quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Lista - Oswaldo Montenegro (2008)

Phonopress despede-se de 2010 lembrando de uma música de 2008, muito embora Oswaldo Montenegro já tivesse gravado a mesma em seus tempos de RGE e Warner Music.
Em 2008, relançou-a pela Somlivre com sucesso.
Oswaldo é um menestrel revelado nos festivais universitários nos anos de 1970.
Compositor e intérprete dedicado, também se dedicou aos musicais e peças de teatro.
Oswaldo tem público cativo. Nem no auge de sua carreira, deixou o sucesso subir-lhe a cabeça.
Em "A lista", propõe que repensemos o nosso papel individual como amigo.
Como nos comportamos sendo amigo de alguém?
Somos fiéis aos nossos ideiais? Somos coerentes?
Sim, é uma canção sobre a amizade, iniciativa atualmente confundida com "networking".
Mas não declara uma amizade incondicional, nem almeja alcançar um milhão de amigos.
O mote é a auto-reflexão.
Obrigado aos amigos que prestigiaram meus "grandes textos".
O autor de Phonopress faz e mantém amizades há mais de 40 anos.

Jacy Dasilva


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Boas Festas – Assis Valente (1932)

Em 2011 comemoraremos o centenário de nascimento de Assis Valente, mais um pioneiro de nosso samba.
Nasceu na Bahia em 1911 e faleceu no Rio de Janeiro em 1958.
Em sua breve existência, Assis Valente foi prático de farmácia, artista de circo, estudou desenho, ilustração, escultura e prótese dentária (formado pelo Liceu de Artes e Ofícios de Salvador) e compositor.
Veio para o Rio Janeiro em 1927 e vendeu algumas ilustrações para as revistas “O Cruzeiro”, “Fon-Fon” e outras.
A vida de freelancer na imprensa já era dura naqueles tempos.
Resolveu abrir um consultório como protético e foi bem-sucedido na profissão, chegando a ser considerado um artista pelos seus colegas.
Mas Assis gastava mais do que recebia. E também carregava uma tristeza incurável.
Heitor dos Prazeres (1898-1966) incentivou Assis a compor seus primeiros sambas.
Assis Valente nutria uma paixão platônica por Carmen Miranda (1909-1955), que gravou cerca de 25 composições dele. Carmen recusou “Brasil Pandeiro”, feita especialmente para ela, possivelmente evitando alimentar um sentimento que ela não nutria por Assis.
Compôs cerca de 100 sambas, marchas e marchas-rancho.
Destaco algumas pelas quais sempre é lembrado: “Brasil Pandeiro”, “Cai, Cai, Balão”, “E o Mundo Não se Acabou”, “Recenseamento” (indico a gravação de Ademilde Fonseca), “Camisa Listada” (procure a gravação com Maria Bethânia acompanhada do piano inesquecível de Luiz Carlos Vinhas), “Boneca de Pano” e “Fez Bobagem”.
Em 1932, morava num quarto ou cubículo (o termo varia conforme os autores pesquisados) na praia de Icaraí, Niterói, quando compôs “Boas Festas”, a música natalina brasileira mais famosa.
Os biógrafos acrescentam que a inspiração veio de um desenho no qual uma menina coloca suas meias na janela e aguarda a visita de Papai Noel.
Da solidão veio a música carregada de tristeza e melancolia, mas de beleza que atravessou as décadas e o século.
A canção foi gravada várias vezes por Carlos Galhardo (1913-1985), pelos Novos Baianos em 1972 e mais recentemente por Maria Bethânia.
No vídeo do YouTube, a interpretação do mestre João Gilberto.
Boas Festas!

Jacy Dasilva


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Som – 4 Conceitos Básicos


Pode parecer desnecessário descrever ou explicar as definições para os termos técnicos mais básicos de gravação e reprodução.
Muitas vezes ouvimos de alguém ou lemos artigos que ainda confundem os conceitos de som estéreo com a alta-fidelidade.
Certo dia, ouvi alguém dizer que o som estéreo era a mera divisão dos sons graves e agudos entre os canais direito e esquerdo nos alto-falantes.
Não é.
Vou tentar ser breve nas definições.

Hi-Fi (High Definition) – A alta-definição ou Hi-Fi é o que o próprio nome anuncia: o conjunto de todos os meios disponíveis para captar, gravar e reproduzir o som da maneira mais próxima possível da realidade.
Às vezes é confundido com a definição de estéreo; não é.
Um som pode ter sido gravado nos melhores padrões técnicos possíveis e ser reproduzido em mono. Sim, podemos ter o Mono-Hi-Fi em LPs, CDs, DVDs e filmes.
Se você tem algum CD com gravações históricas de antigas Big Bands, lendas do Jazz, sabe que a tecnologia dos anos 30 para gravação e reprodução sonora não é a mesma que temos atualmente.
Os discos em alta-fidelidade tiveram que esperar o final da Segunda Guerra Mundial para serem lançados.

Mono ou Monofonia – Historicamente, foi o primeiro sistema de som. Uma parte significativa da discografia mundial está gravada no formato mono.
Os clássicos do cinema, também.
Mono é a escuta sem a divisão espacial, natural ao ouvido humano. Nós conseguimos distinguir ao mesmo tempo o som vindo pelo ouvido direito e esquerdo. Nas gravações mono ou monaural, temos toda a fonte sonora gravada num único canal. O som do telefone, interfone, celular é mono.
O melhor e mais duradouro som mono é o rádio.
Num filme temos, classicamente, três trilhas reservadas para os sons. Pela ordem: diálogos, som ambiente e trilha sonora. Mas se a transmissão do cinema não fizer a leitura individual dos canais e a sua reprodução em fontes separadas, teremos o som mono. E ouvimos muito mais som mono do que pensamos.
Como assim?
Isso mesmo. Boa parte dos filmes até os anos de 1980 eram lançados nos cinemas em mono.
Os cinemas tinham caixas de som atrás da tela para que pudéssemos ter a sensação real dos diálogos vindo da mesma origem que as imagens, mas era tudo mono. Se o cinema fosse maior e melhor, possuía caixas nas laterais da sala de projeção, mas o som do filme era o mesmo em qualquer lugar do cinema, sem a noção de espacialidade ou profundidade.
Boa parte das filmadoras atuais (nem vou lembrar do 8, Super-8, VHS e outros) ainda realiza a gravação do som em mono, embora a qualidade da imagem esteja cada vez melhor. Porém, o som mono atualmente tem alta-fidelidade.
Finalizando, o sistema mono não é ruim; é limitado apenas.

