quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Also Sprach Zarathustra (2001) - Eumir Deodato (1972)

Richard Strauss (1864 -1949) a compôs Also Sprach Zarathustra, como um de seus poemas sinfônicos, em 1896, inspirada no livro homônimo de Nietzsche. A aceitação nas casas de concerto foi excelente. Apresentou-se no Rio de Janeiro e São Paulo em 1923.
Porém, o cinema faria a fama da obra clássica.
Em 1966, o diretor John Guillermin (1925) usou a fanfarra inicial da sinfonia em seu filme, Crepúsculo das Águias. Quase ninguém percebeu sua inclusão no filme.
Já em 1968, Stanley Kubrick (1928-1999) havia encomendado uma trilha original para Alex North (1910-1991), mas desistiu de usá-la. O diretor preferiu uma coleção de clássicos e incluiu Also Sprach Zarathustra para abrir o filme 2001- Uma Odisséia no Espaço. A escolha não poderia ter sido melhor. Filme de sucesso e trilha sonora idem.
Mas a vida da música tema estava longe de ter-se esgotado.

Eumir Deodato
Eumir de Almeida Deodato nasceu no Rio de Janeiro em 1943. Sua classificação: autodidata. Aprendeu acordeom aos 14 anos quando já sabia tocar o instrumento desde os 12. O piano também aprendeu sozinho; teve aulas depois.
Como muitos jovens de sua época, era fã de Stan Kenton (1911-1979), Henry Mancini (1924-1994) e da cantora cool, Julie London (1926-2000).
No Brasil dos anos 40 e 50 não havia música para jovens. Se você quisesse ouvir algo novo e diferente da velha guarda, das dores de cotovelo e sambas abolerados, restava a música americana, sobretudo o Jazz.
A Bossa Nova, ainda na fase de saraus em apartamentos, trouxe alívio aos ouvidos de todos os apreciadores da música – foi bem mais que banquinho e violão.
Num dos primeiros concertos de Bossa Nova, o da PUC-Rio, em 1959, lá estava ele, com dezesseis anos, tocando piano para Nara Leão, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, Chico Feitosa e Claudette Soares.
Claudette queria gravar Bossa Nova e, mesmo sem nunca ter feito um arranjo na vida, Eumir fez para as duas faixas dela no LP Nova geração em ritmo de samba (1960).
Bastou para Eumir querer aprender, por conta própria, como arranjar e orquestrar. Comprou todos os métodos importados disponíveis (Henry Mancini, Stan Kenton, etc.) pelo correio e trancou-se em casa com piano e órgão. Mas continuou a tocar com seus amigos da Bossa Nova, participando de shows e gravações.
Eumir, entre 1960 e 1967 fez arranjos para Marcos Valle, Simonal, Elis Regina, Wanda Sá, Nara Leão, Pery Ribeiro, Durval Ferreira, Leny Andrade, Maysa e Roberto Menescal e muitos mais.
Ruy Castro, escritor fundamental para entender o período, conta que os discos A Bossa Nova de Roberto Menescal e A Nova Bossa Nova de Roberto Menescal são, na verdade, discos de Eumir Deodato – Menescal tocava violão ou guitarra nos discos que Eumir fazia para ele.
Eumir gravou ainda Os Gatos, Aquele Som dos Gatos, Os Catedráticos e mais alguns sem crédito para ele. Musicou uma revista para Carlos Machado (1908-1992) e ainda tocava piano no programa da Marlene na TV Rio. O rapaz não era fácil.
O produtor mais elegante do Brasil, Roberto Quartin (1943-2004), dono da gravadora Forma, insistiu com Eumir para que gravasse um disco próprio. Daí nasceu Inútil Paisagem (Forma, 1964), onde Deodato, com apenas 22 anos, rege orquestra e toca piano, usando exclusivamente o repertório de Antônio Carlos Jobim (1927-1994). A lista de músicos escalados para o LP dá uma amostra do prestígio do rapaz: Oscar Castro Neves, Luís Marinho, Copinha, JT Meirelles, Cipó, Edson Maciel, Paulo Moura e Roberto Menescal. As gravações levaram apenas 3 dias. Tom Jobim escreveu o texto da contracapa do álbum, cheia de elogios merecidos.
Eumir Deodato continuou arranjando para os contratados da Odeon até que, em 1967, foi demitido pelo diretor-artístico, Milton Miranda. O argumento para a demissão foi surreal: “os arranjos eram muito complicados, confundiam os cantores e não ajudavam a vender os discos”. O mundo agradece até hoje sua demissão. Sem ela, talvez Eumir fizesse parte do imenso grupo de excelentes arranjadores que morreram no anonimato.

