sábado, 2 de outubro de 2010

Love Is All - Malcolm Roberts (1969)






No país da Bossa Nova - quando ainda era moderno cantar baixinho -, é difícil imaginar que um cantor de vozeirão fosse nos encantar ainda nos anos 1960. Leia e confira.

Um pouco de história
Os Festivais Internacionais da Canção, realizados no Rio de Janeiro, procuravam talentos, assim como os Festivais da Record, em São Paulo.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivan Lins, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti e muitos outros foram revelados nesses concursos.

Em 1969, o Brasil vivia sob o AI-5 de Costa e Silva.

Fala-se muito no termo AI-5, mas vou lembrar de 3 artigos fundamentais para entender seu impacto: o governo poderia prender qualquer um considerado subversivo sem direito a habeas corpus; ser impedido de trabalhar e ter seus bens confiscados.

Foram tempos difíceis.

Em maio de 1969, o noticiário internacional acompanhou o sequestro do embaixador americano, sua libertação e as prisões, torturas, desaparecimentos subsequentes.

Assim, o Brasil tornou-se um destino desaconselhável aos membros do jet-set estrangeiro (termo antigo para o atual celebridade), que eram convidados pelo regime para simplesmente assistirem aos festivais. Tudo era custeado pelos cofres públicos.

Naquele ano, muitos artistas internacionais alegaram razões de segurança e cancelaram suas vindas – Jack Jones, Jane Fonda, George Harrison, Frank Pourcel e outros.

Por outro lado, o movimento de brasileiros que buscavam liberdade e proteção no exterior já estava em andamento.

Em 1969, o festival seria gravado em cores para exibição na Europa. No Brasil ainda não havia programas em cores – que chegou no início dos anos 1970 – e os militares gostaram da idéia de transmitir um Brasil colorido ao exterior.

Porém, o país vivia as cores permitidas: cinza-chumbo e verde-amarelo. E o verde era o verde-oliva. Os festivais internacionais eram propositadamente realizados para que artistas brasileiros vencessem a final. Tudo bem, havia um vencedor internacional e um nacional que competiam na grande final no Maracanãzinho.

O prêmio era um troféu chamado Galo de Ouro (desenho de Ziraldo) e dinheiro.

Os competidores brasileiros, cheios de talento, dispensavam tal marmelada, mas ela existia. Um exemplo apenas: o LP da Philips do Festival de 1968 traz uma representante do Japão chamada Tamico, interpretando “Just Friends”. Tamico residia em Niterói.Os representantes estrangeiros eram enviados pelas gravadoras ao Brasil – mais para uma exibição de produto do que para vencerem.
Assim vieram: Wallace Collection, Hervé Villard, Françoise Hardy e Jimmy Cliff. De todas as músicas estrangeiras apresentadas, a mais lembrada é “Love is All”, mas quem foi seu intérprete?


Malcolm Roberts

Nascido em Manchester, 1945, começou a cantar ainda na escola, em troca de restos de merenda e moedas. Tinha uma voz poderosa para uma criança e chegava a faturar 15 libras por semana apenas cantando.

Na adolescência, passou a acompanhar seu pai, cantando em bares e assumindo o piano e voz quando seu velho já estava afetado pelo álcool.

O talento foi percebido e frequentou a escola de música e artes de Manchester.Participou de produções locais e semiprofissionais de musicais americanos.

O agente da cantora Shirley Bassey conseguiu seu primeiro contrato com a gravadora RCA. Gravou seu primeiro sucesso “Time Alone Will Tell” e atuou em novelas inglesas.

Pela gravadora inglesa Major Minor foi mandado ao Brasil em 1969 para defender o Reino Unido com “Love is All”.
A composição da dupla Reed-Mason (It´s Not Unusual, There´s a Kind of Hush, Delilah, The Last Waltz, Sylvia e outras) foi escrita especialmente para a voz de tenor de Roberts, com arranjo orquestral de Les Reed - produtor de muitos grupos ingleses do período da “British Invasion” e o técnico de gravação foi o mago Alan Parsons.
Malcolm tinha 24 anos e chegou ao Rio sem despertar atenção mas esbanjava simpatia.

O único competidor sério era o já famoso cantor americano Bill Medley (da dupla Righteous Brothers) que defenderia uma composição do gênio precoce Jimmy Webb, chamada Evie. Eram os favoritos, eram americanos, mas não deu.

Existe uma história, sem confirmação, de que um jurado japonês votaria no americano. Duvido dessa versão, já que Evie não empolgou e Bill Medley parecia não saber o que estava cantando.

A mesma Evie só faria sucesso no Brasil na voz e bela interpretação de Johnny Mathis de 1971, tornando-se tema do Jornal Hoje.

Na final internacional, Bill Medley mal cantou, pois estava cercado de vaias que só aumentavam devido a péssima acústica do Maracanãzinho. O público queria o inglês vencedor.

Love is All” ganhou o coração dos 40 mil torcedores do estádio e conquistou o país.