Estéreo – É a gravação e reprodução sonora que imita a audição humana. A definição é simples, mas para que tivéssemos um som realmente estéreo em nossa casa: rádio, LPs, CDs, DVDs e outros foram necessários décadas de espera.
O som estéreo foi inventado e patenteado por um engenheiro britânico, Alain Blumlein (1903-1942), em 1931 especialmente para a gravadora EMI. O projeto ficou engavetado. O mesmo Blumlein tem cerca de 200 patentes em seu nome, incluindo o radar.
O som estéreo capta o som através de vários microfones até uma mesa com vários canais de entrada. Cada microfone ocupa uma ou mais “pistas” de som. A mixagem das fontes leva em consideração a posição dos músicos, do cantor ou cantores,  e o poder sonoro de cada instrumento e da voz gravada. O produto final é estéreo quando consegue reproduzir o som original em sua amplitude (do ouvido direito ao esquerdo e todos os sons entre eles) e sua profundidade.
Uma sinfonia gravada num teatro ou estúdio (não importa aqui a mídia) ao ser ouvida deve reproduzir com fidelidade o mesmo som do teatro ou estúdio.
O piano tem as notas mais graves à esquerda do teclado e as mais agudas no lado direito. Ao gravarmos o instrumento esperamos a mesma característica.

Quadrifonia – Um experimento caro. A quadrifonia é o ancestral dos atuais sistemas estéreo multicanais (2.1, 5.1 e até 7.1).
A quadrifonia codificava o som estéreo que já conhecemos e adicionava canais traseiros contendo as reverberações ou ecos dos canais direito e esquerdo.
Os LPs tinham um selo escrito “Quadrifônico” e para sua reprodução eram necessários toca-discos e amplificadores específicos. Bom, você precisava ter quadro caixas acústicas e deveria estar posicionado no centro das mesmas.
Era caro demais, mas funcionava.
O disco mais famoso gravado no formato quadrifônico é “The Dark Side Of The Moon”, do Pink Floyd, 1973.

Notas Fora da Pauta

Nota 1 – Nos Estados Unidos, estéreo é sinônimo do próprio aparelho de som. Do mesmo jeito que nós, brasileiros, chamamos de gilete a lâmina de barbear.

Nota 2 – Nos anos 60 e 70, aqui no Rio, Hi-Fi era sinônimo de festas embaladas ao som de toca-discos.
Era comum ouvir: “O Hi-Fi de sábado estava ótimo!”.


Jacy Dasilva

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

John Lennon – 30 anos de seu assassinato

Foto: Camera Press/Bob Gruen. Fonte: O Globo online
Em 9 de outubro de 1980, Yoko Ono encomendou um presente especial para comemorar os 40 anos de seu marido, John Lennon: um avião sobrevoou o Central Park, soltando fumaça e desenhando no céu mensagens de feliz aniversário.
O casal estava animado com o lançamento de um novo álbum, “Double Fantasy”.
O lançamento da faixa “Starting Over” encerrava o jejum musical de 5 anos de John Lennon. O compacto logo alcançou os primeiros lugares de audiência e vendas, nas rádios e lojas de todo o mundo.
As críticas favoráveis e os comentários de que a canção remetia ao estilo de Elvis e Gene Vincent eram verdadeiras. “Starting Over” é um bom rock, de construção melódica básica, simples e com vocais duplicados. A música transmite a mensagem de recomeço amoroso aos casais maduros.
Aquele rock causava certa estranheza porque o gêneros dominantes nas FMs eram o funk (o clássico), o reggae (a última moda) e resquícios da disco music.
“Starting Over” tocou, agradou e John iniciou uma maratona de entrevistas. Com apenas uma música conquistou novos fãs e resgatou seus velhos admiradores do tempo dos Beatles e de sua carreira solo.
“Double Fantasy”, o álbum, saiu em no início de novembro, mas havia ainda trabalho de estúdio a ser feito porque John e Yoko já trabalhavam num segundo disco.
Em 8 de dezembro de 1980, John Lennon e Yoko Ono saíram do Edifício Dakota, endereço chique da rua 72, em Nova Iorque, conversaram com fãs, tiravam fotos e deram autógrafos.
John foi fotografado assinando um disco para um fã que da porta do prédio não saiu quando a limousine partiu levando o casal Lennon.
Ele esperou a tarde toda.
John e Yoko foram ao estúdio Hit Factory e deram uma longa entrevista a uma rádio local, a RKO. Na entrevista, John estava relaxado, fazendo brincadeiras e mostrava um otimismo nunca visto antes, não apenas com sua vida, mas com os vindouros anos 80.
Recontou sua trajetória musical, explicou seu ativismo político e reafirmou suas convicções num mundo melhor. Naquele ponto da vida, já havia feito as pazes com sua história e velhos desafetos.
Após a entrevista, John e Yoko voltariam juntos para casa pela última vez. Ela até queria jantar fora, mas John ainda queria ver o filho Sean, de 5 anos, acordado.
Mark David Chapman viajou do Havaí até Nova Iorque com uma missão: matar John Lennon. O carro estacionou, o casal passou pelo sujeito à espreita. Este chamou por John e atirou 5 vezes, pelas costas.
Foi o sujeito que John autografou o disco e tirou fotos com ele que o matou.
Um fanático assassinou John Lennon.
Sua morte trouxe luto ao mundo, sobretudo à geração que acreditava no poder quase subversivo das canções que pregavam a Paz e o Amor.




E o mundo chorou.
Quem foi essa pessoa?