O Galeão como saída
Ao saber que Deodato estava desempregado, Luiz Bonfá (1922-2001), vivendo há quase uma década nos Estados Unidos, ofereceu-lhe emprego na América, mandou passagem e alugou casa pra ele. Eumir aceitou, viajou e não fez feio.
Ao chegar, fez os arranjos do disco da mulher de Bonfá, Maria Helena Toledo para a gravadora CTI, que pertencia a Creed Taylor.
O dono gostou do que ouviu e pediu arranjos para o novo disco de Astrud Gilberto, chamado Beach Samba. Eumir arranjou e gravou 5 músicas do disco em apenas 6 horas. O disco vendeu muito na época do lançamento e nada havia de difícil em seus arranjos. Astrud gravaria com arranjos de Eumir até 1972.
Taylor deu a Eumir boa parte dos arranjos de seus contratados: Paul Desmond, Wes Montgomery, Walter Wanderley, Ron Carter, Antônio Carlos Jobim, Stanley Turrentine, Toots Thielemans e próprio Bonfá (The New Face Of Luiz Bonfa - 1970 e Introspection – 1972).
Em 1969, quando Sinatra convidou Jobim para um novo disco, Eumir foi o arranjador de Sinatra & Company, lançado em 1971. Sinatra gostou dos arranjos, sobretudo da faixa Wave.
Observação: ele tinha 26 anos quando arranjou para A Voz.
Deodato continuou seu ofício para Aretha Franklin, Tony Bennett, George Benson, como arranjador freelancer.
Voltava ao Brasil para fazer os arranjos dos discos de Marcos Valle na mesma Odeon que o demitira. Os discos de Marcos Valle vendiam bem.
Ainda em 1967, Eumir voltou ao Brasil como jurado do FIC. Ouviu uma fita de um candidato que todos queriam eliminar. Tirou do “balaio”, como era chamado o cesto das fitas eliminadas, ninguém menos que Milton Nascimento cantando Travessia. Milton foi inscrito no festival contra a sua vontade por Agostinho dos Santos (1932-1973).
Creed Taylor, que veio ao festival, assinou contrato com Milton para seu primeiro disco internacional Courage, de 1968.
Os arranjos do disco de estréia no Brasil e nos Estados Unidos foram escritos por Deodato. Milton conta (vide encarte da reedição de 2002) que Luiz Eça mexeu pouco no material deixado por Deodato para o disco “Travessia” de 1967.

Also Sprach Zarathustra
Em 1972, Deodato foi encarregado pelo patrão Creed Taylor para fazer os arranjos para um disco do pianista Bob James. Deodato fez o trabalho eficiente de sempre.
Aí as versões para o que se segue são as seguintes: a primeira conta que Creed Taylor adorou Deodato interpretando a versão pop da obra de Strauss; a segunda relata que Bob James não compareceu às sessões marcadas e remarcadas para gravar o disco.
Se a primeira é verdadeira, por que Creed Taylor nunca oferecera um disco solo para Deodato?
A gravadora CTI era praticamente independente, com parceria com a A&M e distribuição irregular.
Creed Taylor não era o melhor patrão do mundo e vivia postergando os pagamentos aos contratatos.
Taylor não podia perder tempo e pediu que Eumir mesmo gravasse o disco.
Não poderia ter sido melhor.
As sessões foram entre 12 e 14 de setembro de 1972 e o disco Prelude saiu a tempo pro Natal. A versão de 2001 chegou ao segundo lugar na parada pop da Billboard em janeiro de 1973 e sétimo na inglesa. O compacto vendeu 5 milhões de cópias só nos Estados Unidos. O álbum também vendeu bem e continha um time de músicos de dar inveja: Ron Carter, Airto Moreira, Hubert Laws e Stanley Clarke.
No disco, uma outra faixa também chama a atenção: uma homenagem a Carole King e Carly Simon - Carly & Carole.
Outra observação: quando gravou o disco Prelude tinha 29 anos e já era veterano de estúdios.
Em 1973, Deodato virou astro e iniciou uma maratona de shows em território americano e fora dele. Lotou o Madison Square Garden no show “2001 – a Space Concert”. Em 1976, teve o Carnegie Hall, em apresentação solo, como palco.
Recebeu seu primeiro Grammy como melhor performance instrumental do ano.
Sua adaptação, arranjo e execução da obra de Strauss é moderna sim, mas não retira a dramaticidade original que o autor conferiu. É um clássico dos anos 70 que permanece atual.
Nos dois discos seguintes, Eumir teve a ousadia de verter para seu estilo pop-funk, dois clássicos americanos: Moonlight Serenade e Rhapsody In Blue - ambos sucessos.

A Carreira após o estrelato
Deodato continuou a ser requisitado como arranjador e produtor para Aretha Franklin, Roberta Flack, Tony Bennett, Marcos Valle, Tom Jobim, Earth, Wind & Fire, Michael Franks, Kay Star, Chuck Mangione, Gwen Guthrie e muitos, muitos mais.
Para o grupo Kool & The Gang produziu e arranjou entre 1979 e 1983 com muitos discos de platina. O hit Celebration teve sua introdução inspirada em marchinhas de carnaval e alcançou o primeiro lugar nas paradas americanas.
Foi o único brasileiro a tocar nos concertos oficiais em memória aos mortos nos ataques de 11 de setembro de 2001. Sua apresentação foi tão bem recebida, que Eumir voltou a se apresentar ao vivo.
Recentemente, produziu os arranjos para Bjork, KD Lang, Carlinhos Brown, Gal Costa, Milton Nascimento, uma francesa chamada Clementine, Titãs, Lisa Ono, Eliane Elias e a lista nunca para.
Em 2000, esteve no Brasil para gravar e produzir a trilha sonora do filme Bossa Nova, de Bruno Barreto. Deu as entrevistas de praxe, corrigiu os repórteres - que nada sabiam sobre ele-, não gostou da masterização brasileira da trilha e foi embora mais uma vez.
Ao todo, como arranjador, produtor e artista solo, vendeu 25 milhões de discos só nos Estados Unidos.
Para alguém que escrevia arranjos “difíceis”, ter uma coleção de 16 discos de platina prova algo.
Em 2007 lançou Deodato ao Vivo no Rio pela gravadora carioca Biscoito Fino, gravado na Sala Cecília Meirelles. O CD e DVD tiveram lançamento e boa aceitação fora do Brasil também.
Ao contrário do que muitos escrevem, a versão de Also Sprach Zarathustra não fez parte da trilha sonora de 2001. Esteve presente em “Muito Além do Jardim”, de 1979.
Os grupos Phish e James Taylor Quartet gravaram e apresentam ao vivo releituras de 2001.

