segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A “Invasão Britânica” – O Nascimento do Pop Inglês

Já mencionei o termo “invasão britânica” neste blog algumas vezes. No futuro próximo, eu pretendo comentar alguns nomes do "British Pop" da década de 60 do Século XX. Assim,  uma explicação do fenômeno é necessária.
Classicamente, a “Invasão Britânica” denomina apenas a chegada dos Beatles aos Estados Unidos (7 de fevereiro de 1964) e a apresentação no The Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964. Da mesma forma, o termo se aplica a todos os outros artistas britânicos que chegaram aos Estados Unidos depois destes eventos.






O intercâmbio cultural entre o Reino Unido e os Estados Unidos durante o Século XX foi intenso. O Jazz foi o primeiro estilo musical americano a atravessar o Atlântico e conquistar o Reino Unido na década de 1920 – os “anos loucos”. Em contrapartida, Charles Chaplin (1889-1977) foi para os Estados Unidos e tornou-se um astro de proporções mundiais.
Os compositores clássicos e britânicos Edward Elgar (1857-1934) e Gustav Holst (1874-1934) já eram admirados em terras americanas.
No final da década de 1930, o diretor Alfred Hitchcock (1899-1980) foi para os Estados Unidos e desenvolveu um estilo único de fazer cinema. Hitchcock foi o primeiro diretor de cinema a atrair plateias aos cinemas apenas pelo fato dele ser o diretor.
Ainda na década de 1930, as Big Bands causavam o mesmo furor que uma banda de Heavy Metal causa nos dias atuais, e nos dois lados do Atlântico.
Os discos e o rádio foram fundamentais para a divulgação de artistas como Glenn Miller (1904-1944), Duke Ellington (1899-1974), Count Basie (1904-1984), Benny Goodman (1909-1986) e Louis Armstrong (1901-1971). As turnês destes artistas na Europa eram frequentes.
Os discos americanos eram difundidos por toda a Europa graças ao poder da rádio BBC. Os cantores e intérpretes de jazz britânicos não tinham a mesma chance em terras americanas. Mas isso mudaria.
Em 1938, nos Estados Unidos, a transmissão radiofônica por Orson Wells (1915-1985) da “Guerra dos Mundos”, do autor britânico H.G. Wells (1966-1946) causou terror, mas é inegável que os livros de Wells, Agatha Christie (1890-1976), Arthur Conan Doyle (1859-1930) formam mais lidos em terras americanas depois do programa de Orson Wells.
Em 1939, Frank Sinatra (1015-1998) gravou seus primeiros discos e se tornou o primeiro pop star da música. E, então, veio a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que mudou tudo para sempre.
Os Estados Unidos não entraram na guerra de imediato, havia grande resistência entre a população. Mas os americanos produziam armas e as enviavam para os britânicos e seus aliados.
Após o ataque à base americana de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, Franklin Roosevelt (1882-1945) juntou-se a Winston Churchill (1874-1965) e as duas nações comandaram a resistência e a ofensiva ao nazifascismo.
Sinatra e Bing Crosby faziam shows e gravavam discos específicos para elevar o moral das tropas e arrecadar fundos para a guerra.
O cinema produziu obras-primas que podem ser vistas até hoje, como “O Grande Ditador”, de Chaplin e “Casablanca”, de Michael Curtiz (1866-1962).
Os britânicos produziram filmes como “Dangerous Moonlight”, com seu famoso Warsaw Concerto (comentado aqui neste blog: http://www.phonopress.com/2010/11/warsaw-concerto-concerto-de-varsovia.html) , e “Love Story (1941) e também visto aqui em: http://www.phonopress.com/2011/01/cornish-rhapsody-huberth-bath-1944.html.
Mas a resistência do povo britânico foi o fator decisivo para a vitória dos Aliados. Londres e outras cidades britânicas foram atacadas durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) por dirigíveis (os Zeppelins); na Segunda Guerra e pela primeira vez na História, por mísseis V1, V2 e aviões. Estes, chamados de Stukas,  possuíam sirenes com único propósito de causar terror. E causavam. Assim, Londres foi destruída novamente.
Os discursos de Churchill – via BBC – à população forneciam conforto e pediam bravura aos britânicos e aos soldados nos campos de batalha.



