quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Also Sprach Zarathustra (2001) - Eumir Deodato (1972)

Richard Strauss (1864 -1949) a compôs Also Sprach Zarathustra, como um de seus poemas sinfônicos, em 1896, inspirada no livro homônimo de Nietzsche. A aceitação nas casas de concerto foi excelente. Apresentou-se no Rio de Janeiro e São Paulo em 1923.
Porém, o cinema faria a fama da obra clássica.
Em 1966, o diretor John Guillermin (1925) usou a fanfarra inicial da sinfonia em seu filme, Crepúsculo das Águias. Quase ninguém percebeu sua inclusão no filme.
Já em 1968, Stanley Kubrick (1928-1999) havia encomendado uma trilha original para Alex North (1910-1991), mas desistiu de usá-la. O diretor preferiu uma coleção de clássicos e incluiu Also Sprach Zarathustra para abrir o filme 2001- Uma Odisséia no Espaço. A escolha não poderia ter sido melhor. Filme de sucesso e trilha sonora idem.
Mas a vida da música tema estava longe de ter-se esgotado.

Eumir Deodato
Eumir de Almeida Deodato nasceu no Rio de Janeiro em 1943. Sua classificação: autodidata. Aprendeu acordeom aos 14 anos quando já sabia tocar o instrumento desde os 12. O piano também aprendeu sozinho; teve aulas depois.
Como muitos jovens de sua época, era fã de Stan Kenton (1911-1979), Henry Mancini (1924-1994) e da cantora cool, Julie London (1926-2000).
No Brasil dos anos 40 e 50 não havia música para jovens. Se você quisesse ouvir algo novo e diferente da velha guarda, das dores de cotovelo e sambas abolerados, restava a música americana, sobretudo o Jazz.
A Bossa Nova, ainda na fase de saraus em apartamentos, trouxe alívio aos ouvidos de todos os apreciadores da música – foi bem mais que banquinho e violão.
Num dos primeiros concertos de Bossa Nova, o da PUC-Rio, em 1959, lá estava ele, com dezesseis anos, tocando piano para Nara Leão, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, Chico Feitosa e Claudette Soares.
Claudette queria gravar Bossa Nova e, mesmo sem nunca ter feito um arranjo na vida, Eumir fez para as duas faixas dela no LP Nova geração em ritmo de samba (1960).
Bastou para Eumir querer aprender, por conta própria, como arranjar e orquestrar. Comprou todos os métodos importados disponíveis (Henry Mancini, Stan Kenton, etc.) pelo correio e trancou-se em casa com piano e órgão. Mas continuou a tocar com seus amigos da Bossa Nova, participando de shows e gravações.
Eumir, entre 1960 e 1967 fez arranjos para Marcos Valle, Simonal, Elis Regina, Wanda Sá, Nara Leão, Pery Ribeiro, Durval Ferreira, Leny Andrade, Maysa e Roberto Menescal e muitos mais.
Ruy Castro, escritor fundamental para entender o período, conta que os discos A Bossa Nova de Roberto Menescal e A Nova Bossa Nova de Roberto Menescal são, na verdade, discos de Eumir Deodato – Menescal tocava violão ou guitarra nos discos que Eumir fazia para ele.
Eumir gravou ainda Os Gatos, Aquele Som dos Gatos, Os Catedráticos e mais alguns sem crédito para ele. Musicou uma revista para Carlos Machado (1908-1992) e ainda tocava piano no programa da Marlene na TV Rio. O rapaz não era fácil.
O produtor mais elegante do Brasil, Roberto Quartin (1943-2004), dono da gravadora Forma, insistiu com Eumir para que gravasse um disco próprio. Daí nasceu Inútil Paisagem (Forma, 1964), onde Deodato, com apenas 22 anos, rege orquestra e toca piano, usando exclusivamente o repertório de Antônio Carlos Jobim (1927-1994). A lista de músicos escalados para o LP dá uma amostra do prestígio do rapaz: Oscar Castro Neves, Luís Marinho, Copinha, JT Meirelles, Cipó, Edson Maciel, Paulo Moura e Roberto Menescal. As gravações levaram apenas 3 dias. Tom Jobim escreveu o texto da contracapa do álbum, cheia de elogios merecidos.
Eumir Deodato continuou arranjando para os contratados da Odeon até que, em 1967, foi demitido pelo diretor-artístico, Milton Miranda. O argumento para a demissão foi surreal: “os arranjos eram muito complicados, confundiam os cantores e não ajudavam a vender os discos”. O mundo agradece até hoje sua demissão. Sem ela, talvez Eumir fizesse parte do imenso grupo de excelentes arranjadores que morreram no anonimato.