"Ao Nativo, Aborígine, Indígena é Proibido Sair da Taba."
A frase é de Tom Jobim.
Eumir Deodato faz parte do elenco de brasileiros “esquecidos” no Brasil e só porque saíram do Brasil.
A lista é grande:
Carmen Miranda (1909-1955) foi hostilizada em sua primeira volta ao Brasil em pleno Cassino da Urca - palco de sua primeira consagração.
O Brasil torceu o nariz ou esqueceu Carlos Gomes (1836-1896), Laurindo Almeida (1917-1995), o lendário produtor musical Roberto Quartin (1943-2004), Dom Um Romão (1925-2005), Walter Wanderley (1932-1986), Luiz Bonfá (1922-2001) e Astrud Gilberto.
Antônio Carlos Jobim foi severamente patrulhado no Brasil. E dou como exemplo sua entrevista ao Pasquim em 1969 (entrevistas compiladas no livro O Som do Pasquim - Editora Codecri, 1976 e que foi reeditada recentemente).
Sérgio Mendes talvez seja o único a ser lembrado quando falecer. Sérgio comete a "heresia" de gostar de dinheiro sendo músico - pecado mortal, principalmente aos invejosos.
Sérgio Mendes ajudou Edu Lobo e Marcos Valle e outros quando estes estavam sendo roubados em seus direitos autorais nos Estados Unidos.
Muitos adoram odiar o pianista sem me oferecer um único motivo racional. Poucos sabem que o regime militar forçou sua saída. Conto sua história em outro post.

“Sucesso no Brasil é ofensa pessoal” - Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Jacy Dasilva


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Formato MP3

MP3 é o nome da maior revolução na indústria fonográfica dos últimos tempos. Para alguns é marca o fim das gravadoras tradicionais – pode ser.
Mas o fato é que hoje as pessoas escutam mais música e fazem a sua própria seleção de repertório – seja para suportar o tempo no transporte público, no automóvel ou no lazer – por causa do MP3. E nunca se ouviu tanta música no mundo.
Mas o que é o MP3?

Uma breve história
Antes do MP3, no século XIX, a música já era transmitida via telefone, inventado em 1876.
No final da década de 1890, uma empresa londrina chamada Electrophone transmitia óperas, peças de teatro e noticiário para assinantes. Nos anos 20 do século passado, transmissões em dois canais foram feitas usando os velhos cabos de cobre – de concertos até discursos presidenciais nos Estados Unidos.
O MP3 foi projetado para ser um formato para transmissão de áudio (voz) de qualidade, via linhas telefônicas e seu desenvolvimento começou nos anos 70. Bem como a fibra óptica, e a Internet, o MP3 é mais um filho da Guerra Fria.
Em 1987, o cientista alemão Dieter Szeiter da Universidade Erlanger e Karlheinz Brandenburg do Instituto Fraunhofer descobriram um algoritmo (espécie de fórmula matemática com a finalidade de solucionar problemas em computação) capaz de comprimir áudio com sucesso e, teoricamente, sem perda de qualidade. Foi chamado Eureka-EU147. Um cientista chamado Karlheinz Brandenburg já havia trabalhado em compressão de áudio em 1977, mas o projeto foi arquivado.
Em 1988, houve a criação do Moving Picture Experts Group (MPEG) que desenvolveu fórmulas específicas para codificação e compressão de vídeo e áudio.
Em 1992, nasceu o MPEG Audio Layer 3, ou MP3. O que faz isso? Comprime em cerca de onze vezes o tamanho de um arquivo de áudio, eliminando as redundâncias e os timbres que o ouvido humano "não é capaz de ouvir".
Uma música extraída de um CD - uma faixa padrão de 3 minutos - que tem cerca de 30MB é capaz de ficar com aproximadamente 3MB.
Devemos lembrar que, no início dos anos 90, os discos rígidos ou HDs dos computadores não tinham a capacidade gigantesca que têm hoje - a compressão era uma necessidade.
Mas o MP3 é um bom formato de som?

A Qualidade do MP3
Bom, esse é o aspecto que mais gera controvérsias. Se o formato padrão de um CD (44Khz de amostragem e 16 bit) é questionado por muitos amantes do vinil, imaginem algo que ainda comprima ainda mais o som.
Em teoria, o MP3 não deveria ter perda. Mas o fato que é não é preciso ter um “ouvido absoluto” ou ser João Gilberto, para sacar que algo está faltando quando se ouve um MP3. Experimente passar uma música que você conheça bem, mas bem mesmo, para MP3, usando o bitrate (taxa de compressão) padrão de 128kbps. Escute os dois arquivos e certamente dará por falta de alguma coisa, seja na voz, orquestra, percussão ou no próprio volume do MP3.
Se não se convencer, tudo bem. Alguns só convertem em taxas maiores como 320 kbps. Mas ainda assim há perda de material.
Não condeno o formato.
Mas a indústria fonográfica não precisava ficar em polvorosa quando surgiu o Napster (1999), criado por um universitário de 19 anos em Boston - Shawn Fanning.
Ele só queria trocar arquivos com seus amigos pela Internet. Porém criou uma revolução no modo de ouvir música.
Hoje, qualquer celular, DVD player, iPods e até TVs reproduzem o formato MP3. Seu computador é capaz de converter sem esforço um CD para MP3. 