A vencedora do festival foi “Cantiga por Luciana”, cantada por uma Evinha, de 18 anos e afinadíssima. Mas essa história, conto outro dia.

Malcolm retornaria várias vezes para cantar em terras brasileiras.

Apresentou-se em casas noturnas e programas de televisão – de maior ou menor reputação – durante os anos 70 e 80.

Através do sucesso no Brasil é que ficou conhecido na Europa. Cantou em festivais europeus, viveu nos Estados Unidos e, nos últimos anos, esteve envolvido na promoção de artistas como R. Kelly e Take That.

Infelizmente, nunca ganhou um centavo pela gravação original de “Love is All” e, muito menos os Discos de Ouro que tinha direito. O selo Major Minor faliu e não pagou a ninguém. Malcolm recebeu algum dinheiro quando a regravou em outros selos.

Vista hoje, sua interpretação e voz podem parecer exageradas e fora de moda, mas é impossível resistir ao carisma do cantor e à beleza da canção.

Ele acreditava no que estava cantando - requisito fundamental a um intérprete.
No novo vídeo (cortesia da Rede Globo, Brasil) é possível ver a atenção que despertou nos próprios músicos da orquestra que o acompanhava.

Faleceu em 2003, antes de completar 58 anos, e deu ao seu último disco o nome “Rio”.

Naquele tempo, acreditávamos que as canções poderiam mudar o mundo, que o amor era importante – era tudo.


Notas Fora da Pauta

Nota 1 - Evinha saiu vencedora com "Cantiga por Luciana" e Malcolm foi um dos primeiros a cumprimentá-la pela vitória.

Nota 2 - Malcolm regravou várias vezes uma versão em inglês de "Cantiga por Luciana", mantendo o nome original da canção.


 

Jacy Dasilva

11 comentários:

  1. Nasci em 1954 sou do tempo em que se acreditava poder mudar o mundo como,o cantor Malcom Roberts,e a musica que mais gosto é LOVE IS ALL...hj 12-03-2011 pesquisando a sua vida fiquei mto triste ao saber do seu faleçimento mas continuará vivo em nossos corações...Carlos de São Paulo...

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  2. Em 1969 era um menino de 12 , hoje tenho 54,e me lembro desses festivais que minha família acompanhava como se fosse uma novela. E hoje, com essa tecnologia posso relembrar aqueles momentos e músicas que empolgaram o maracanazinho como Love is Oll e Sayonara, sayonara que o público queria, mas, a marmelada não deixava. Realmente era uma voz potentíssima desse cantor que não deixou de gostar do Brasil apesar da injustiça ocorrida com ele.

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  3. Dear Jacy,

    Thank you for your e-mail and your lovely words.
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    We certainly have very happy memories of Malcolm in Rio! What a wonderful experience!
    Thank you again for your interest.
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    Kindest regards,

    Les
    Les Reed OBE, FCL (London)
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    www.chapteronerecords.com

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  4. Quando Malcon Roberts esteve no Brasil, ele se apresentou no Di Monaco Restaurante e Churrascaria, de propriedade na e'poca de meu pai Andre E. Di Monaco e outros. Foi um sucesso. Casa lotada.

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    1. Você tem gravações ou fotos das apresentações? Quase não há nada dele ao vivo.

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  5. Obrigado pelo comentário e, sobretudo, pela leitura.

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  6. Sou de 53. Que eu me lembre, o Malcon chegou com toda aquela voz, no tempo em que reinava o Agnaldo Rayol, como o rei da voz naquela época. Fato que ofuscou um pouco o nosso conterrâneo. :)
    Mauro - bragança paulista sp

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  7. Mauro,
    Obrigado pela leitura e comentário.

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  8. Célia,
    Meu pai fotografou todos esses festivais. Contudo, o material que tenho é de pouca qualidade. A Agência O Globo tem muita coisa em excelente estado. Acredite: comprar uma foto para uso pessoal não é caro.
    A gravação de "Love Is All" do Festival de 1969 pode ser comprada no iTunes. O último CD do cantor se chama "Rio" e tem a faixa. Obrigado pela leitura.

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    1. Eu estava querendo entrar em contato com o filho do dono do Di Monaco, para saber se ele gravou ou fotografou as apresentações. É muito difícil encontrar gravações ao vivo do Malcolm - há fãs que vêm tentado há décadas, sem sucesso.

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  9. Em 9 de dezembro 1969 Malcolm veio fazer 1 show em Porto Alegre. Eu, que sou pelotense, tinha 13 anos naquela época e passei as semanas q antecederam o show literalmente chorando dia e noite, a cada anúncio na tv sobre isso, prá q meu pai me levasse para vê-lo.
    Na manhã daquele dia minha mãe me disse q ele decidira me levar e lá fomos nós, de ônibus e ficando nem hotel, para ver aquele artista q para mim até hoje mora no meu coração e de milhares de brasileiros!
    Taí um choro q me valeu a pena demais!!!!!! Deus guarde Malcolm!

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