A cantora londrina Vera Lynn foi uma verdadeira soldado com sua voz. A canção “We’ll Meet Again” consolou e deu esperança de reencontro às famílias que mandaram maridos e filhos para o combate e para as mães que mandaram crianças para a Austrália, pois estavam vulneráveis demais em Londres, Liverpool e Manchester.



E, assim, resistindo e combatendo, o Reino Unido não sucumbiu ao nazismo.
Ao final da guerra, existiam cerca de 100 bases militares americanas na Inglaterra. Os discos americanos chegavam às bases via navios e aviões. As rádios britânicas tocavam Sinatra, Crosby, Ella, Nat Cole e Tony Bennett. Este último tornou-se cantor após combater como soldado na Europa.
A guerra acabada trouxe problemas. O nazismo derrotado devolveu a sensação de liberdade perdida. Mas as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki tiveram como consequências sócio-políticas: a Guerra Fria e a sensação de apocalipse instantâneo. Em outras palavras: estamos livres mas, como podemos morrer a qualquer momento, vamos viver tudo intensamente.
Para este autor, estas são as raízes do Rock & Roll americano e britânico. E mais, um estilo feito pelos jovens e para a juventude.
Os americanos absorveram os estilos R&B, o Blues, o Jazz, o Gospel, o Country-Western e daí nasceu o seu próprio Rock: o negro e o branco.
Bill Haley & His Comets, Pat Boone, The Beach Boys, Jerry Lee Lewis e Elvis Presley para os brancos.
Little Richard, Chuck Berry e Ray Charles para os negros. Infelizmente, havia segregação racial na música americana.
Os britânicos ouviam de tudo e foram influenciados por todos igualmente. E devolveram aos americanos, o Rock & Roll muito mais interessante: branco, negro, britânico e para todos.
As crianças que nasceram antes da Segunda Guerra, como George Martin (EMI) e Les Reed (Decca) produziram os jovens nascidos na guerra, como Lennon, McCartney, Tom Jones, Adam Faith, The Who, Rolling Stones e uma lista que vem até os dias de hoje.

Não poderia deixar de mencionar que o sistema educacional britânico contava com várias escolas de artes, responsáveis pela formação de vários talentos no período do pós-guerra.

Agora sabemos a história por trás da histeria.
Nota Fora da Pauta (Note Outside Score Music)
Nota 1 – Meu padrastro, Jimy Nitkowski, estava na plateia do The Ed Sullivan Show, assistiu The Beatles e o nascimento da Beatlemania.
Jacy Dasilva

domingo, 30 de outubro de 2011

I’m So Glad I’m Standing Here Today – The Crusaders & Joe Cocker (1981)



* O YouTube não permitiu a exibição deste vídeo na Alemanha, apesar de ter usado fotografias autorizadas e utilizado meu próprio disco de vinil para inserir a canção. Peço desculpas aos leitores da Alemanha.


O grupo The Crusaders teve início no final dos anos de 1960. Na época, The Jazz Crusaders fazia uma mistura de Jazz tradicional, Gospel e Rock. Nos anos de 1970, o grupo passou a se chamar “The Crusaders” apenas, mas com a mesma mistura de ritmos, acrescentado o Pop e o Funk.
Foto: CD do autor.
The Crusaders estava prestes a gravar o terceiro álbum para a MCA Records em 1981, quando Joe Sample, pianista e líder do grupo, chamou o letrista Will Jennings para compor. Em vários dos álbuns do grupo – essencialmente instrumental – um artista era convidado a cantar. Para o álbum “Standing Tall” (MCA, 1981) o escolhido foi Joe Cocker.
Em entrevista, o letrista Will Jennings disse:
“Parecia que todos haviam escrito: ‘Fora Cocker’ – todos, menos nós. Por isso, escrevi uma música acerca de sobrevivência e triunfo – que penso eu -, ajudou Cocker a sobreviver e triunfar”.