A Reação da Indústria Fonográfica
Foi desproporcional e só incentivou a pirataria.
André Midani, executivo de várias gravadoras brasileiras e estrangeiras, disse em sua autobiografia que: “aqueles universitários queriam ser comprados, não processados”. Ele tem razão.
A proibição e os processos contra o Napster, Audiogalaxy, pessoas físicas e outros sites de compartilhamento foram inócuos e criaram a ilusão da música gratuita.
Outros formatos como o Ogg Vorbis, WMA, o Flac, e o MP3pro não foram tão populares mas ainda existem.
Bastaria - na minha humilde opinião -convencer que o som em MP3 não era uma maravilha. Você conhece algum artista que grave e lance seu disco em MP3? Quando muito, é faixa bônus.
Lembrando sua origem, o MP3 foi uma solução para transmissão de áudio - especialmente voz - por linhas telefônicas. É um formato que fica bem melhor quando escutado em fones de ouvido do que em boas caixas acústicas e as gravadoras sabem disso. Tanto que remasterizam as músicas “empurrando” tudo que se ouve numa canção para o primeiro plano, para caber  naquele fone minúsculo ou alto-falantes de computador de qualidade duvidosa.
A indústria fonográfica ainda detêm as fitas master de tudo que produziu e lançou.
Hoje, o download legal e pago cresce no mundo inteiro, ao passo que o ilegal continua mas sem a mesma força. Hoje, consomem-se faixas avulsas e distorcidas.
Toda uma classe de profissionais sofreu, principalmente os designers gráficos, fotógrafos e outros que faziam a identidade visual de um CD.
Quando surgiu a ameaça do Napster e clones, as gravadoras estavam prestes a lançar discos no formato 5.1, com uma taxa de amostragem maior que os 44Khz e com 20, 24bit. Simplesmente desistiram de nos oferecer algo melhor que o CD comum - uma invenção do início dos anos 80. Acho que estão dando um tempo e vão vender muito MP3. Você já olhou as taxas de compressão dos arquivos MP3 vendidos no iTunes, 7Digital e outros sites? Veja.
A tecnologia de gravação estereofônica já estava disponível bem antes do primeiro aparelho de alta-fidelidade estar à venda.
Quando os aparelhos estéreo invadiram as lojas de departamentos nos anos 60, as gravadoras relançaram tudo de novo.Todos trocaram seus LPs mono por estéreos.
Por isso, não se desfaça de seus CDs. Muitos ainda se arrependem de ter jogado fora seus LPs. Não converta sua audioteca para MP3, exceto para ouvir no seu iPod e aparentados. Guarde seus discos: sejam CDs ou os velhos LPs. Bom, guarde seus MP3 também porque sua manipulação frequente também traz mais prejuízos sonoros.
Recomendo que conserve os originais e manipule as cópias. Talvez, um dia, seja possível fazer algo melhor com eles.

A indústria fonográfica só está aguardando o momento para tentar fazer o sempre conseguiu: vender de novo aquilo que já compramos no passado, sejam discos ou não e seus novos aparelhos.

Hoje, não tem link do YouTube, tem indicação de livro, que embora esgotado, vale a pena procurar:
Música, Ídolos e Poder – do vinil ao download, André Midani, Editora Nova Fronteira, 2008.

Jacy Dasilva

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Masterização e Remasterização


Após a conclusão da gravação de uma obra musical, temos uma fita (digital ou analógica) com os canais correspondentes aos microfones que colocamos durante a sessão. É o resultado multicanal  - mas bruto - de vários instrumentos musicais e voz ou vozes.
Para chegarmos até aí, foram necessários ajustes de volume de entrada para cada instrumento (com suas particularidades sonoras e de captação) e a voz.
Essa gravação não pode ter um volume nem muito baixo, nem muito alto, ou saturado.
Toda essa massa segue para o processo de mixagem, que é o ajuste dos volumes, com ou sem ecos, remoção dos ruídos, realce de vocais ou instrumentos e suas distribuições espaciais. O resultado deve ser um som limpo de cada instrumento, clareza nos vocais e bem distribuídos nos canais direito e esquerdo. Mas essa etapa produz uma fita master que soará bem apenas no estúdio. Para que ouçamos de forma ótima num LP, CD, DVD, rádio ou cinema é que existe a masterização.

Masterização
O engenheiro de master é a pessoa que vai trabalhar na fita multicanal, oriunda do estúdio de gravação e que já passou pela mixagem. O que se faz numa masterização? Prepara-se o conjunto de faixas para a execução – da primeira até a última faixa – com o mesmo volume e impacto sonoro, sem perda de qualidade.
Para cada veículo, seja rádio, CD, ou LP existe uma “receita” de equalização e masterização. Imaginem um LP: uma bolacha de vinil que é sulcada (em cada lado do sulco temos o canal direito e esquerdo) em espiral. No sulco, uma agulha lê as informações sonoras contidas em suas ranhuras, sempre com a mesma massa sonora e qualidade. A primeira faixa é sempre a mais ampla e a última mais curta. Pense bem: como é possível ouvir bem esses dois extremos? Porque a masterização permite a compressão sonora de acordo com o diâmetro da faixa.
A fabricação de LPs exigia uma cadeia de mão de obra qualificada que não temos mais hoje nos tempos digitais. E para os CDs, deveríamos exigir o mesmo capricho.