John Winston Lennon
John Lennon nasceu em 9 de outubro de 1940, numa cidade portuária da Inglaterra, Liverpool, constantemente atacada pela aviação nazista. Calcula-se 5 mil mortes atribuídas aos ataques apenas na cidade.
Sim, ele já nasceu numa guerra. E cedo conviveu com o front de sua própria família.
John Lennon foi fruto de uma relação casual e sempre fizeram questão que soubesse disso, mesmo sem ter idade para elaborar muitas verdades que cercavam sua vinda ao mundo.
Seu pai, Alfred Lennon (1912-1976) era um marinheiro desertor na Segunda Guerra Mundial. Julia Stanley (1914-1958), mãe de John, era uma mulher que achava que a adolescência era eterna.
O casamento durou pouco.
John passaria vários anos culpando a guerra pela separação conjugal, negando a imaturidade dos pais.
Ambos tinham amantes de conhecimento público e John não era poupado das bebedeiras, de constrangimentos diversos e ainda dividia a cama com sua mãe e amantes. As biografias ainda mencionam a falta de alimentação regular.
Sua mãe engravidou de um amante, levou a gestação adiante e entregou uma menina para a adoção.
As brigas físicas entre os pais, avós maternos, paternos e cunhados despertavam a atenção da vizinhança e da polícia. E John assistia.
Passou temporadas em casas de vários parentes: era uma criança indesejada.
Ele foi órfão de pais vivos. Parece personagem do escritor Charles Dickens, mas foi de carne e osso.
E isso é apenas um resumo de sua primeira infância: uma boa coleção de fatores que levam à delinquência.
A rebeldia, com causas e motivos, nasceu em sua família.
Nos primeiros anos de escola, a dislexia e, principalmente, a agressividade verbal de John foram motivos de preocupação entre seus professores.
O menino tinha a língua afiada.
A irmã de Julia, Mary, acionou o serviço social britânico algumas vezes e, para que John não fosse enviado a orfanato, assumiu sua criação.
Mary é a famosa “Tia Mimi” (1906-1991), que não mediu esforços para dar um lar digno e educação àquela criança. Ela era o extremo oposto de sua irmã Julia: casada, religiosa e extremamente rigorosa.
Por conta da dislexia, foi inundado de livros.
John Lennon deu trabalho. Ele não seguia regras.
Dos primeiros anos escolares até a Liverpool School of Art, John teve um comportamento desafiador com colegas e professores.
Tia Mimi e o marido George deram a John o lar que toda criança necessita, além de educação. Ainda assim, seu pai Alfred o sequestrou, com intenções de levá-lo para a Nova Zelândia.
Tia Mimi chamou novamente a polícia, John foi encontrado e voltou para a casa.
Alfred Lennon só reapareceu na vida de John quando este já era um beatle  e para pedir dinheiro.
A mãe voltou a visitá-lo com certa regularidade no início da adolescência de John.
Ela ao menos tentou ser mãe.
É creditada a Julia a apresentação de John à música de Elvis Presley e a compra de um violão.
O tio George ensinou os primeiros acordes, além de incentivá-lo a desenhar e pintar. Ele morreu quando John tinha 13 anos.
Aos 17 anos, John perde a mãe, atropelada por um policial bêbado.
A ausência, a volta e a perda definitiva de Julia marcariam John definitivamente.
Tia Mimi fez o possível para que John não seguisse a carreira musical, que considerava sem futuro. E adiantaria se opor?
A música foi a forma saudável e possível de dar vazão e expiar os abandonos e às sucessivas perdas.
John chamou amigos para montar uma banda, ainda que quase nada soubessem de música. “Tiravam” acordes ouvindo discos de seus ídolos: Elvis, Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino.
Vieram as amizades e as bandas, “The Quarrymen”, e depois, “The Beatles”.
John identificou-se com Paul McCartney, pois este aos 13 anos perdera a mãe para um câncer de mama. Paul traz George Harrison. Ringo Starr, o mais velho de todos, chegou por último.
John Lennon namorou, engravidou e casou com Cynthia Powell, um modelo de bom comportamento. Ela é a mãe de Julian Lennon, nascido em 1963.
Com o sucesso inicial dos Beatles, John paga a hipoteca da casa de tia Mimi e mantém seu sustento até morrer.
O sucesso dos Beatles é apontado como motivo para o fracasso do casamento com Cynthia. Mas o próprio John, com sucessivas traições acabou com o relacionamento. Ao juiz, Lennon alegou a infidelidade da mulher como razão para o término.
Ele não acreditava nos relacionamentos afetivos nessa altura da vida. Duvidava que alguém pudesse amá-lo. Traía antes que o traíssem ou o abandonassem.
Sua infância  e juventude explicam as contradições e comportamentos controversos que seguiriam John por toda a vida.
Em 1963, numa apresentação no Royal Variety Show, com a presença da rainha Elizabeth II, John se dirige à platéia e diz:

“Quem estiver nos lugares mais baratos, batam palmas; os outros, nos assentos mais caros, apenas sacudam suas joias”.

A imprensa se deleitava com essas e outras tiradas, nem sempre felizes.
Em 1966, John provocou a ira dos americanos – incluindo a Ku Klux Klan -  ao dizer:

“O cristianismo vai acabar. Somos mais populares do que Jesus Cristo agora”.

Radialistas, pastores e políticos americanos convocaram as pessoas a quebrarem e queimarem discos dos Beatles. Fogueiras foram fotografadas e filmadas em locais previamente anunciados pela mídia.
O empresário Brian Epstein, basicamente pai do grupo inteiro, comete suicídio em 1967.
Mais uma perda, não apenas para John, mas para todos.
Foi o início do fim.
John inicia carreira solo em 1968 e já não tem a mesma identificação com o grupo criado por ele.
No mesmo ano, uma batida policial apreende maconha na casa de John. Em verdade, o apartamento era de Ringo, emprestado ao casal. Ele assume a posse da droga, é condenado e paga uma multa.
Os Beatles terminaram oficialmente em 1970. Entre 1962 e 1969 produziram 13 álbuns e mudaram a cultura para sempre.
“A cada geração, os jovens descobrem os Beatles à sua maneira. E isso vai continuar. Vai sim.”
George Martin, o quinto beatle, em 2006

Yoko Ono
Nasceu em Tóquio, 1933. Sua família era abastada e freqüentou os melhores colégios no Japão. Seu pai era banqueiro. Yoko fez seus primeiros estudos de artes plásticas e música ainda no Japão.
É um clichê psicanalítico: filha de pais ricos que escolhe a carreira artística.
Sua família atravessa a Segunda Guerra incólume e, em 1952, Yoko vai para Nova Iorque estudar artes, incluindo piano clássico e canto.
Começa a construir sua reputação como artista de vanguarda de estilo provocativo.
Ela é uma das precursoras da arte performática e das chamadas instalações.
Sua tradicional família lhe impõe um casamento arranjado.
O matrimônio durou de 1956 até 1961. Foi internada pelos pais em instituição psiquiátrica.
Do envolvimento com outro artista, o americano Antony Cox, veio outro casamento e gerou uma filha, Kyoko.
Yoko Ono começa a ter sucesso com suas obras de vanguarda e viaja com suas exposições para várias cidades ao redor do mundo. Numa das viagens, chega à Londres como artista respeitada.
Quando Yoko conheceu John Lennon em 1966, os casamentos de ambos já estavam fracassados. Apaixonaram-se numa galeria de arte.
A separação oficial de Anthony Cox ocorreu em 1969. A custódia de Kyoko foi dada à mãe, Yoko.
Em 1971, o ex-marido sequestra a filha e viaja para os Estados Unidos.
John promete a Yoko trazer sua filha de volta e viajam para Nova Iorque.

New York City
John e Yoko chegaram a Nova Iorque e contrataram detetives particulares e advogados em busca de Kyoko.
Em 1971, Richard Nixon, republicano, comandava a maior nação do planeta. Os Estados Unidos estavam atolados na Guerra do Vietnã.
Em 1972, os jovens entre 18 e 21 anos votariam pela primeira vez para presidente. Isso mesmo, até 1972 apenas os maiores de 21 votavam para presidente.
Era a Guerra Fria.
O mundo estava dividido em zonas de influência americana e soviética.
A paranóia americana de que qualquer parte do planeta se tornasse comunista criou e sustentou várias ditaduras de direita ao redor do mundo, após a Revolução Cubana, em 1959. O Brasil entrou nessa em 1964.
A chegada do casal Lennon a Nova Iorque não passou sem a atenção do governo Nixon.
O poder de influência de Lennon - em solo americano - no eleitorado jovem foi minuciosamente estudado e temido.
As declarações e manifestações pacifistas de Lennon, ainda no tempo dos Beatles, foram estudadas pela direita americana. Nixon ambicionava a reeleição.
Composições como “Give Peace a Chance”, “Come Together” e “Revolution” influenciaram manifestações de paz ao redor do mundo.
Vale lembrar que a primeira transmissão televisiva mundial, via satélite, foi a performance ao vivo de “All You Need Is Love”, em 1967.
Nixon e assessores enxergavam  Lennon como um adversário pessoal e trataram de vigiá-lo.
A imprensa americana convidou o casal para entrevistas nas quais não escondiam o desejo de convocar manifestações pelo fim da Guerra do Vietnã.
Naquele tempo, usar a frase “Paz e Amor”, especialmente à mídia era o equivalente a assinar ficha em partido comunista.
O casal apoiou financeiramente todos os movimentos pacifistas e de liberdades civis que encontraram pela frente. John Sinclair, Jerry Rubin e Tom Hayden foram amigos. Ao apoiar mais radical de todos os movimentos, Os Panteras Negras, Lennon foi considerado um inimigo do estado, oficialmente.
Elton John e Eric Clapton também deram dinheiro aos Panteras Negras, mas não foram incomodados.
O governo Nixon não tolerava discordâncias. E mandou recado:

“Quando alguém no ‘show business’ comparece e participa de protestos políticos, essa pessoa – ele ou ela – estão fazendo algo que demanda muito sacrifício e até risco pessoal”.
 Richard Nixon, presidente americano entre 1968 e 1974.