Foto: disco do autor.
Foto: disco do autor.
Joe Cocker tinha apenas 37 anos, parecia ter muito mais, e já estava desacreditado por todos. Apesar da reabilitação, os convites para shows eram escassos e as gravadoras não o queriam mais. Quando o grupo “The Crusaders” levou a ideia de convidar Cocker para cantar duas músicas no álbum, a MCA Records foi contra: era um cantor sem crédito e sem contrato.
O álbum “Standing Tall” tem apenas 7 faixas. Joe Cocker cantou “I’m So Glad I’m Standing Here Today” com o entusiasmo de um jovem e a poderosa voz estava intacta. Sem exagero, Joe Cocker "roubou" o álbum. A última faixa é uma versão belíssima de "I'm So Glad... ".
O nome de Joe Cocker não aparece na capa do álbum. Apenas no verso, lê-se seu nome nas faixas “I’m So Glad I’m Standing Here Today” e “This Old World’s Too Funky For Me”. Fotografia, nem pensar. O single (compacto) foi lançado e as primeiras prensagens também não tinham uma fotografia de Cocker. Depois que música se tornou um sucesso mundial, uma nova leva de singles (compactos) trouxe uma fotografia de Cocker ao lado dos músicos. Seu envelhecimento aos 37 anos era perturbador. No Brasil, a música foi muito executada nas estações de rádio do Rio de Janeiro. Os locutores anunciavam: "Joe Cocker & Crusaders" e não o contrário.
As duas músicas cantadas por Joe Cocker foram indicadas ao Grammy Awards. Segundo Will Jennings:
“Na cerimônia do Grammy Awards, no Shrine Auditorium, Joe Cocker roubou a cena. O diretor de cinema Taylor Hatckford foi nocauteado pela performance e me pediu que escrevesse uma letra para seu próximo filme ‘An Officer and a Gentleman’ (A Força do Destino, 1982) e queria que Cocker a cantasse. ' I’m So Glad...'  marcou o recomeço de Cocker e ‘Up Where We Belong’ consolidou sua volta.”



Notas Fora da Pauta (Notes Outside The Musical Score)
Nota 1 – “I’m So Glad I’m Standing Here Today” não venceu o Grammy (Best Inspirational Music).
Nota 2 – “Standing Tall” é o album de maior vendagem do grupo “The Crusaders”.
Nota 3 – “Up Where We Belong” recebeu o Academy Awards de melhor canção e o Grammy Awards de Melhor Canção em Dueto de 1982. Foi 1º lugar na Billboard e 4º no British Top 50 Charts.
Nota 4 – No filme “An Officer and a Gentleman”, os atores Debra Winger e Richard Gere dançam ao som de “Feelings”, de Morris Albert, compositor brasileiro.
Nota 5 – A discografia de Joe Cocker após a reabilitação é extensa e repleta de sucessos.
Nota 6 – Em 2007, em entrevista à Agência EFE, Cocker respondeu que não é compositor, prefere escolher boas músicas de outros autores e interpretá-las de modo que pareçam compostas por ele. E, humildemente, acrescentou: "Não tenho autoridade para dar conselhos". 
Nota 7 – Em 2007, Joe Cocker recebeu a Ordem de Oficial Império Britânico (OBE). Em comemoração, fez duas apresentações em Londres e Sheffield, sua cidade natal.
Nota 8 – Em 2010, Cocker lançou “Hard Knocks” (Sony), seu mais recente e elogiado álbum. Sua agenda de shows continua lotada.
Jacy Dasilva