Remasterização
A remasterização deveria sempre ser o assim: a fita master original ser enviada a um engenheiro de som especializado na conversão digital para que o melhor som saísse de um CD. Mas não é isso o que acontece. Até hoje compramos gato por lebre.
Nos primórdios da fabricação dos CDs, os tapes analógicos que davam origem aos LPs e fitas cassete eram os mesmos usados para gravar os CDs. Por isso, nossos primeiros CDs, dos anos 80, tinham o som baixo e um ruído semelhante aos dos cassetes. E boa parte do que possuímos em CD são fitas cassete de validade indeterminada. Quando muito, foram equalizadas para CD, pois a equalização para LP é diferente.
As gravadoras demoraram a liberar os originais, pós-mixagem (analógicos ou não) para a feitura dos CDs de forma mais profissional – que é a remasterização.
Devido a esse atraso, compramos CDs de um mesmo músico que soam, ora alto, ora baixo, dependendo da fonte utilizada. Não que todos os CDs devam ser altos, mas que soem naturalmente sem chiados, com vocais destacados o suficiente e instrumental limpo e bem distribuído.
Infelizmente, o que temos atualmente é uma batalha para se fazer o CD mais alto, sem a devida dinâmica, proporção e distribuição de voz e instrumentos – tudo soa muito alto e num mesmo nível.
Os CDs atuais, quando tocados em casa, automóvel ou ao ar livre parecem com uma banda tocando a todo vapor ao mesmo tempo bem a nossa frente, sem nenhuma ou quase nenhuma noção de profundidade.
Por causa disso e outros fatores, muitos preferem – com razão – seus LPs aos CDs. E também por isso, a indústria fonográfica vende novamente o que já compramos anteriormente, só que com o rótulo - nem sempre legítimo  -"remasterizado".
Jacy Dasilva  

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

John Lennon (1940-1980)

Há 70 anos nascia - em plena Segunda Guerra Mundial - John Winston Lennon, em Liverpool, Inglaterra.
A lembrança de seu nascimento é o motivo do post.
Falaremos sobre ele muitas vezes no Phonopress.
Jacy Dasilva

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Feelings – Morris Albert (1975)

A música foi composta em 1973, mas em 1975 "Feelings" ganhou as paradas de sucesso do mundo inteiro.
Vivíamos, aqui no Brasil, a época de ouro dos “falsos importados”.
Quem foram eles?
Eram cantores brasileiros que cantavam em inglês e, que vez por outra, até fingiam ser estrangeiros.
Muitas canções desse período fizeram sucesso no Brasil e nos países vizinhos, como “Tell Me Once Again” do Light Reflections, “My Mystake” do Pholhas, “Don´t Say Goodbye" com um Chysthian pré-sertanejo, “Don´t Let Me Cry" com Mark Davis, mais conhecido como Fábio Jr. e muitas outras. Porém, nenhuma alcançaria o sucesso da composição de Morris Albert, chamada “Feelings”.

Morris Albert
Nasceu em São Paulo,1951 e foi batizado como Maurício Alberto Kaisermann. Neto de ingleses, afirma que teve muita influência dos Beatles, Johnny Rivers e Antônio Carlos Jobim. Fundou e participou de diversos conjuntos musicais nos anos 1960, que só se apresentavam com repertório em inglês.
Seu conjunto tocou na inauguração da cervejaria Canecão, casa de shows famosa no Rio de Janeiro.
Muitos grupos cariocas e paulistas faziam a mesma coisa na época.
Os jovens queriam ser Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan ou Elvis.
Indo além, ao redor do mundo, muitos grupos e artistas isolados começaram a compor e gravar em inglês:
Wallace Collection (Daydream) era belga;
Yellowstone & Voice (Philosopher) e Jacky Jones (Take My Heart) eram italianos;
The Shocking Blue (Venus) era holandês;
Junior (Excuse Me, Give Me a Second Chance) era espanhol e
Demis Roussos (Ever Forever and Ever, etc.), um egípcio, criado na Grécia.
Logo, para um jovem bilingue como Morris Albert, escrever canções em diretamente em inglês era muito natural.
Feelings foi composta a partir de uma paixão platônica de Maurício por uma carioca – ele tinha 19 anos e ela 30.
Mas o problema não era a diferença de idade: ela era uma dama da sociedade muito comprometida e conhecida.
Morris crê que ela sabe da homenagem. Apesar da insistência da imprensa, ele nunca revelou seu nome.
A música foi composta por ele -na maior fossa -, em São Paulo, numa única madrugada. Em 1973, gravou seu primeiro LP para o selo Beverly, ligado a Copacabana discos e Feelings entrou de última hora.
No compacto que antecedeu o LP, a ser divulgado nas rádios, Feelings era Lado B, "Woman" era a música de trabalho.
Os arranjos, muito elogiados no exterior, são do maestro Waldemiro Lemke (1924-2010), com a base do conjunto Os Carbonos e piano de Mário Casali.
Ele não esperava sucesso, só queria expressar o amor impossível – e conseguiu.
A composição foi inserida na trilha sonora internacional da novela Corrida do Ouro, da TV Globo, exibida entre 1973 e 1974. A música ganhou o mercado latino e uma versão chamada “Sentimientos” foi lançada (Disco de Ouro no México), alcançando o mercado americano em seguida.
A interpretação sincera - com inglês impecável na pronúncia e vocal - foi tão marcante, que até hoje, nos Estados Unidos, pensam que Morris Albert é americano. Recebeu Discos de Ouro no Brasil, Estados Unidos e pela Europa.
Foi cantada em shows por Frank Sinatra e Elvis, gravada por Nina Simone, Perry Como, Johnny Mathis, Andy Williams e Dionne Warwick e Isaac Hayes em dueto. Orquestras ao redor do mundo fizeram o mesmo.
Nos anos 80, a atriz Michelle Pfeiffer cantou-a no filme Susie e os Baker Boys (The Fabulous Baker Boys, 1989).
Recentemente, foi gravada uma versão punk pela banda Offspring.
Em 2004, por um elegante Caetano Veloso no disco A Foreign Sound.
Mas ter criado um standard da música mundial teria um preço.