O Galeão como saída
Ao saber que Deodato estava desempregado, Luiz Bonfá (1922-2001), vivendo há quase uma década nos Estados Unidos, ofereceu-lhe emprego na América, mandou passagem e alugou casa pra ele. Eumir aceitou, viajou e não fez feio.
Ao chegar, fez os arranjos do disco da mulher de Bonfá, Maria Helena Toledo para a gravadora CTI, que pertencia a Creed Taylor.
O dono gostou do que ouviu e pediu arranjos para o novo disco de Astrud Gilberto, chamado Beach Samba. Eumir arranjou e gravou 5 músicas do disco em apenas 6 horas. O disco vendeu muito na época do lançamento e nada havia de difícil em seus arranjos. Astrud gravaria com arranjos de Eumir até 1972.
Taylor deu a Eumir boa parte dos arranjos de seus contratados: Paul Desmond, Wes Montgomery, Walter Wanderley, Ron Carter, Antônio Carlos Jobim, Stanley Turrentine, Toots Thielemans e próprio Bonfá (The New Face Of Luiz Bonfa - 1970 e Introspection – 1972).
Em 1969, quando Sinatra convidou Jobim para um novo disco, Eumir foi o arranjador de Sinatra & Company, lançado em 1971. Sinatra gostou dos arranjos, sobretudo da faixa Wave.
Observação: ele tinha 26 anos quando arranjou para A Voz.
Deodato continuou seu ofício para Aretha Franklin, Tony Bennett, George Benson, como arranjador freelancer.
Voltava ao Brasil para fazer os arranjos dos discos de Marcos Valle na mesma Odeon que o demitira. Os discos de Marcos Valle vendiam bem.
Ainda em 1967, Eumir voltou ao Brasil como jurado do FIC. Ouviu uma fita de um candidato que todos queriam eliminar. Tirou do “balaio”, como era chamado o cesto das fitas eliminadas, ninguém menos que Milton Nascimento cantando Travessia. Milton foi inscrito no festival contra a sua vontade por Agostinho dos Santos (1932-1973).
Creed Taylor, que veio ao festival, assinou contrato com Milton para seu primeiro disco internacional Courage, de 1968.
Os arranjos do disco de estréia no Brasil e nos Estados Unidos foram escritos por Deodato. Milton conta (vide encarte da reedição de 2002) que Luiz Eça mexeu pouco no material deixado por Deodato para o disco “Travessia” de 1967.