O FBI, ainda liderado por Edgar Hoover, grampeou os telefones do Edifício Dakota, residência do casal. O mesmo Hoover havia participado ativamente da expulsão de Charles Chaplin, outro inglês, na década de 50.
Agentes seguiam John e Yoko em toda a parte.
Estes, em contrapartida, contrataram um ex-agente do FBI como segurança particular, que repetidas vezes alertou para a vulnerabilidade do Edifício Dakota.
Ele tinha razão.
John e Yoko não se intimidaram e prosseguiram fazendo shows, bancados por eles próprios. Conseguiram libertar John Sinclair (ativista preso em 1969, condenado a 10 anos) um dia após o show de 10 de dezembro de 1971. Stevie Wonder, Bob Seger e outros artistas também se apresentaram.
Em várias entrevistas, o casal Lennon comunica a vigilância e as ameaças que recebem.
John Lennon nunca foi comunista ou antiamericano. Pelo contrário, amava o país, especialmente a cidade de Nova Iorque.
Nunca foi anarquista, tampouco pretendia derrubar governos. Estava, como muitos de sua época, engajado nos movimentos de direitos humanos e contra a Guerra do Vietnã.
Ainda na Inglaterra manifestou-se contra o apoio britânico ao conflito e ausência de interferência internacional na Guerra de Biafra, país que tentou entre 1967 e 1970 a independência da Nigéria. Foram massacrados.

“Se eu canto ‘She Loves You’, milhares escutam. Se canto ‘Give Peace a Chance’, também”.
 John Lennon

Nixon usou toda a máquina do governo para tentar neutralizar Lennon. Um senador republicano mandou para Nixon, ou melhor, para seu chefe de gabinete, uma boa notícia: por que não expulsar John Lennon dos Estados Unidos pela condenação por posse de maconha em 1968, em Londres?
         Uma nota do autor: os chefes de gabinete recebem as correspondências endereçadas  aos chefes de estado ou de governo. Por quê? Para que os chefes do executivo sempre possam dizer: “Eu não sabia de nada”. Familiar?
Começava o longo e custoso processo contra a deportação.
O governador, o prefeito de Nova Iorque e o jornal The Wall Street Journal defenderam abertamente o casal.
John Lennon, entre 1971 e 1975 produziu e lançou 6 álbuns, contendo o melhor daquilo que sabia fazer: letras ácidas em melodias simples, sem metáforas.
Foi o tempo do rock-combate. Mas havia lirismo e desabafos – da infância ao período beatle.
São inúmeras as canções que traduzem, ainda hoje, os sentimentos básicos da humanidade e o desejo de uma sociedade harmônica. Seu trabalho permanece atual.
Na música “God” (John Lennon & The Plastic Ono Band) destrói todos os mitos de sua vida. Afirma não acreditar em Deus ou Jesus. Mas é fotografado usando um crucifixo. Veja a famosa foto acima. No mesmo ano, lançou “Happy Xmas”, uma canção natalina. E disse:

“Somos todos Cristo e Hitler. Tentamos fazer contemporânea a mensagem de Cristo. Queremos que Cristo vença. O que ele teria feito se tivesse propaganda, TV, discos, filmes e jornais? O milagre atual é a comunicação.
Então, vamos usá-la”.

Entender Lennon é aceitar as contradições e conflitos humanos.
Os jovens de sua época criaram uma identificação imediata com seus discos.
Os políticos democratas também.
Em “Mother”, grita pela morte da mãe e pede a volta do pai. A faixa foi fruto de seu tratamento psiquiátrico – nada tradicional – a terapia do grito primal.
Em, 1972, no auge dos protestos contra a Guerra do Vietnã, lançou “Imagine”, hino pacifista em qualquer época. A música oferece uma utopia e convida o ouvinte a imaginá-la.
Os discos de Lennon eram o oposto dos trabalhos dos outros três ex-beatles, que primavam pelo tradicionalismo.
Lennon entregou-se ao experimentalismo nos estúdios. Seus álbuns, de gravações consideradas até pouco profissionais ou apressadas, tinham como objetivo a mensagem. Os encartes com as letras foram essenciais para isso. Muitas letras tinham um * como censura aos termos menos polidos.
O público e a crítica aplaudiram o poeta seco, cru e direto.
Para muitos, Lennon era um ativista quase quixotesco. E às vezes parecia mesmo.
Suas argumentações impressionavam pela simplicidade e convicção. Era quase impossível superá-lo num debate.
No mesmo ano Lennon alugou o Madison Square Garden e fez um misto de show e comício. Ao término, o público saiu do ginásio e marchou pelas ruas de Nova Iorque cantando “Give Peace a Chance”, pedindo o fim da guerra.
Em 1972, Nixon foi reeleito. Em 1974, renunciou após sua comprovada participação na espionagem da sede do partido democrata em Washington – o caso Watergate.

Jealous Guy
Mas Lennon tinha que aprontar.
Em 1973, John traiu Yoko numa festa. O casal se separou. John foi para Los Angeles e consumiu mais drogas que nunca. Paul McCartney ajudou John a largar a cocaína e reaproximou o casal.
A volta ocorreu em 1974, num show do amigo Elton John. O próprio Elton convidou Lennon ao palco e Yoko para o show.
Em 1975, a Guerra do Vietnã acabou de vez.
Em 9 de outubro, nasceu seu filho com Yoko, Sean. Ainda no mesmo dia, seu advogado, comunicou que o casal Lennon vencera a batalha pela permanência nos Estados Unidos.
Elton John é o padrinho de Sean Ono Lennon.
John lançou “Rock’n Roll”, um álbum de homenagens aos seus ídolos de juventude: Elvis Presley, Chuck Berry, Fats Domino, Gene Vincent, Little Richard e outros. A faixa mais conhecida é “Stand By Me” de Ben E. King.
A partir daí, John Lennon retirou-se da vida de discos, shows e protestos. Entre 1975 e 1980, John cuidou de seu filho Sean. Largou tudo para ser pai e criar uma família – o que sempre lamentou não ter tido.
Recebia amigos, reatou laços com todos que brigara no passado, mas não parou de compor ou ler jornais. Sim, ele nunca se alienou. São inúmeras as fotos de John deitado em sua cama e rodeado de jornais.
Em casa, registrava novas composições num gravador cassete.
Uma pena que não tenha feito o mesmo com um gravador de rolo, menos amador e tão comum nos anos 70 do século passado.
Yoko, filha de banqueiros, foi cuidar da vida financeira do casal. Depois de doar muito dinheiro, gastar com advogados, processos, shows e discos, a fortuna pessoal de John era pequena. Yoko investiu o dinheiro e comprou imóveis para John. Ele quase nada tinha em seu nome.
Mas em 1980, o casal decidiu voltar a fazer discos. Felizmente, John e Yoko, buscaram maior qualidade técnica.   