A Acusação de Plágio
Em 1988, uma corte da Califórnia declarou que Fellings era plágio de uma obscura obra chamada “Pour Toi”, composta em 1956 por um desconhecido Loulou Gasté para um anônimo cantor Line Renaud.
Morris afirmou, em sua defesa, que as melodias eram até semelhantes, mas que nunca havia sequer ouvido falar dela. Perdeu a ação na corte americana.
Mas o mundo musical sabe dos oportunismos que cercam as alegações de plágio.

Em 1977, após turnê mundial, lotou o Maracanãzinho ao som de Feelings e dois novos clássicos compostos por ele: “She´s My Girl” e “Conversation”.
Nos anos 1980, ainda alcançaria as paradas de sucesso com “Do You Miss Me”, uma bela canção.
Em 2004, já morando na Itália, veio ao Brasil para apresentações em várias cidades e lançar disco novo. Em entrevista concedida à revista Isto É, afirmou que, apesar de morar fora do país, nunca trocou de passaporte e que se sente um compositor brasileiro. A declaração pode parecer extravagante, mas ele tem razão.
Na França, alguém se atreve a dizer que, o armênio de nascimento, Charles Aznavour não é um compositor francês?
Ives Montand (1921-1991) era italiano; Adamo, idem.
Jacques Brel ("Ne Me Quite Pas") é belga.

A Geléia Sonora Brasileira
A música brasileira sempre recebeu a influência externa.
É o que é hoje porque soube aproveitar da influência estrangeira e transformá-la em  produto 100% nacional.
Do contrário, tocaríamos chocalhos e bateríamos tambores com os índios.
Apenas para ilustrar.
Ernesto Nazareth compôs tangos e valsas, Chiquinha Gonzaga também.
Ivon Cury (1928-1995) cantava, essencialmente, em francês.
A partir dos anos 40, o Brasil foi invadido pelo bolero – que muito contribuiu para o nosso samba-canção. Do bolero à brasileira vieram Dolores Duran (1930-1959), Ângela Maria e outras.
Dick Farney (1921-1987), exímio pianista de jazz, custou a gravar em português - só cantava em inglês.
O mesmo jazz americano influenciou nosso samba, derivando na bossa nova - modernizando para sempre a música brasileira e a própria música americana, em retorno.
Nos anos 1960, Caetano Veloso no exílio compôs “London, London”, que é uma jóia da nossa música. O mesmo faria Gilberto Gil com “Crazy Pop Rock”. São estrangeiros por isso?
A maior dupla de compositores brasileiros - Roberto e Erasmo – é, ao mesmo tempo, fã de Cauby Peixoto, de rock, samba e bossa nova.
Nossa música popular é a melhor do mundo pela mistura de influências que se permitiu ter. E essa mistura permanece até hoje.

Assim, Morris Albert é um compositor brasileiro que, juntamente com Antônio Carlos Jobim e Ivan Lins, são os autores brasileiros mais executados e gravados no mundo.

Feelings é MPB – sem polêmica, sem patrulha.

Nota Fora da Pauta

Nota 1 - Morris Albert nasceu num 7 de setembro, dia de nossa independência.

Jacy Dasilva

sábado, 2 de outubro de 2010

Pedacinhos do Céu - Waldir Azevedo (1951)

Em 1947, Jacob do Bandolim (1918-1969) estava desgostoso porque seus discos não vendiam pela gravadora Continental, cujo diretor artístico era Braguinha, o João de Barro (1907-2006).
Jacob pediu pra sair da gravadora e Braguinha aceitou.
No mesmo ano, a Continental contratou Waldir Azevedo (1923-1980) para seu lugar.
Jacob, inexplicavelmente, não se ressentiu tanto com Braguinha, mas foi crítico feroz de Waldir pela vida inteira.
Jacob do Bandolim não precisava disso, já que seu talento é lembrado até hoje.
Waldir Azevedo, recém-contratado, gravou Brasileirinho e conquistou o país. Em seguida, “Delicado”, com regravações ao redor do planeta.
Em 1951, em homenagem a filha recém-nascida, compôs “Pedacinhos do Céu” - obra-prima instantânea -, que gerou cartas de gravadoras do mundo inteiro perguntando sobre a técnica usada para o registro do bandolim.
Por quê?
A gravação tinha um certo efeito e perguntavam: qual a marca da câmara de eco? O técnico de som respondia às cartas com uma única palavra: Celite.
Isso mesmo, Celite, a famosa marca de azulejos e outras peças de toalete.
O técnico de som colocou um alto-falante no banheiro do estúdio e um microfone no mesmo (além do usado para o bandolim) para capturar o eco dos azulejos e conseguiu o tal “efeito revolucionário”.
A história pode ser contada melhor em livros especializados, ou na recente série da Folha - Raízes da MPB.
O YouTube traz uma regravação, dos anos 60 pela EMI-Odeon - que também tem eco.

