomendo que conserve os originais e manipule as cópias. Talvez, um dia, seja possível fazer algo melhor com eles.

A indústria fonográfica só está aguardando o momento para tentar fazer o sempre conseguiu: vender de novo aquilo que já compramos no passado, sejam discos ou não e seus novos aparelhos.

Hoje, não tem link do YouTube, tem indicação de livro, que embora esgotado, vale a pena procurar:
Música, Ídolos e Poder – do vinil ao download, André Midani, Editora Nova Fronteira, 2008.

Jacy Dasilva

Um comentário:

  1. Jacy, muito bom artigo sobre a nossa música, como ouvimos e o mercado. É artigo pra ler, reler e tresler ouvindo um vinil!!!

    Abraços!

    Diogo Cunha

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