Working Class Hero
Foi pelo Lennon, pacifista militante, que o mundo chorou em 8 de dezembro de 1980.
Conseguiu se libertar do estigma beatle e construiu uma carreira musical própria e original.
Acabou com o sonho para ver a realidade, viver seu grande amor e o mundo que conheceu.
Lennon, ao contrário de muitos de sua geração, não morreu dos excessos em álcool ou drogas.
A morte violenta, por assassinato, pelas mãos de um fanático, foi chocante para o mundo inteiro.
Ainda não temos outro Lennon, nem teremos. Uma pena.
Hoje, temos artistas engajados em causas ambientais, pacifistas, a favor de todas os temas politicamente corretos. Temos até artistas colecionadores de órfãos. Tudo estrategicamente pensado pelos departamentos de propaganda e imagem pessoal dos artistas.
Não temos ninguém que seja tão "anti-establishment" como John Lennon foi. E precisamos. O mundo piorou bastante desde 1980.


Get Back
Se você leu até aqui, já deve ter esquecido algo.
E Kyoko?
Afinal, a procura por uma criança foi o motivo da ida de John e Yoko para Nova Iorque.
Kyoko foi sequestrada pelo pai  e levada para uma das muitas comunidades de cristãos fanáticos existentes nos Estados Unidos, daquelas que evitam o
contato com o mundo exterior.
Mas a notícia da morte de John Lennon chegou a todos os pontos do planeta.
Ainda na noite de 8 de dezembro, Yoko atende a um telefonema. Sua filha, Kyoko, que não via desde 1971, liga para ela.
The End
Yoko Ono esteve ao lado de John nos shows, protestos, discos e entrevistas. Basta ver os documentários da época.
Yoko fez de John um artista ainda melhor.
A morte de John fez com que os outros beatles aceitassem Yoko. Mesmo que, inicialmente por motivos financeiros, a união de todos pôde ser vista nos anos seguintes. 
Yoko lançou o material inédito de John ao longo das últimas 3 décadas.
Após a morte de John, Yoko cuidou da tia Mimi até seu falecimento em 1991.
Lentamente, Yoko retomou sua carreira como artista plástica. Seus trabalhos ainda chocam.
Yoko mantém uma fundação ambulante, um grande ônibus, que viaja pelos Estados Unidos para ensinar música e técnicas de gravação.
Em 2010, lançou toda a obra de John, em CDs, com qualidade sonora superior aos originais.
O público jovem tem mostrado interesse.
A fortuna de Lennon, administrada por Yoko, dá sustento a muitos familiares de Lennon que sequer o conheceram.
Os filhos Julian, Sean e Kyoko se visitam regularmente.
Lennon nunca atacou a instituição familiar.
John Lennon fez do mundo sua grande família.
Já está na hora do mundo fazer as pazes com Yoko Ono.

Jacy Dasilva
John Lennon, com sua morte, cumpriu a promessa de reunir mãe e filha.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Adoniran Barbosa - Saudosa Maloca (1951)



O maior cronista de São Paulo nasceu há cem anos – João Rubinato.
Veio à luz em Valinhos, interior do estado, no dia 6 de agosto de 1910. Rubinato começou a trabalhar ainda menino. O filho de imigrantes italianos foi entregador de marmitas, carregador na estação de trens e varredor de uma fábrica de tecidos dentre outros biscates.
A família mudou-se para São Paulo e João, que largara os estudos, passou a ler jornais, ouvir rádio, ir ao cinema e alimentou o sonho de ser um galã nas telas.
Foi rejeitado como ator, mas não se deu por vencido.
Trabalhou como vendedor ambulante, mascate. Dessas longas jornadas percorridas a pé e da observação do cotidiano dos bairros paulistanos mais simples, nasceu o compositor.
Em 1934, inscreveu-se num programa de calouros na Rádio Cruzeiro do Sul, cantou um samba de Ismael Silva (1905-1978) e foi reprovado. Insistiu e foi aprovado ao cantar “Filosofia” de Noel Rosa (1910-1937) e André Filho (1906-1974). Ganhou o emprego de cantor rapidamente e assim o perdeu, algumas semanas depois.
Culpou seu nome italiano, João Rubinato, pelo fracasso no samba.
Ele tinha um amigo chamado Adoniran, funcionário dos correios e admirava o sambista carioca, Luiz Barbosa (1910-1938). Rubinato transformou-se em Adoniran Barbosa.
Em 1935, Adoniran ganhou um concurso de marchinhas de carnaval, promovido pela prefeitura paulistana, com “Dona Boa”.
Em 1936, já era cantor de rádio e gravou seus primeiros discos em 78 rotações para a Columbia.
Trocou inúmeras vezes de emissoras de rádio e fazia de tudo: era cantor e rádio ator.
Em 1941, foi para a Rádio Record e iniciou parceria com Oswaldo Molles (1913-1967) na música mas, principalmente, na criação de personagens de programas humorísticos – “História das Malocas” é o programa mais lembrado. Neste imortalizou tipos como “Zé Conversa”, “Charutinho”, “Dr. Sinésio Trombone” e até um imigrante italiano chamado de “Giuseppe Pernafina”. Os programas de rádio, de grande audiência, levaram Adoniran ao cinema.
Em 1945, fez “Pif-Paf”, interpretando basicamente seus tipos do rádio. No ano seguinte, repetiu-se em “Caídos do Céu”.
Em 1952, surpreendeu a todos em personagem sério no filme “O Cangaceiro” de Lima Barreto (1906-1982). O filme seguinte foi interrompido e Adoniran ainda perderia o parceiro Oswaldo Molles, que trocou de emissora.
Mas ainda restava a música.