Also Sprach Zarathustra
Em 1972, Deodato foi encarregado pelo patrão Creed Taylor para fazer os arranjos para um disco do pianista Bob James. Deodato fez o trabalho eficiente de sempre.
Aí as versões para o que se segue são as seguintes: a primeira conta que Creed Taylor adorou Deodato interpretando a versão pop da obra de Strauss; a segunda relata que Bob James não compareceu às sessões marcadas e remarcadas para gravar o disco.
Se a primeira é verdadeira, por que Creed Taylor nunca oferecera um disco solo para Deodato?
A gravadora CTI era praticamente independente, com parceria com a A&M e distribuição irregular.
Creed Taylor não era o melhor patrão do mundo e vivia postergando os pagamentos aos contratatos.
Taylor não podia perder tempo e pediu que Eumir mesmo gravasse o disco.
Não poderia ter sido melhor.
As sessões foram entre 12 e 14 de setembro de 1972 e o disco Prelude saiu a tempo pro Natal. A versão de 2001 chegou ao segundo lugar na parada pop da Billboard em janeiro de 1973 e sétimo na inglesa. O compacto vendeu 5 milhões de cópias só nos Estados Unidos. O álbum também vendeu bem e continha um time de músicos de dar inveja: Ron Carter, Airto Moreira, Hubert Laws e Stanley Clarke.
No disco, uma outra faixa também chama a atenção: uma homenagem a Carole King e Carly Simon - Carly & Carole.
Outra observação: quando gravou o disco Prelude tinha 29 anos e já era veterano de estúdios.
Em 1973, Deodato virou astro e iniciou uma maratona de shows em território americano e fora dele. Lotou o Madison Square Garden no show “2001 – a Space Concert”. Em 1976, teve o Carnegie Hall, em apresentação solo, como palco.
Recebeu seu primeiro Grammy como melhor performance instrumental do ano.
Sua adaptação, arranjo e execução da obra de Strauss é moderna sim, mas não retira a dramaticidade original que o autor conferiu. É um clássico dos anos 70 que permanece atual.
Nos dois discos seguintes, Eumir teve a ousadia de verter para seu estilo pop-funk, dois clássicos americanos: Moonlight Serenade e Rhapsody In Blue - ambos sucessos.

A Carreira após o estrelato
Deodato continuou a ser requisitado como arranjador e produtor para Aretha Franklin, Roberta Flack, Tony Bennett, Marcos Valle, Tom Jobim, Earth, Wind & Fire, Michael Franks, Kay Star, Chuck Mangione, Gwen Guthrie e muitos, muitos mais.
Para o grupo Kool & The Gang produziu e arranjou entre 1979 e 1983 com muitos discos de platina. O hit Celebration teve sua introdução inspirada em marchinhas de carnaval e alcançou o primeiro lugar nas paradas americanas.
Foi o único brasileiro a tocar nos concertos oficiais em memória aos mortos nos ataques de 11 de setembro de 2001. Sua apresentação foi tão bem recebida, que Eumir voltou a se apresentar ao vivo.
Recentemente, produziu os arranjos para Bjork, KD Lang, Carlinhos Brown, Gal Costa, Milton Nascimento, uma francesa chamada Clementine, Titãs, Lisa Ono, Eliane Elias e a lista nunca para.
Em 2000, esteve no Brasil para gravar e produzir a trilha sonora do filme Bossa Nova, de Bruno Barreto. Deu as entrevistas de praxe, corrigiu os repórteres - que nada sabiam sobre ele-, não gostou da masterização brasileira da trilha e foi embora mais uma vez.
Ao todo, como arranjador, produtor e artista solo, vendeu 25 milhões de discos só nos Estados Unidos.
Para alguém que escrevia arranjos “difíceis”, ter uma coleção de 16 discos de platina prova algo.
Em 2007 lançou Deodato ao Vivo no Rio pela gravadora carioca Biscoito Fino, gravado na Sala Cecília Meirelles. O CD e DVD tiveram lançamento e boa aceitação fora do Brasil também.
Ao contrário do que muitos escrevem, a versão de Also Sprach Zarathustra não fez parte da trilha sonora de 2001. Esteve presente em “Muito Além do Jardim”, de 1979.
Os grupos Phish e James Taylor Quartet gravaram e apresentam ao vivo releituras de 2001.