Jacy Dasilva


Love Is All - Malcolm Roberts (1969)






No país da Bossa Nova - quando ainda era moderno cantar baixinho -, é difícil imaginar que um cantor de vozeirão fosse nos encantar ainda nos anos 1960. Leia e confira.

Um pouco de história
Os Festivais Internacionais da Canção, realizados no Rio de Janeiro, procuravam talentos, assim como os Festivais da Record, em São Paulo.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivan Lins, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti e muitos outros foram revelados nesses concursos.

Em 1969, o Brasil vivia sob o AI-5 de Costa e Silva.

Fala-se muito no termo AI-5, mas vou lembrar de 3 artigos fundamentais para entender seu impacto: o governo poderia prender qualquer um considerado subversivo sem direito a habeas corpus; ser impedido de trabalhar e ter seus bens confiscados.

Foram tempos difíceis.

Em maio de 1969, o noticiário internacional acompanhou o sequestro do embaixador americano, sua libertação e as prisões, torturas, desaparecimentos subsequentes.

Assim, o Brasil tornou-se um destino desaconselhável aos membros do jet-set estrangeiro (termo antigo para o atual celebridade), que eram convidados pelo regime para simplesmente assistirem aos festivais. Tudo era custeado pelos cofres públicos.

Naquele ano, muitos artistas internacionais alegaram razões de segurança e cancelaram suas vindas – Jack Jones, Jane Fonda, George Harrison, Frank Pourcel e outros.

Por outro lado, o movimento de brasileiros que buscavam liberdade e proteção no exterior já estava em andamento.

Em 1969, o festival seria gravado em cores para exibição na Europa. No Brasil ainda não havia programas em cores – que chegou no início dos anos 1970 – e os militares gostaram da idéia de transmitir um Brasil colorido ao exterior.

Porém, o país vivia as cores permitidas: cinza-chumbo e verde-amarelo. E o verde era o verde-oliva. Os festivais internacionais eram propositadamente realizados para que artistas brasileiros vencessem a final. Tudo bem, havia um vencedor internacional e um nacional que competiam na grande final no Maracanãzinho.

O prêmio era um troféu chamado Galo de Ouro (desenho de Ziraldo) e dinheiro.

Os competidores brasileiros, cheios de talento, dispensavam tal marmelada, mas ela existia. Um exemplo apenas: o LP da Philips do Festival de 1968 traz uma representante do Japão chamada Tamico, interpretando “Just Friends”. Tamico residia em Niterói.Os representantes estrangeiros eram enviados pelas gravadoras ao Brasil – mais para uma exibição de produto do que para vencerem.
Assim vieram: Wallace Collection, Hervé Villard, Françoise Hardy e Jimmy Cliff. De todas as músicas estrangeiras apresentadas, a mais lembrada é “Love is All”, mas quem foi seu intérprete?


Malcolm Roberts

Nascido em Manchester, 1945, começou a cantar ainda na escola, em troca de restos de merenda e moedas. Tinha uma voz poderosa para uma criança e chegava a faturar 15 libras por semana apenas cantando.

Na adolescência, passou a acompanhar seu pai, cantando em bares e assumindo o piano e voz quando seu velho já estava afetado pelo álcool.

O talento foi percebido e frequentou a escola de música e artes de Manchester.Participou de produções locais e semiprofissionais de musicais americanos.

O agente da cantora Shirley Bassey conseguiu seu primeiro contrato com a gravadora RCA. Gravou seu primeiro sucesso “Time Alone Will Tell” e atuou em novelas inglesas.

Pela gravadora inglesa Major Minor foi mandado ao Brasil em 1969 para defender o Reino Unido com “Love is All”.
A composição da dupla Reed-Mason (It´s Not Unusual, There´s a Kind of Hush, Delilah, The Last Waltz, Sylvia e outras) foi escrita especialmente para a voz de tenor de Roberts, com arranjo orquestral de Les Reed - produtor de muitos grupos ingleses do período da “British Invasion” e o técnico de gravação foi o mago Alan Parsons.
Malcolm tinha 24 anos e chegou ao Rio sem despertar atenção mas esbanjava simpatia.

O único competidor sério era o já famoso cantor americano Bill Medley (da dupla Righteous Brothers) que defenderia uma composição do gênio precoce Jimmy Webb, chamada Evie. Eram os favoritos, eram americanos, mas não deu.

Existe uma história, sem confirmação, de que um jurado japonês votaria no americano. Duvido dessa versão, já que Evie não empolgou e Bill Medley parecia não saber o que estava cantando.

A mesma Evie só faria sucesso no Brasil na voz e bela interpretação de Johnny Mathis de 1971, tornando-se tema do Jornal Hoje.