Saudosa Maloca
Como repórter musical, Adorniran ouviu a história de dois feirantes que haviam sido despejados de um cortiço prestes a ser demolido.
Adoniran colheu os fatos, colocou-se na história e fez um clássico de nossa música.
Uma casa abandonada ocupada por três sem-teto, a retomada do imóvel, sua demolição e a construção de um edifício em seu lugar - fatos tão comuns nas cidades brasileiras, que é difícil imaginar uma canção baseada nestes.
A canção tem início com Adoniran evocando a lembrança de um “senhor” para o fato de que o edifício alto fora antes uma casa habitada por ele, Matogrosso e o Joca - três sem-tetos.
A maloca era o lar dos três até que o dono do imóvel ordenou que fosse posta abaixo.
Cada  ‘táubua’ que caía, doía no coração”. Matogrosso não protesta, impedido por Adoniran, argumentando legalidade.
Conformados por Joca (“Deus dá o frio conforme o cobertor”), deixam o lugar para ocupar a grama da praça e cantar que os melhores dias de suas vidas foram vividos no casarão abandonado.
“Saudosa Maloca” narra a situação daqueles que não têm onde morar e invadem casas abandonadas. Adoniran descreve a verticalização das metrópoles brasileiras e as conseqüências sociais da cena urbana moderna.
A música foi composta em 1951 e São Paulo já era a maior cidade da América do Sul. Adoniram chegou a gravá-la no mesmo ano sem alcançar repercussão.
O sucesso veio com a interpretação dos Demônios da Garoa, em 1955.
O conjunto vocal – ainda em atividade – foi e ainda é o maior divulgador da obra de Adoniran Barbosa.
Adoniran cantou São Paulo como ninguém. Retratou seus habitantes, seus bairros e situações: despejos, festas, metrô, atropelamentos, paquera, noivado e casamentos. Mas não pense, você leitor, que Adoniran era tristeza – era pura ternura, irreverência e humor em suas composições. O sambista número 2 da metrópole é Paulo Vanzolini.
Em 1965, Adoniran venceu, no Rio, um concurso de marchas de carnaval, promovido pela prefeitura carioca: “Trem das Onze” (gravação de Demônios da Garoa), outra obra-prima, cantada por Elis Regina em shows e gravada por Gal Costa.
Abelardo Barbosa, o Chacrinha (1917-1988) - que tive o prazer de entrevistar em 1979 – gostava dos Demônios da Garoa e ajudou a trazer ao Rio (pelo rádio e televisão) o samba paulista de Adoniran.
      
“Eu faço samba que fala em Casa Verde. Eu não posso falar em Copacabana, pois não a conheço, falo então da Sorocabana. Eu falo da Mooca, falo do metrô, da 23 de maio, das nossas ruas, falo da Praça da Sé, de Jaçanã, da Vila Esperança, dos Gusmões.
Falo do que entendo, do que sei”.
Adoniran Barbosa

Adoniran não cantava o português errado por ignorância: era o seu estilo paulistano e italiano do Bixiga. Ele não fazia tipo - andava como imigrante legítimo. Vestia-se tipicamente com terno, gravata e chapéu. Não se fantasiava de habitante do Brás apenas por morar em São Paulo.
Mal aposentado pela previdência, continuou cantando em circos e nos palcos que encontrou pela frente.
Em 1972 gravou o programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, para a TV Cultura (disponível em DVD pela carioca Biscoito Fino desde 2007).
Aceitou convites das TVs Tupi e Bandeirantes, atuando em papéis dramáticos e cômicos nas telenovelas: “Os inocentes”, “Mulheres de Areia” e “Ceará contra 007”.
No início dos anos 70, Adoniran gravou alguns compactos para a RGE, como por exemplo “Nóis Viemos Aqui Pra Que?”, “Jabá Sintético”, e pouca coisa mais. Foram discos de produção modesta e quase anônima, pois mal se ouvia Adoniran, sufocado por um coral carnavalesco.
Seu registro discográfico teria ficado por aí. Mas não ficou.
Apenas em 1974, por iniciativa do produtor paulista, J.C. Botezelli, o Pelão, foi que Adoniran Barbosa gravou, pela EMI-Odeon, seu primeiro LP (12 faixas) com a própria voz, ainda que maltratada pelo tabagismo.
O disco “Adoniran Barbosa” teve direção artística do maestro Lindolpho Gaya (1921-1987) e arranjos de José Briamonte. O disco tocou em rádios, vendeu bem e Adoniran iniciou uma série de shows e entrevistas. Enfim, foi redescoberto.
Em 1975, o mesmo time de produtores lançou outro LP, também chamado “Adoniran Barbosa” com mais 12 faixas bem gravadas – outro sucesso.
Em 1977, Adoniran fez show no Teatro 13 de Maio (São Paulo) com Cartola (1908-1980), Nélson Cavaquinho (1911-1986), Zé Kéti (1921-1999) e Mário Lago (1911-2002), uma verdadeira ponte-aérea do samba.
Em 1980, em homenagem aos seus 70 anos, o produtor Fernando Faro convidou Adoniran a gravar outro LP pela EMI-Odeon chamado “Adoniran Barbosa e Convidados”, um disco de duetos com Elis Regina (1945-1982), Clementina de Jesus (1901-1987), Carlinhos Vergueiro, Grupo Talismã (o conjunto que acompanhava Adoniran em shows), Gonzaguinha (1945-1991), Roberto Ribeiro (1940-1996) e Vânia Carvalho (irmã de Beth Carvalho e mãe de “Luciana”, a canção), Djavan e Clara Nunes (1943-1983). Todo trabalho feito para EMI-Odeon pode ser encontrado em CDs nas lojas online.
Adoniran Barbosa faleceu em 23 de novembro de 1982, mesmo ano de sua fã, Elis Regina.




Nota 1: em 1958, Adoniran compôs “Abrigo de Vagabundo”, onde reconstrói sua maloca e indaga o paradeiro de seus antigos amigos, Matogrosso e Joca.

Nota 2: O conjunto carioca “Nóis Num Semo Tatu”, criação de Robson Camilo, apresenta regularmente desde os anos 90, na casa de shows “Rio Scenarium”, na Lapa, repertório de Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa. Marcelo Pacheco, músico, jornalista e amigo de Phonopress, é violonista do grupo. O último show deles foi mês passado.  

Nota 3: O “senhor” que Adoniran chama no início de “Saudosa Maloca” não é ninguém específico. É o ouvinte da canção que ele convida?

“Adoniran é mais que um repórter, é um historiador.
Quem quiser entender São Paulo da segunda metade
do século passado tem que ouvir a obra dele.”
Orivaldo Perin, jornalista.

Jacy Dasilva  


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Chico Buarque – 20 CDs

Foto/Divulgação
A partir de amanhã, dia 27 de novembro, os cariocas poderão adquirir em bancas de jornal uma coletânea dos 20 melhores discos da carreira de Chico Buarque no período de 1966 a 2006.
Não apenas CD, é um fascículo ricamente ilustrado e com informações importantes sobre o nosso maior poeta musical. Quer mais? O que sairá neste sábado custará R$ 7,90; os demais, R$ 14,90.
O primeiro é o CD-livro “Chico Buarque”, de 1978 (aquele com Chico e as samambaias ao fundo).
Phonopress  - sempre na vanguarda – já comprou, ouviu, leu, e comenta pra você mais um excelente trabalho de relançamento.
A coleção não se limita ao período da Philips e resgata obras do início de carreira na RGE e os discos produzidos para a Ariola, RCA (atual Sony-BMG) e Biscoito Fino. O volume 12 é dedicado ao raríssimo “Calabar”. O último traz Chico em italiano com arranjos de Ennio Morricone, ícone das trilhas sonoras do cinema.