"Ao Nativo, Aborígine, Indígena é Proibido Sair da Taba."
A frase é de Tom Jobim.
Eumir Deodato faz parte do elenco de brasileiros “esquecidos” no Brasil e só porque saíram do Brasil.
A lista é grande:
Carmen Miranda (1909-1955) foi hostilizada em sua primeira volta ao Brasil em pleno Cassino da Urca - palco de sua primeira consagração.
O Brasil torceu o nariz ou esqueceu Carlos Gomes (1836-1896), Laurindo Almeida (1917-1995), o lendário produtor musical Roberto Quartin (1943-2004), Dom Um Romão (1925-2005), Walter Wanderley (1932-1986), Luiz Bonfá (1922-2001) e Astrud Gilberto.
Antônio Carlos Jobim foi severamente patrulhado no Brasil. E dou como exemplo sua entrevista ao Pasquim em 1969 (entrevistas compiladas no livro O Som do Pasquim - Editora Codecri, 1976 e que foi reeditada recentemente).
Sérgio Mendes talvez seja o único a ser lembrado quando falecer. Sérgio comete a "heresia" de gostar de dinheiro sendo músico - pecado mortal, principalmente aos invejosos.
Sérgio Mendes ajudou Edu Lobo e Marcos Valle e outros quando estes estavam sendo roubados em seus direitos autorais nos Estados Unidos.
Muitos adoram odiar o pianista sem me oferecer um único motivo racional. Poucos sabem que o regime militar forçou sua saída. Conto sua história em outro post.

“Sucesso no Brasil é ofensa pessoal” - Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Jacy Dasilva


5 comentários:

  1. Uma pequena correção: Prelude, de fato, foi gravado nos dias 12, 13 e 14 de setembro de 1972, mas o disco chegaria às prateleiras das lojas dos EUA somente em fevereiro de 1973. Aproveitando o ensejo, a música Also Sprach Zarathustra chegaria ao segundo posto da parada da Billboard, sim, mas somente em em 31 de março de 1973 - http://en.wikipedia.org/wiki/Also_Sprach_Zarathustra_(2001) - após aproximadamente seis semanas tocando nas rádios. Dúvidas quanto à data de lançamento, é so confirmar através do site do Arnaldo DeSouteiro, historiador/produtor/jornalista/especialista em jazz em geral (e em Eumir Deodato, em particular) radicado em Los Angeles. Eis o link: http://jazzstation-oblogdearnaldodesouteiros.blogspot.com.br/2013/09/40-years-of-deodatos-prelude.html

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  2. Uma pequena correção: Prelude, de fato, foi gravado nos dias 12, 13 e 14 de setembro de 1972, mas o disco chegaria às prateleiras das lojas dos EUA somente em fevereiro de 1973. Aproveitando o ensejo, a música Also Sprach Zarathustra chegaria ao segundo posto da parada da Billboard, sim, mas somente em em 31 de março de 1973 - http://en.wikipedia.org/wiki/Also_Sprach_Zarathustra_(2001) - após aproximadamente seis semanas tocando nas rádios. Dúvidas quanto à data de lançamento, é so confirmar através do site do Arnaldo DeSouteiro, historiador/produtor/jornalista/especialista em jazz em geral (e em Eumir Deodato, em particular) radicado em Los Angeles. Eis o link: http://jazzstation-oblogdearnaldodesouteiros.blogspot.com.br/2013/09/40-years-of-deodatos-prelude.html

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    1. Alexandre, boa tarde. Obrigado pelas correções e sugestões.

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  3. Corrigindo mais um errata. Desta vez, a minha. Eu havia dito que a música "Also Sprach Zarathustra" havia alcançado o 2º lugar na parada da Billboard em 31 de março de 1973 após 6 seis semanas tocando nas rádios. Na verdade, foi após 9 semanas aproximadamente tocando nas rádios, o que, de qualquer maneira, coincide com o lançamento do disco e do compacto. Ou seja, fora esse detalhe, as informações que passei (data do lançamento do lp, da parada da Billboard, etc.) ainda procedem. Abraço, Jacy.

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    1. Alexandre, novamente agradeço gentileza.

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