Na final internacional, Bill Medley mal cantou, pois estava cercado de vaias que só aumentavam devido a péssima acústica do Maracanãzinho. O público queria o inglês vencedor.

Love is All” ganhou o coração dos 40 mil torcedores do estádio e conquistou o país.

A vencedora do festival foi “Cantiga por Luciana”, cantada por uma Evinha, de 18 anos e afinadíssima. Mas essa história, conto outro dia.

Malcolm retornaria várias vezes para cantar em terras brasileiras.

Apresentou-se em casas noturnas e programas de televisão – de maior ou menor reputação – durante os anos 70 e 80.

Através do sucesso no Brasil é que ficou conhecido na Europa. Cantou em festivais europeus, viveu nos Estados Unidos e, nos últimos anos, esteve envolvido na promoção de artistas como R. Kelly e Take That.

Infelizmente, nunca ganhou um centavo pela gravação original de “Love is All” e, muito menos os Discos de Ouro que tinha direito. O selo Major Minor faliu e não pagou a ninguém. Malcolm recebeu algum dinheiro quando a regravou em outros selos.

Vista hoje, sua interpretação e voz podem parecer exageradas e fora de moda, mas é impossível resistir ao carisma do cantor e à beleza da canção.

Ele acreditava no que estava cantando - requisito fundamental a um intérprete.
No novo vídeo (cortesia da Rede Globo, Brasil) é possível ver a atenção que despertou nos próprios músicos da orquestra que o acompanhava.

Faleceu em 2003, antes de completar 58 anos, e deu ao seu último disco o nome “Rio”.

Naquele tempo, acreditávamos que as canções poderiam mudar o mundo, que o amor era importante – era tudo.


Notas Fora da Pauta

Nota 1 - Evinha saiu vencedora com "Cantiga por Luciana" e Malcolm foi um dos primeiros a cumprimentá-la pela vitória.

Nota 2 - Malcolm regravou várias vezes uma versão em inglês de "Cantiga por Luciana", mantendo o nome original da canção.


 

Jacy Dasilva

Bolero – Maurice Ravel (1928)


Talvez seja a composição erudita mais popular da história. Muitos a consideram seu clássico favorito.
Mas foi uma obra feita sob encomenda. Isso mesmo.
A bailarina Ida Rubinstein (1885-1960) pediu a Ravel que compusesse uma peça para balé, com toques de música espanhola, a ser coreografada por Nijinski (1890-1950).

Ravel não queria aceitar e ter que compor, mas devia favores a Rubinstein – frequente financiadora de talentos. Pensou em adaptar uma peça do espanhol Albéniz (1860-1909), mas não conseguiu permissão da editora musical.
Restou-lhe fazer algo original.
E antes que continue, cabe uma breve explicação sobre teoria musical.

A nota musical é o sinal gráfico de uma onda sonora, uma frequência medida em Hertz. O timbre é o som que cada instrumento particular produz com cada nota. É o timbre que distingue o instrumento. O compasso é a forma de dividir quantitativamente a execução das notas e os silêncios entre elas.


Maurice Ravel
Nasceu na parte basca da França em 1875 e faleceu em Paris em 1937.
A história registra a influência de Debussy (1862-1918) em sua obra.
É verdade que foram contemporâneos e havia um relacionamento cordial entre ambos. Ravel chegou a orquestrar obras que Debussy fizera apenas para piano.
Ravel era polêmico em seu tempo, chegando a recusar prêmios e títulos. Era independente demais no modo de compor e tinha a fama de aluno dedicado, mas preguiçoso.
A encomenda de madame Rubinstein veio em boa hora.


A Composição
O Bolero é uma obra-prima de uma arte perdida – a orquestração.
Ravel compôs uma única frase musical, de cerca de 16 compassos, divididos em 2 partes de 8. O ritmo é o mesmo o tempo todo. Então, é tudo a mesma coisa? Não.
A obra começa com o tambor e o cello percutido marcando o ritmo. Uma flauta inicia a melodia hipnótica e obsessiva que vai repetindo as mesmas notas. Ao longo de sua execução, outros instrumentos trazem novos timbres à mesma frase musical, como o clarinete.
O ouvinte é levado a conhecer praticamente todos os instrumentos da orquestra. O conjunto se mantém em ascendência, num crescendo, até que há uma mudança, bem no final, de forma dramática e apoteótica.

Bolero estreou em novembro de 1928 e foi um sucesso, inclusive entre os maestros daquele tempo.
Houve um escândalo com a coreografia de Nijinski, considerada sensual demais – o que marcaria a obra para sempre.
Dos anos 1930 até os 1980, Bolero foi utilizada em filmes, nas cenas mais apimentadas e ganhou a fama de afrodisíaca.
Ravel costumava dizer que fora apenas um “exercício de orquestração” e ficou surpreso com a grande aceitação da obra. Passou a fazer parte do repertório clássico instantaneamente, mesmo sem balé.
É a obra francesa mais executada no mundo até hoje.
Existem divergências quanto ao seu tempo de duração, que vão de 9 até 17 minutos, porque Ravel cometeu um erro quando escrevia a pauta musical.
Numa entrevista ao Daily Telegraph, disse que o tempo ideal girava em torno dos 16 minutos.
Podemos encontrar boas gravações no mercado pela Filarmônica de Viena, Berlim e a Royal Philharmonic.

As lojas online costumam ter os CDs.

Jacy Dasilva