No disco de 1978, temos uma obra fundamental. Chico usa todos os recursos disponíveis nos estúdios da Philips (16 canais!) para mandar recado ao regime autoritário brasileiro (1964-1985). Era o tempo no qual possuir um disco do Chico mostrava seu posicionamento político, além de cultural.
Geisel comandava as tropas; Chico a oposição e a população de pensamento arejado.
A primeira faixa é a saborosa “Feijoada Completa”. Na segunda, Chico faz o que sempre fez melhor: colocar as palavras mais certas e precisas numa letra. É a faixa “Cálice” (parceria com Gilberto Gil), um libelo contra a tortura. Nela temos Milton Nascimento em dueto com Chico e os vocais inesquecíveis do MPB4.
Outro motivo para comprar é a faixa “Trocando em Miúdos”.
O casamento musical de Chico com o maestro Francis Hime foi a melhor combinação de música e letra da história de nossa música: o mestre das palavras e o mestre dos arranjos e regência.
“Trocando em Miúdos” é o retrato mais fiel e insuperável da dor, ironia e tristeza de uma separação conjugal.
E Francis Hime vestia as letras de Chico com beleza e conhecimento musical que nunca mais se repetiria depois de “Vai Passar” (1984).
O disco ainda tem “O Meu Amor” (Marieta Severo e Alcione), “Homenagem ao Malandro”, a profética “Pivete”, "Pedaço de Mim" com a novata Zizi Possi e outras.
A última é “Apesar de Você” - um samba enredo. Um samba enredo político.
O compacto de 1970 foi proibido e recolhido. A Philips garante que salvou a fita-máster e que no disco de 1978 a gravação é a mesma.
Chico canta ao regime verde-oliva que este não seria eterno – e não foi.

Em 1973 ou 78 ainda vivíamos o período marcado pela pergunta:
“Sabe com quem está falando?”.
No tempo ditatorial era assim. Mas o ranço ditatorial ameaça ressurgir na Alvorada.  
O controle social da imprensa é inconstitucional.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Jacy Dasilva   

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Retirante" Gilberto Gil na Livraria Cultura

O Cd "Retirante" de Gilberto Gil já pode ser encontrado na Livraria Cultura de São Paulo.
Até ontem, procurei na mesma livraria e não encontrei.

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/musica/resenha/resenha.asp?nitem=11035365&sid=153161184121123520732296846&k5=128E7C13&uid=

Custa R$ 29,60 mais frete.
Vale cada centavo.

Jacy Dasilva

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Gilberto Gil - Retirante (2010)

Lançado em CD as primeiras gravações de Gilberto Gil. É o CD duplo "Retirante", pela gravadora Discobertas.
O lançamento data de agosto mas não tem onde comprar, inexplicavelmente.
Traz as primeiras gravações do gênio baiano, inclusive em 78 rotações. Se você só conhece Gil a partir de "Domingo no Parque", vale a pena procurar.
A caixa "Ensaio Geral" (13 CDs), lançada em 1999, cobre o período do artista na gravadora Philips, atual Universal Music. Outra caixa, chamada "Palco" (28 CDs), de 2002, relançou o período da Warner. Seus discos sempre venderam bem, desde os tempos do LP.
A parceria de Gil e o produtor, ex-presidente da Philips e Warner e amigo, André Midani está toda registrada em CDs.
Mas faltava reunir suas gravações mais primitivas pela JS, RCA e Arlequim.
O produtor Marcelo Fróes põe no mercado o que faltava.
O projeto gráfico da capa pode não empolgar. Mas o encarte de 16 páginas é lindo.
O trabalho de garimpo reuniu 32 faixas divididas em dois CDs.
A qualidade é satisfatória. Afinal, as primeiras gravações são de 1962. Tem coisas interessantes, como "Povo Petroleiro” e “Coça Coça Lacerdinha”.
É verdade que parte do material já foi lançado anteriormente em outras compilações de Gil, mas em "Retirante" está tudo no mesmo lugar. Tem as primeiras gravações de “Procissão” e “Roda”.
O segundo CD é ainda mais interessante porque resgata uma gravação demo para a editora musical Arlequim, em 1966.
A simplicidade de Gil e seu violão em 18 músicas é comovente.
Gilberto Gil nunca foi de pular de gravadora em gravadora. Ao contrário, sua discografia é de fácil pesquisa: basicamente Philips (Universal) e Warner.
Daí a a improtância de "Retirante".
Mas Phonopress não entende a dificuldade em encontrar o bom disco.
Nos Estados Unidos, a loja online www. amazon.com tem. Aliás, tem até os discos de Gil que nunca foram lançados no Brasil. A HMV britânica, idem.
Uma parte significativa de CDs fundamentais de música brasileira só é encontrada fora do Brasil. E não estamos falando de artistas que partiram e não voltaram ou obscuros.
Jobim nunca saiu de catálogo nos Estados Unidos. Elis Regina tem toda a discografia lançada e relançada no Japão. Marcos Valle é figurinha fácil nas lojas inglesas.
O CD "Retirantes" não tem na Saraiva, Livraria Cultura, Fnac, Americanas ou Submarino.
Mas eu juro que ele existe. Comprei, por mero acaso, num hipermercado, num cesto cheio daqueles discos que você tem que garimpar e, invariavelmente, não acha nada aproveitável.  O site do próprio mercado não tinha o CD para venda. Telefonei para as poucas lojas de discos remanescentes no Rio e ninguém tinha.
Um site pra lá de suspeito afirma ter mas sem nenhum sistema de proteção à compras online.
Listo as faixas - que são boas. O CD não se destina apenas a colecionadores e fãs.
É pura MPB.

CD 1
01. Povo Petroleiro
02. Coça Coça Lacerdinha
03. Serenata do Teleco-teco
04. Maria Tristeza
05. Vontade de Amar
06. Meu Luar, Minhas Canções
07. Decisão - Amor de Carnaval
08. Vem, Colombina
09. Procissão
10. Roda
11. Iemanjá
12. Ensaio Geral - Versão Compacto
13. Minha Senhora
14. Felicidade Vem Depois

CD 2
01. Me Diga, Moço
02. Rancho da Rosa Encarnada
03. Vento de Maio
04. Ensaio Geral
05. Rancho da Boa Vinda
06. Serenata de Teleco-teco
07. Meu Choro Pra Você
08. Beira-mar
09. Zabelê
10. Minha Senhora
11. Ninguém Dá o que Não Tem
12. Decisão - Amor de Carnaval
13. Antigamente
14. Maria - Me Perdoe, Maria
15. Iemanjá
16. A Última Coisa Bonita
17. Retirante
18. Cantiga


Se o garimpo de reunir as faixas é admirável, a dificuldade para encontrar o CD é vergonhosa.
Jacy Dasilva

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

The Beatles disponível no iTunes

Foto: Alcemar Oliveira. Gentilmente cedida para Phonopress


Há cerca de 3 meses, perguntaram a Yoko Ono sobre os avanços nas negociações para colocar o catálogo dos Beatles no iTunes (Folha de São Paulo, 6 de agosto de 2010). Ela respondeu:

"Os Beatles ficarão longe do iTunes por um bom tempo.
Esperem sentados pela venda de músicas dos Beatles no iTunes ou outras lojas online".

O tempo passou rápido.
Hoje, o site americano iTunes anuncia a venda online de todo o catálogo dos fab four.
Mas não fique muito animado - o Brasil está de fora. O "privilégio" está disponível em apenas 25 países.
Também não se estusiasme à toa. O preço por cada arquivo de áudio (com aquela qualidade duvidosa) é salgado.
Faça as contas.
Cada faixa está saindo por US$ 1,29 (cerca de R$ 2,25).
Os álbuns simples estão custando US$ 12,99 (cerca de R$ 22,46).
Os duplos custam US$ 19,99 (R$ 34,60).
Aqui mesmo no Brasil é possível comprar toda coleção dos Beatles por valor semelhante (dependendo do álbum) nas lojas (Saraiva, Fnac, Cultura) ou online (Submarino, Saraiva, Cultura, etc.).
Os CDs trazem a vantagem de sistematizar os álbuns como foram concebidos; tiveram boa remasterização em 2009; não têm nenhum tipo de compressão canhestra e ainda oferecem um documentário sobre a história de cada disco.
Bom, o material gráfico (fotos, desenhos e textos) também é de primeira e mais um ponto em favor dos CDs.
Além disso, você armazena para ouvir do jeito que quiser - comprime ou não.
Um CD não é eterno, mas tem a vida mais longa do que qualquer tocador de MP3.
Os iPods de hoje têm uma capacidade que dispensa qualquer compressão.
Oficialmente, os Beatles tiveram a primeira vida discográfica entre 1962 e 1970. Foram um fenômeno musical e mercadológico.
Venderam muito no velho formato LP. Após a separação, fizeram mais dinheiro com o velho catálogo.
Novo sucesso de vendas na primeira versão em CD de 1986.
A versão de 2009 arrastou grisalhos, marmanjos às lojas e, surpreendentemente, os jovens -  uma nova legião de admiradores.
E as vendas nunca pararam no mundo inteiro.
A EMI precisa vender tudo de novo para sair da falência. Há 48 anos, os Beatles "salvam" a gravadora britânica. A fonte de Phonopress é a edição eletrônica do The New York Times de ontem.
É um milagre que John, Paul, George e Ringo tenham ficado ricos, pois os contratos assinados eram leoninos. As fitas eram economizadas e, até para uma geladeira (com cadeado) no estúdio, foi necessário ofício ao presidente da gravadora.
Paul McCartney, Ringo, as viúvas de John Lennon e George Harrison não precisam do iTunes.
O iTunes e a EMI precisam dos Beatles.
Os Beatles farão novamente história no iTunes.
Jacy Dasilva

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Warsaw Concerto (Concerto de Varsóvia) – Richard Addinsell (1941)

Em 1941, o mundo estava em guerra e o cinema – ainda em sua infância – contribuiu no esforço de elevar o moral dos habitantes e combatentes europeus invadidos, literalmente, pela máquina de guerra nazista.
O filme de 1941, da RKO britânica, “Dangerous Moonlight” (“Luar Perigoso”, no Brasil), seria mais um filme de guerra, não fosse pela originalidade em valorizar os milhares de soldados poloneses que lutaram com os Aliados na esperança de libertar a Polônia do nazismo – o que não foi destaque à época de seu lançamento. O que de fato marcou o filme foi sua trilha musical.
O filme conta a história de Stefan Radetzky, um pianista polonês apaixonado por uma repórter americana, relutando em deixar a Varsóvia bombardeada e prestes a ser ocupada. Foge, convencido pelos amigos. Chega aos Estados Unidos, via Romênia, mas volta à Europa para ajudar na libertação da sua terra natal. Alista-se como piloto voluntário da força aérea britânica (RAF), é abatido em voo e hospitalizado na Inglaterra. Perde a memória, que é recobrada, quando toca ao piano seu famoso “Concerto de Varsóvia”.

A trilha sonora
Os produtores pensaram em usar o “Concerto № 2 para Piano”, de Rachmaninov (1873-1943), que negou o uso da obra e recusou o convite para compor uma trilha original. O fato é compreensível: o cinema era visto como um divertimento barato e como farsa do teatro.
Richard Addinsell (1904-1977) foi chamado para a tarefa de criar um tema musical no estilo Rachmaninov. Addinsell fez o trabalho pelo qual seria lembrado durante toda sua vida.
O ator principal, Anton Walbrook (1896-1967), sabia tocar piano, mas um profissional foi chamado para a tarefa – Louis Kentner. O preconceito a respeito da música de cinema era tanto que Louis pediu para que seu nome não aparecesse nos créditos temendo por sua carreira.
O tema é um concerto para piano de apenas um movimento. Aparentemente simples, dá vida às cenas de combates aéreos reais que foram usadas no filme.
Os espectadores ligavam para os cinemas para perguntar o nome do concerto usado no filme.
Addinsell estudou direito sem terminar o curso. Igualmente iniciou música em conservatórios sem terminá-los também. Foi contratado, em 1931, para musicar uma versão americana de Alice no País das Maravilhas. Voltou à Inglaterra e dedicou-se a compor para o cinema e depois para TV.
O “Concerto de Varsóvia” não é considerado uma obra clássica ou erudita. É tido como semiclássico e indicado a estudantes de piano. Pode ser.
Porém, erudito ou não, foi ouvido pelo público – o que todo compositor almeja.
Seu concerto foi usado em transmissões radiofônicas por toda a Europa no período da guerra e depois dela. Também foi gravado em LPs e CDs por várias orquestras.
As execuções por pianistas clássicos não são mais motivo de vergonha.
Após a morte de Rachmaninov, sua obra foi freqüentemente usada no cinema. O “Concerto № 2 para Piano” foi cedido ao filme “Brief Encounter” – 1946 (“Desencanto”, no Brasil) de David Lean (1908-1991).

No primeiro vídeo do YouTube, temos a execução pela Banda Sinfônica da RAF com cenas de batalhas aéreas.



No segundo, a pianista romena, Ioana Maria Lupascu, com a Orquestra Filarmônica da Romênia, exibindo uma performance longe de ser estudantil.




E a Polônia?
A invasão da Polônia em 1 de setembro de 1939 marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Porém, no dia 17 do mesmo mês, a Polônia foi novamente invadida pela Rússia – fato pouco lembrado. Churchill (1874-1965), que declarou guerra à Alemanha para libertar os poloneses não declarou guerra à Rússia.
Stalin (1879-1953) e Hitler (1889-1945) já haviam assinado um acordo que daria o lado oriental da Polônia aos russos. Ao final da guerra, todo território polonês foi anexado pelos russos. Não vou mencionar a Conferência de Yalta (1945) e outros acordos que não melhoraram a situação polonesa.
Os poloneses, que lutaram cegamente com os Aliados, não sabiam que o destino de seu país já estava selado desde o começo do conflito.
Apenas na RAF havia 145 pilotos poloneses, o maior contingente estrangeiro na força aérea.
A Polônia só viria a ser um país soberano em 1989.
Jacy Dasilva